Não quero te ouvir

atencao
Poucas vezes escrevi inspirado por uma imagem. Entretanto, algumas imagens reclamam sentidos. Pedem que a gente converse com elas.

Hoje, “trombei” com esta fotografia. Foi compartilhada no Facebook. Tinha uma legenda. Nem li. Apenas salvei. Queria dialogar com a foto. Sem a interferência de outros dizeres.

Enquanto contemplava a cena, pensei na maneira como temos vivido. Estamos ilhados. Não ouvimos mais ninguém.

somPara muita gente, a companhia é um som qualquer. Uma música, alguém falando no rádio. No ônibus, no carro, caminhando pelas calçadas, ou mesmo enquanto corre em volta do parque, pessoas de diferentes idades se isolam do mundo. Optam por nada ouvir. Nem mesmo a voz do coração. Roubam a oportunidade de se (re)conhecerem.

O barulho das ruas, o trânsito, o movimento. Ou o simples ruído que vem das árvores, dos pássaros… nada é ouvido. Nada é notado. De alguma maneira, o aparelho ajuda a nos fecharmos em nós e para nós mesmos.

Enquanto o fone está ali, mandamos um recado para quem se aproxima:

– Não quero te ouvir. Me deixe em paz!

Mais que se distanciar de tudo, quando não escutamos, deixamos de perceber, sentir, experimentar. Sentimentos, emoções; sorrisos ou lágrimas… Tudo é ignorado. O outro é rejeitado.

Na medida em que o volume aumenta, cresce o abismo entre nós e aqueles que nos cercam. Quem reclama nossa atenção, não basta chamar. Nem adianta apenas tocar. Conquistar a escuta de alguém é sonho de outros tempos. Talvez por isso tanta gente fale alto. É um grito interior, desejo de ser notado.

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Exame da Ordem avalia a ética do advogado?

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Todas as vezes que vejo os resultados dos exames da OAB fico pensando numa questão que me incomoda profundamente:

Exame da Ordem avalia a ética do sujeito?

Acho interessante o sistema. Não acho que deveria ser abandonado. Entretanto, entendo que algumas coisas são questionáveis.

A lista preliminar do Exame de Ordem Unificado divulgada na última sexta-feira, 22, trouxe um dado assustador. De cada 10 participantes, nove foram reprovados. Foi o menor índice de aprovação desde a unificação (prova única para todo o país), ocorrida em 2009.

Será que o problema está na formação dos futuros advogados? As escolas é que são muito ruins ou a prova  não estaria em sintonia com a realidade das faculdades de Direito?

Para mim, os números apresentados após cada novo Exame não respondem essas questões.

Cá com meus botões, acho que o sistema criou um sistema paralelo de ensino, o dos cursinhos – um verdadeiro esquema “caça-níquel”. Quem não faz cursinho, não passa.

E a principal pergunta sequer tem a ver com o que se estuda em sala. Tem a ver com o compromisso do profissional com seu cliente, com a sociedade em que vive. 

Acho o trabalho do advogado importantíssimo. É ele quem ajuda a fazer justiça, a equilibrar relações desiguais. Porém, uma carteirinha da OAB não garante ética, mas coloca esse sujeito no mercado de trabalho.

PS – Não tenho respostas para estas questões. Entretanto, penso que o assunto merecia um amplo debate. 

Eu mudaria por você

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Acho a frase linda. Parece devoção total. Entrega. Dedicação ao outro. Prova de amor. Entretanto, o que sugere desejo pleno de fazer bem ao outro silencia problemas futuros, insegurança e até baixa autoestima.

A frase sempre deveria levar a pensar…

Por que você mudaria por mim? Essa mudança é resultado de uma reflexão, convencimento, de crença real na necessidade de ter novas atitudes?

Vamos além…

Se a gente não der certo, as mudanças seriam permanentes? Você continuaria a agir de acordo com o que eu acho correto? Ou seria apenas para me agradar?

Não se muda pelo outro. A mudança tem que ser por mim, para mim… Porque me convenci de que fará bem pra mim. Não pode ser pelo outro. O outro pode ir embora amanhã, depois… E você? Estará feliz com o que se tornou?

Quando a gente abandona determinados hábitos, comportamentos, e faz isso apenas para atender os gostos da pessoa amada, não há uma ruptura real. Nos dias felizes do relacionamento, o que foi deixado não faz falta, mas, na primeira crise, as cobranças acontecem.

– Eu mudei meu jeito de vestir por você!
– Deixei de fumar por você!
– Não estou saindo mais para jogar por sua causa!
– Parei com as baladas só por seu ciúme!

