Mulher heroína

mulher
Passava em frente a um sebo e a capa de um livro chamou minha atenção. Nela, uma mulher com bebê no colo e, por baixo da blusa, um traje tipo “Super Homem” – ou seria Mulher Maravilha? O título da obra é “Mães que trabalham”.

Não li. Apenas pesquisei e descobri que o livro traz o resultado de uma pesquisa com cerca de 150 mulheres. A escritora Judith Warner, que é jornalista, tenta mostrar o drama de mulheres que tentam ser perfeitas. Elas procuram dar conta da carreira e não falhar como mães.

Gosto de conversar com as mulheres. Na verdade, conversar é modo de dizer. Gosto mesmo é de ouvi-las. O universo feminino é complexo, contraditório. Por isso mesmo, mágico. Entretanto, noto que elas sofrem (nós, homens, também… mas por outros motivos; e este não é o assunto do post). Quem está no mercado de trabalho e tenta conciliar a vida doméstica, vive a angústia constante de ser boa nas duas frentes – além de cuidar da molecadinha, precisa ser mulher, amante… Quem está em casa, vive a pressão social de que deve trabalhar; sofre com os comentários das amigas, o não reconhecimento da família e até mesmo dos filhos. Para elas chega a doer se identificarem como “profissional do lar”.

Não defendo que mulher fique em casa e nem que trabalhe fora. Acho lamentável essa tese de que a realização pessoal se dá numa profissão. Também não gosto nenhum pouco da ideia de que filhos bem criados são apenas aqueles que têm a mãe por perto 24 horas

A mídia colabora pouco. Vende a ideia – por meio de revistas, programas de tevê etc – de que dá sim para ser mulher perfeita. E as coitadas acreditam. Acham que é possível dar conta de estar linda, gostosa, ser boa mãe, cuidar da casa, arrebentar no mercado de trabalho e ainda fazerem um homem “subir pelas paredes” entre quatro paredes.

Para tudo, né? Mulher fica descabelada sim, queima o arroz, perde a libido, grita com filho… Erra. Mulher é humana. E por isso mesmo, é heroína. Admiro demais aquelas que conseguem estar acima da pressão que sofrem diariamente. Afinal, aquelas que cumprem uma rotina profissional são cobradas pela educação dos filhos e falta de atenção aos parceiros; aquelas que trabalham em casa raramente são respeitadas e elogiadas. Que marido elogia a cama arrumada, os lençóis trocados, a roupa passada? Qual filho agradece o cardápio do almoço?

Não são raros comentários do tipo:

– É só isso que tem pro almoço?
– Aff… essa carne está salgada demais?
– Você atrasou o almoço de novo?

E se a criança é mal educada, o companheiro ainda tem coragem de dizer:

– Está vendo? Você não serve nem pra educar esse moleque?

Sabe, o tempo ensina a gente. E uma das coisas que aprendi é que, embora sejamos seres sociais – precisamos do outro e até dar certa satisfação para o outro -, a vida que temos é escolha nossa. Nunca vamos satisfazer plenamente as pessoas que estão por perto. E as pessoas adoram palpitar sobre o que a gente deve fazer, mas ninguém vive a vida da gente. Isso quer dizer que a mulher que optar por ficar em casa, ouvirá sim um monte de bobagens; se trabalhar e tiver sucesso na profissão, poderá ser aplaudida, mas vai sofrer a constante cobrança (inclusive da própria consciência) de não dar atenção para os filhos. Então, ficar em casa ou trabalhar fora – é uma escolha – individual ou do casal. Fruto de uma decisão madura, baseada naquilo que se tem como projeto de vida. Viver bem é isso… É se respeitar. Fazer o que acredita. O que entende que vai te fazer bem. E livrar-se da culpa por não dar conta de tudo. Algumas coisas sempre ficarão sem fazer…

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12 comentários em “Mulher heroína

  1. Disse tudo!!!!! de uma maneira simples e muito fácil de entender!!! Eu estava precisando ver um texto deste para não me sentir tão culpada por não dar conta de todas minhas tarefas de “dona de casa perfeita” muito obrigada!!!

  2. Excelente texto, Prof. Acho q nunca te disse o quanto suas palavras já foram importantes em minha vida. Quando, tendo acabado de dar à luz a Izabella, tive q deixar pra trás o TCC, te liguei e disse sobre a minha decisão. Você me falou exatamente assim: “É o que eu já esperava de você; como uma boa mãe, acho que essa é a melhor solução no momento”. Adiei o trabalho sem culpas, por causa do seu incentivo e do seu apoio. Acredito q nasci pra ser mãe em tempo integral; me sinto feliz assim. Mas por outro lado, sinto tbem a cobrança das pessoas que pensam que joguei tempo e dinheiro fora, já que “não aproveito a profissão à qual me preparei na faculdade. Por causa de ter estudado, sou uma pessoa melhor, Não foi tempo perdido; Amizades, conhecimento, experiência… pra mim tudo isso foi válido. Agora quero ser só mãe. Vai ser assim até o momento em que eu decidir que será diferente.
    Obrigada, Prof. Ronaldo, por seu carinho e sua sensibilidade.

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