Prazer em aprender

aprenderOuvi de uma acadêmica um comentário que me incomodou um pouco. Ao iniciar uma de minhas aulas, ela soltou:

– Poxa, estudar isso de novo? É muito chato.

Como é uma pessoa geralmente participativa, e procuro permitir a crítica, ela continuou:

– Não é com você, professor. É o assunto. Na verdade, este ano está tudo muito chato. Todas as matérias.

Eu entendi o comentário. E não a censuro. O tema é mesmo difícil. E carece de boa de paixão por conhecer para assimilá-lo. Apenas fiquei refletindo sobre o tema. Lembrei de meus filhos na escola, das reclamações deles quanto aos assuntos tratados em sala. Lembrei de um colega de mestrado, uma pessoa que admiro bastante. Dias atrás, ele falou:

– Quando passei no mestrado, vim decidido: abandonaria qualquer preconceito. Aproveitaria o melhor de cada disciplina.

E ele é mesmo assim: um sujeito super interessado. Não importa a discussão, o autor. Busca compreender, debater. Não bloqueia nenhum tema.

– Antes de entrar na sala, procuro me libertar dos meus gostos, preferências. Estou aqui para aprender.

Sabe, eu sinto nele algo raro no sistema de ensino: prazer em aprender.

Sempre gostei disso: aprender. Aprender por aprender. Foi assim que fiz jornalismo e me tornei jornalista. Foi assim que fiz psicopedagogia por dois anos e meio e, mesmo não exercendo a profissão, não me arrependo de ter frequentado uma única aula. Tenho convicção que me tornei uma pessoa melhor, mais tolerante como fruto do que aprendi com cada professor, cada teoria.

Infelizmente, vivemos um momento em que buscamos o saber sem nos despir das motivações que norteiam as demais escolhas. Queremos que o conteúdo nos garanta as mesmas emoções de um espetáculo de música, de um filme ou programa de TV. O conhecimento deve divertir. Se aparenta função prática, até toleramos, porque nos referenciamos por sua aplicabilidade; no entanto, se trata-se de um conhecimento histórico, filosófico, que parece não servir para o trabalho, descartamos, bloqueamos.

É uma pena.

Aprender dá trabalho sim, mas é uma escolha racional. Mesmo quando o sono vem, é preciso insistir. É necessário treinar o cérebro até para o que parece monótono, pois o conhecimento é nosso maior patrimônio. Nada pode tirá-lo. O saber transforma, muda a gente. Só não dá para pedir que sacie nossos desejos mais instintivos de prazer.