É ridículo, inclusive, condicionar a volta ou mesmo o início de um romance a essas mudanças. Tem aqueles que, no “desespero”, soltam essa famigerada frase “eu mudaria por você”.

Se mudaria, por que não faz isso agora? Por que não começa já? Só vai mudar depois?

Não se muda para atender um capricho do parceiro.

Esse tipo de mudança não presta. É negação de si mesmo. Concessões são importantes para garantir o romance. Entretanto, devem ser resultado de amplo diálogo e convencimento. Quando a gente deixa de fazer algo pelo outro, precisa entender o quanto isso é significativo para o relacionamento e, principalmente, que o comportamento rejeitado não deveria ser cultivado no dia a dia.

Abrir mão de algo deveria significar uma busca de renovar-se, de transformar-se, tornar-se uma pessoa melhor. A tentativa sincera de um jeito diferente de viver. Diferente disso, só gera frustração, abre brechas para futuros confrontos e problemas sobre os quais dificilmente o casal terá controle.

Em defesa da educação a distância

Entre as vantagens está a chance de escolher a melhor hora e local para estudar
Entre as vantagens está a chance de escolher a melhor hora e local para estudar

Dias atrás, enquanto conversava com uma colega sobre a qualidade da educação brasileira, ouvi um comentário que me deixou incomodado. Ela questionava a formação de professores pela modalidade da educação a distância. Dizia que o aprendizado da molecada está comprometido, principalmente depois desse monte de gente que está indo para sala de aula tendo feito uma faculdade não-presencial.

A modalidade é recente no Brasil. Pelo menos, nas instituições de ensino superior. Mas a origem é antiga. Por aqui e também no exterior. Em nosso país, uma das primeiras experiências foi no rádio, ainda com o criador da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, Edgar Roquete Pinto. Ele idealiza esse veículo de comunicação como uma ferramenta importante para educação da população mais pobre.

Depois, tivemos outras inúmeras iniciativas. Entre elas, a do Instituto Universal Brasileiro, com cursos por correspondência. Porém, no ensino superior, tornou-se uma realidade após os anos 1990.

Durante bastante tempo, também tive uma visão preconceituosa da educação a distância. A ideia era de que esses cursos serviam àquelas pessoas que desejavam algo fácil, sem muito comprometimento. Só pra garantir o diploma mesmo. Entretanto, conforme fui pesquisando o assunto, conversando com gente especializada e até mesmo alunos, descobri que EAD é assunto sério. E por várias razões.

A primeira delas é a legislação. O governo brasileiro é bastante rigoroso. Até o credenciamento é mais complicado. A faculdade interessada tem que apresentar um projeto detalhado e complexo para ter um curso aprovado. E todos devem ter o “ok” do Ministério da Educação.

Outra questão fundamental é a estrutura da instituição. Corpo docente, tutores, estrutura técnica, material didático… Não se oferece a modalidade sem estar tudo muito bem organizado.

Além do mais, não existem alunos sem supervisão, acompanhamento e avaliações presenciais. Os pólos são espaços que recebem frequentemente os acadêmicos. E não dá para “fingir” que estudou. Talvez por isso, na educação a distância, o índice de desistência é um dos mais altos. Afinal, muita gente que escolhe a modalidade também acha que é mais fácil. Não é. O aproveitamento pode ser muito semelhante ao do ensino presencial.

Na verdade, quando se questiona EAD, faz-se um recorte bastante injusto. A falta de qualidade não é um problema da modalidade. É um problema da educação brasileira. Da ausência de políticas públicas que contemplem a formação plena de jovens e adultos. Professores, administradores, contadores etc etc também são mal formados nas faculdades presenciais. Instituições “caça-níquel” existem aos montes. Presenciais ou não.

Ao contrário do que alguns dizem, a EAD é sim uma possibilidade real de democratizar o acesso ao ensino, inclusive pelos custos. No entanto, esta ou qualquer outra modalidade só vão transformar a realidade brasileira se houver compromisso real com a educação – pensando, primeiro, no indivíduo, na construção da cidadania; e não no ensino como negócio.

Na segunda, uma música

No último texto da semana, falei sobre separações. E como não é nada fácil lidar com esses momentos. Perder alguém machuca tanto que é um dos temas mais recorrentes na música, na poesia. Pior é quando deixa o outro ir e só depois, já sofrendo, descobre o quanto sente falta.

Is This Love?”, da banda britânica Whitesnake, tenta resumir sentimentos tão intensos. Depois que ela vai embora, apaixonado ele diz:

Dias perdidos e noites sem dormir
E eu não posso esperar pra te ver de novo
Eu descubro que gasto meu tempo esperando sua ligação

Lá dentro do peito vira uma confusão… Dói. Mas incomoda ainda mais porque o sofrimento parece fazer descobrir o amor.

