De ilusão também se vive

mariln
Por que as pessoas pagam por objetos usados por seus ídolos?

Marx sustentava que o trabalhador é alienado, pois é separado do seu trabalho. Ele vende a mão-de-obra, mas o produto que produz não lhe pertence. Pelo contrário, se desejar acessá-lo, terá de pagar por isso. Isto transforma em mercadoria tanto o trabalhador quando o resultado de seu trabalho – ambos possuem um preço.

Bom, não pretende teorizar aqui. Apenas pensava no assunto ao ler uma coluna do Cony. Ele discutia o preço das coisas – ou, “o preço de cada um”. Falava, por exemplo, do quanto as pessoas pagam para ter um “dente do John Lennon”, um quadro do Van Gogh… Enfim.

O cronista dizia que não pagaria nem cinco reais pelo dente do músico e cantor; muito menos milhões pela tela do pintor.

Eu concordo com ele. Entretanto, a cultura da época é capitalista. E o capital norteia nossa forma de pensar. Por isso, tudo pode tornar-se produto. Uma foto autografada de um artista, uma peça de roupas… Transformam-se em objeto de desejo. As pessoas pagam por isso. E o preço é dado pelo grau de visibilidade que o sujeito tem na mídia.

Sinceramente, não sei bem por que as pessoas pagam por certas coisas. O próprio acesso ao que os críticos denominam de “boa cultura” tem um custo estranho… Estranho ao artista e ao público. A definição do valor a ser cobrado tem critérios que a razão nem sempre explica. Por que a peça de teatro feita pelo grupo local tem entrada franca e a outra com a atriz da novela das nove cobra-se 150 reais?

Por que o trabalhador que recolhe o lixo em frente a nossa casa recebe 800 reais/mês e um cirurgião plástico pede 10 mil por uma lipoescultura? Seria a atividade do primeiro menos importante que a do segundo? Não, não estou questionando os anos de estudo de um profissional… Apenas propondo que pensemos sobre os valores que atribuímos a certas atividades, produtos etc.

Uma vez, conversando com um “artista de fim de semana”, ele falava sobre suas peças (pequenas esculturas). Dizia que não as colocava a venda, pois não dava para quantificar em moeda o significado de cada uma delas.

Fico pensando: como definir o valor do conhecimento, da habilidade, do talento? Por outro lado, que tipo de função ocupam objetos simbólicos – como a cueca de um cantor, a guitarra de um músico, o vestido de uma atriz – a ponto de atraírem gente disposta a pagar por isso?

Não tenho respostas. Essas questões apenas me incomodam, fazem-me refletir na relação do homem com seu trabalho… Ao mesmo tempo penso no prazer que se tem na procura por esses objetos, nas viagens caras para assistir mega shows, com ingressos de centenas de reais… Qual a motivação? Seria apenas uma ilusão criada por um mercado que sequer damos conta de identificar?

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