Quando só resta aceitar a dor

dor
Tenho um amigo que travou. Não dá conta de fazer as coisas que sempre fazia no trabalho. Fica angustiado com o simples fato de pensar que no outro dia terá que entrar no carro, dirigir até a empresa e executar tarefas que durante anos lhe deram prazer. Porém, sem alternativa, destrói um pouco mais de sua autoestima a cada novo dia.

Embora não seja nada recomendável, o que ele faz não é muito diferente do que faz um monte de gente. Há pessoas que vivem sem viver. E não por desejarem isso, mas porque não encontram uma outra forma de lidar com os problemas. O desgaste é contínuo. Entretanto, não há saída.

Por circunstâncias que nem sempre a gente dá conta de explicar, às vezes, perde-se o prazer de fazer coisas que antes se fazia sorrindo. Isso acontece com muita frequência no trabalho. Mas também dentro dos relacionamentos. E é comum a gente só perceber quando o quadro está instalado e não há mais nada a fazer.

Um dia você acorda e descobre que cansou. Um cansaço que não basta horas de sono. Nem apenas um período de férias. É um esgotamento completo. Daqueles que roubam as energias e até a vontade de viver. Não dá vontade sair da cama, não dá vontade de sair de casa, não dá vontade de ver as pessoas, falar com as pessoas. Tudo que se deseja é um estado de abandono, de esquecimento, de silêncio.

Esse mergulho na escuridão no próprio interior nem sempre é um diálogo com a depressão. Mas, quando se chega a este ponto, não estão bem definidos os limites entre estar triste, angustiado, ansioso, frustrado ou decepcionado com a vida e esse quadro de doença psíquica. Tudo se resume a um não-querer.

Nessas horas, as palavras do outro não resolvem. Escutar algo do tipo:

– Isso passa.

Ou:

– Deixa de bobagem. Você é uma pessoa incrível. Não tem razão pra ficar assim.

Escutar certas frases só potencializam o desejo de afastar-se de tudo e de todos. E, infelizmente, quem está de fora raramente reúne as habilidades necessárias para dar novos sentidos à vida de alguém que cansou.

Quando a gente trava diante de algo, ou até mesmo de um relacionamento, não adianta querer experimentar receitas alheias. Resta aceitar que tudo passa – inclusive a dor. Não se tem dia, hora, nem prazo… Mas passa. A gente apenas não pode se abandonar. Comer direitinho, cuidar da imagem, passar um perfume, vestir uma boa roupa devem fazer parte da rotina. Porque não existe nada pior que olhar no espelho e ver ali um “zumbi”. Não dá para viver com pena da gente. E nem podemos achar que tudo de ruim só acontece com a gente. A vida é mesmo assim… pra todos.

Anúncios