É amor isso que estou sentindo?
Esse é o amor que eu estive procurando?
Isso é amor ou eu estou sonhando?

Na medida que os dias passam, a ausência torna-se mais sentida. E o desejo de estar ao lado faz o coração reclamar a pessoa amada.

Eu posso sentir meu amor por você
Ficando mais forte a cada dia que passa
E eu não posso esperar pra te ver de novo
Para que eu possa te envolver nos meus braços

Vamos ouvir?

Nem todas as lágrimas são necessárias

triste

Não há separação sem sofrimento. Porém, tem gente que sofre mais; tem gente que sofre menos. Significa que um amava mais que o outro? Não acredito nisto. Penso que a diferença está na forma como se encara a perda.

Parece ter sido convencionado: sofrer pouco é sinônimo de amar pouco. O fim teria que ser traumático, de muitas dores, lamentações, horas e horas no quarto sem ver ninguém. Quando encontra uma amiga, é para derramar ainda mais lágrimas.

Mas teria que ser assim?

Perder alguém dói. E dói muito. Quem decide deixar a relação, pensou nisso, preparou-se. De alguma forma, criou estratégias internas para lidar com a ruptura. Quem ouviu o “não quero mais”, talvez tenha notado que as coisas não iam bem, mas provavelmente acreditava que daria certo. Então, seguiu apostando no romance. Tinha esperanças e não fez planos para o “depois do fim”.

Ainda assim, entendo que muitas vezes o sofrimento é superdimensionado. Respeito o choro, a angústia, a tristeza. Mas há vida após tudo terminar.

Muitas lágrimas seriam evitadas se as pessoas entendessem que relações são feitas por desejo mútuo. Não, não estou falando de sexo. Falo do desejo de estar junto. Estar perto. Dividir. Compartilhar. Quando isso deixa de existir, o romance perde o sentido. O outro é o outro. E se não quer a mesma coisa que nós, é preciso aceitar. Aceitar que a pessoa amada tem o direito de ir embora. Ninguém é dono de ninguém.

Parte do sofrimento nasce no sentimento de posse. A gente ama, mas não apenas ama… Quer ser dono. Acontece que mal temos controle da própria vida. Como dar conta de “segurar” alguém? Não dá. É impossível.

Entretanto, apenas aceitar que o outro pode escolher outra vida não é suficiente para acalmar o coração. É fundamental ter atitude. Chore no primeiro dia, no segundo, terceiro… Mas chego o momento de tomar um banho, fazer a maquiagem (ou tirar a barba), passar um perfume gostoso, vestir uma roupa bonita e sair de casa. Não, não é pra sair em busca de outra pessoa. É sair pra viver. Fazer as coisas do dia a dia, porque chorar não traz ninguém de volta. E se traz, traz por pena. E por pena, não vale.

Quando termina, é preciso limpar as gavetas. Essa coisa de ficar revendo os presentinhos do ex, procurando o perfume dele nas roupas… tentando encontrá-lo nos objetos que ficaram… Fazer isso só aumenta a dor. É necessário tirar de diante dos olhos tudo que faça referência ao ex. Apagar as mensagens no celular, os emails… Evitar, inclusive, os ambientes que frequentavam juntos. Ficar trombando com coisas, lugares e gente que traz lembranças da pessoa amada só faz doer por mais tempo.

Essa coisa de ficar espiando o Facebook do ex pra saber o que ele(a) está fazendo… também é horrível. Faz mal.

Quando acaba, acaba. Por mais que queira trazer de volta a pessoa amada, não dá para ficar bem se continuar ligando, mandando mensagens, tentando encontrar… Nessas horas, o ex, por mais que queira ser gentil, tem que dar uma ajudinha: sair de cena também. E respeitar a dor alheia. Terminar, mas continuar por perto só judia ainda mais.

Seria incrível se todos os relacionamentos fossem eternos. Se todo mundo encaixasse perfeitamente e e não houvessem lágrimas. Seria um sonho que todo amor resistisse todas as provas e nunca se desgastasse. Entretanto, somos complexos demais. E nem sempre fiéis aos próprios desejos. Por isso, embora machuque, o fim de um romance é uma possibilidade. É preciso aceitar. E entender que, ainda que sejam desconhecidos, quando algo acaba, novos caminhos se abrem. A gente só precisa se arriscar e tentar prosseguir.

