Manifestos representam mudança?

protestos
Uma onda de protestos cobre o país. Jovens se mobilizam em capitais e várias outras cidades do Brasil. Eles não estão ligados a partidos políticos – pelo menos, a maioria (cerca de 84%) – e participam pela primeira vez de algum tipo de manifesto.

Mais que as bandeiras defendidas por essas milhares de pessoas, busca se entender por quê. Os protestos não surgiram pelas mãos de oposicionistas do governo. A luta não é contra a presidente Dilma. A insatisfação é contra governos – não importa se federal, estadual ou municipal; nem se é PT, PSDB ou outro partido.

Esses jovens também não são baderneiros. Por mais que haja intenção de ser pacífico, quem protesta visa quebrar a ordem estabelecida. Não se faz isso sem algum tipo de confronto. É necessário constranger, impedir… Do contrário, as vozes não serão ouvidas. Só gente na rua não faz grande diferença. É preciso haver perda; às vezes, até alguma ameaça. Portanto, certa desordem é natural. O que não se pode admitir é o uso da violência, da repressão, censura.

Ontem, alguns de meus alunos reclamaram minha posição sobre o tema. Queriam saber o que penso. Respondi:

– Não sei.

E emendei:

– Ainda é cedo para fazer qualquer avaliação.

Não dá para negar que existem tentativas de uso político dos manifestos. Parte da imprensa, ligada às elites econômicas e de natureza conservadora, tenta transferir a responsabilidade única e exclusivamente ao governo Dilma. Recorda-se das vaias à presidente na abertura da Copa das Confederações e alguns acreditam que o fim da era petista está próximo. Por isso, não é anormal ler matérias com títulos do tipo:

Dilma tenta se descolar de protestos e elogia Brasil forte

O discurso implícito é mais ou menos este: a presidente quer fugir da responsabilidade; dizer que não é com ela. Dilma estaria tentando escapar ilesa dos protestos, quando na verdade seria o principal alvo da insatisfação popular. Essa é a proposta de enunciados dessa natureza verbalizados por parte da mídia.

E, claro, os manifestos podem impactar negativamente a popularidade da presidente. No entanto, entendo que muitas das pessoas engajadas nesse fenômeno social não têm um alvo específico, não reclamam por uma única coisa, nem de uma só liderança partidária. Estão insatisfeitas, querem mudanças. Aproveitam a onda, porém sequer sabem quem colocar no lugar da Dilma em 2014. Muito menos em substituição ao Alckmin, ao Fernando Hadad, ao Sérgio Cabral…

É como se vivêssemos uma espécie de “síndrome do saco cheio”. A gente não quer mais pagar 10 reais por quilo de tomate, não quer aumento da tarifa de transporte coletivo, não acha normal gastar bilhões em estádios de futebol, não está disposto a tolerar cancelamentos de voos nos aeroportos… Enfim, a gente não aceita mais ser desrespeitado.

Qual o fôlego desses manifestantes? Por quanto tempo permanecerão mobilizados?
Não sei.

Significa o fim da passividade do cidadão brasileiro?
Também não sei. Eu espero que sim. Mas não faria nenhuma aposta. Seria precipitado.

Do ponto de vista histórico, desde o impeachment do presidente Fernando Collor não se vê uma onda de protestos desse porte. E o momento é completamente novo, pois não se luta por uma causa única. Ainda que o preço das passagens de ônibus tenha sido o “gatilho”, o grito das ruas soa uniforme: “cansamos”.

O desejo de mudança é fundamental para se promover transformações. Porém, quem as faria? Uma simples troca de governo resolveria? Onde estariam as novas lideranças que atenderiam as demandas pautas nesses protestos?

Ainda faltam respostas. O futuro é incerto.

Não dá para avaliar se esse fenômeno representa a ruptura de um modelo e instalação de uma nova atividade política e social que resultará no monitoramento, na vigilância constante. O Brasil precisa disto. Nossos governantes, hoje, estão “soltos”, agem e não nos consultam. No entanto, só o tempo dirá se os manifestos de hoje representam a instalação de uma nova cultura política entre os brasileiros.

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