A receita de miojo e o processo de avaliação

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Não tenho tempo de acompanhar o noticiário pela televisão. Então, tudo que vejo é pela internet, jornais e rádio – a CBN, obviamente. Hoje, enquanto espiava os principais sites, encontrei:

Candidato escreve receita de miojo na redação do Enem e tira nota 560

Vale lembrar que a nota máxima é 1000 pontos. Ou seja, obteve um desempenho acima de 50% – pelo menos, na opinião dos avaliadores. O tema deste ano era imigração. O candidato até escreveu sobre o assunto: no começo e no final do texto. “Recheou”, porém, com a descrição de como preparar o macarrão instantâneo.

O caso me fez recordar de uma história contada por um ex-aluno. Ele tinha problemas com um professor. Por mais que se aplicasse nas provas, sempre tirava a mesma nota, 6. Um dia, indignado, fez algo parecido com esse candidato do Enem: escreveu uma receita no meio da prova. Quando saiu o edital, qual era a nota? 6. Não é difícil concluir que o professor provavelmente sequer leu a resposta dele.

Não sei se isso aconteceu com os avaliadores do Enem. Se houve negligência. Se sequer olharam o texto do candidato. Entretanto, quando penso no processo de correção, entendo que temos alguns problemas. Nem sempre faz justiça. Além de se tratar de um ato subjetivo (quem corrige olha do seu jeito, trazendo suas próprias expectativas para um texto), infelizmente, tem avaliador que só falta jogar as provas para cima e determinar: “se cair à direita, nota 8; se cair à esquerda, 6; à frente, 10; atrás, 4…”.

Corrigir prova dá trabalho. É cansativo demais. Costumo brincar que, certos textos, “emburrecem”. O conteúdo é tão ruim que faz mal ler. Ainda assim, o papel do educador transcende o ato de propor conteúdo em sala de aula. O processo de avaliação interfere na vida de alguém – que, hierarquicamente, é a parte mais frágil.

Por isso, avaliar é não apressar-se para livrar-se da prova do aluno. É manter-se distante das tentações emocionais (professor e aluno não precisam se gostar, mas isso não pode interferir no processo de ensino-aprendizagem e avaliação). Avaliar é entender o contexto do aluno, as circunstâncias que afetam a escrita naquele momento histórico e reconhecer a relação entre o conhecimento do próprio sujeito com o conhecimento obtido na escola/meio acadêmico.

Claro, não é fácil fazer isso. Porém, quem se dispôs a ser professor deve combinar ética e generosidade na sua prática profissional.

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2 comentários em “A receita de miojo e o processo de avaliação

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