Fale mais baixo, por favor

O celular nos acompanha o tempo todo, mas dá para usar com bom senso
O celular nos acompanha o tempo todo, mas dá para usar com bom senso

Enquanto pegava um copo de água, “participei” da conversa de uma senhora que falava ao celular. Digo “participei”, porque ouvi todo o papo. Claro, não vou compartilhar aqui. Já basta a falta de bom senso dela.

Talvez eu seja só um ranzinza mesmo. Mas, se conversar ao telefone fixo num ambiente com outras pessoas sempre foi um tanto constrangedor, a situação ficou muito pior com a proliferação de celulares. É chato ter platéia. Porém, é muito mais desagradável ser platéia quando a pessoa que fala, fala alto e esquece que tem um monte de gente ali do lado.

Trabalho num prédio… Então, estou acostumado a encontrar pessoas que dão instruções a um empregado, fecham negócios e até brigam com a mulher enquanto usam o elevador. Fico pensando:

– Não daria para esperar um minutinho? Por que eu tenho que saber que o sujeito quer comer macarrão no jantar? Ou que o carro está trocando o óleo?

Já ouvi gente dando bronca em empregado, mulher falando mal do marido pra amiga, camarada reclamando da interferência da sogra na educação dos filhos, rapaz combinando com colega como vai “pegar” fulana de tal na balada do fim de semana… Tem de tudo, caríssimos.

Reconheço que o celular facilitou a nossa vida. Dá para resolver coisas sem parar de movimentar-se. Você está no caminho do trabalho e pode combinar o horário do dentista; está indo para a faculdade e aproveita para papear rapidinho com a mãe… Mas ligar para o namorado, justo na hora que está na fila do banco, a fim de comentar a noite incrível que tiveram, não me parece a coisa mais sensata a fazer.

Pela louca rotina que temos, cada minuto é importante. A gente vive tentando “ganhar tempo”. Procurando formas de compensar até mesmo a ausência na vida das pessoas que amamos. Também sei que quase ninguém mais trabalha no horário de expediente. Porém, conhecidos e desconhecidos que nos cercam não precisam participar de nossa vida. Se a ligação é mesmo necessária, fale mais baixo. Escolha melhor as palavras. Procure afastar-se um pouco. Mantenha a discrição. É bom para você. E a “platéia” agradece.

A receita de miojo e o processo de avaliação

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Não tenho tempo de acompanhar o noticiário pela televisão. Então, tudo que vejo é pela internet, jornais e rádio – a CBN, obviamente. Hoje, enquanto espiava os principais sites, encontrei:

Candidato escreve receita de miojo na redação do Enem e tira nota 560

Vale lembrar que a nota máxima é 1000 pontos. Ou seja, obteve um desempenho acima de 50% – pelo menos, na opinião dos avaliadores. O tema deste ano era imigração. O candidato até escreveu sobre o assunto: no começo e no final do texto. “Recheou”, porém, com a descrição de como preparar o macarrão instantâneo.

O caso me fez recordar de uma história contada por um ex-aluno. Ele tinha problemas com um professor. Por mais que se aplicasse nas provas, sempre tirava a mesma nota, 6. Um dia, indignado, fez algo parecido com esse candidato do Enem: escreveu uma receita no meio da prova. Quando saiu o edital, qual era a nota? 6. Não é difícil concluir que o professor provavelmente sequer leu a resposta dele.

Não sei se isso aconteceu com os avaliadores do Enem. Se houve negligência. Se sequer olharam o texto do candidato. Entretanto, quando penso no processo de correção, entendo que temos alguns problemas. Nem sempre faz justiça. Além de se tratar de um ato subjetivo (quem corrige olha do seu jeito, trazendo suas próprias expectativas para um texto), infelizmente, tem avaliador que só falta jogar as provas para cima e determinar: “se cair à direita, nota 8; se cair à esquerda, 6; à frente, 10; atrás, 4…”.

Corrigir prova dá trabalho. É cansativo demais. Costumo brincar que, certos textos, “emburrecem”. O conteúdo é tão ruim que faz mal ler. Ainda assim, o papel do educador transcende o ato de propor conteúdo em sala de aula. O processo de avaliação interfere na vida de alguém – que, hierarquicamente, é a parte mais frágil.

Por isso, avaliar é não apressar-se para livrar-se da prova do aluno. É manter-se distante das tentações emocionais (professor e aluno não precisam se gostar, mas isso não pode interferir no processo de ensino-aprendizagem e avaliação). Avaliar é entender o contexto do aluno, as circunstâncias que afetam a escrita naquele momento histórico e reconhecer a relação entre o conhecimento do próprio sujeito com o conhecimento obtido na escola/meio acadêmico.

Claro, não é fácil fazer isso. Porém, quem se dispôs a ser professor deve combinar ética e generosidade na sua prática profissional.