A TV que a gente não deveria ver

televisao

Um dos temas mais controversos envolvendo a mídia é o que trata da regulamentação dos veículos de comunicação. Confusão comum é entendê-la como censura. Ou seja, um mecanismo que limite a liberdade das emissoras de rádio e televisão, principalmente.

A questão sempre volta à tona quando gente, como o governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro, cita aspectos da Constituição Brasileira e faz questionamentos do tipo:

Se esses artigos fossem aplicados de maneira séria, provavelmente mais de 80% dos programas que estão nas rádios e principalmente nas televisões teriam de sair do ar.

Cá com meus botões, não entendo que uma regulamentação seja necessariamente censura. Ela pode conter elementos que permitam a censura (e isso sim é preciso evitar). Mas não significa que a regulação da mídia impeça a liberdade de imprensa ou de expressão.

E Tarso Genro tem razão quando aponta que muita coisa poderia sair do ar.

São programas que ou transformam a mercadoria em notícia ideologizada ou promovem a violência, o sexismo e a discriminação.

O princípio de que o público deve escolher o que assistir/ouvir é muito bonito na teoria. Na prática, funciona pouco. Infelizmente, por falhas na educação, as pessoas não sabem selecionar. E embora tenham o controle nas mãos, optam pelo lixo. Como consequência, a programação piora cada vez mais.

Acho normal que televisão e rádio ofereçam diversão ao público. Mas qual a qualidade da diversão? Violência e sexo norteiam boa parte dos produtos midiáticos. E as notícias raramente contribuem para a formação da opinião pública (pelo contrário, distorcem a visão dos fatos). A gente assiste/ouve e fica com uma pergunta: “e daí?”. As notícias geralmente mostram um problema, mas raramente abrem possibilidades de reflexão sobre o assunto – e nunca apontam soluções. Na verdade, a notícia só publiciza o drama, mas não transforma, não provoca mudanças.

E existem outros problemas. Veja o caso dos domingos na TV aberta. À tarde, não há opções. Só existem programas de auditório. Escolher entre um e outro apresentador não é garantir diversidade. Oferecer opções é ter num canal programa de auditório; noutro, filme; no terceiro, talk-show; no quarto, programação infantil… E isso não existe no país. Quando num canal tem telejornal, nos demais quase sempre encontramos algo parecido. Se passa novela na Globo, passa na Record.

As temáticas abordadas por vários programas desrespeitam o público. “Vende-se” o sexo fácil, o desrespeito nos relacionamentos, a infidelidade, o desapego, o egoísmo… Associa-se felicidade ao consumo. Os modelos de beleza midiático atropelam a realidade e apresentam um ideal de corpo inatingível – como consequência, milhares de mulheres vivem frustradas e não gostam do que vêem no espelho. Crianças aprendem desde cedo que comprar é o que abre a porta do prazer; e muito novas são despertadas para o sexo, tornam-se vaidosas e, as meninas principalmente, adotam saltos, maquiagem e, na adolescência, já frequentam as salas de cirurgia plástica.

A regulamentação dos veículos de comunicação poderia qualificar a programação das emissoras. Embora pareça uma ação que desrespeita o direito do cidadão, entendo que somos obrigados a reconhecer que o público brasileiro ainda não dá conta de decidir por si só o que ver/ouvir. O que preocupa, porém, num quadro de regulação é quem vai julgar o conteúdo e quais serão os critérios. Afinal, deixar isso nas mãos do governo não me parece nenhum pouco recomendável. Mas este é assunto para um outro post.

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