Médicos para o povo

medicoMédicos mais humanos. Profissionais que gostem de gente. Sonho de consumo, né? Este deveria ser o princípio básico para quem pretende exercer a atividade. Entretanto, nem sempre é a motivação primeira de quem escolhe cursar Medicina. Por ser valorizada, do ponto de vista social e financeiro, muitos jovens se sentem fascinados pela profissão. Escolhem não pela sensibilidade, pelo desejo de cuidar do outro, curar; escolhem porque sabem que terão emprego garantido, reconhecimento e bom salário.

Meu incômodo com esse tema é antigo. Já tratei da questão duas vezes na CBN. Entrevistei os coordenadores dos cursos de Medicina da UEM e do Cesumar. E ambos admitiram: o maior desafio da academia é mostrar ao futuro médico que ele tem uma missão e deve gostar de gente.

Após o anúncio feito pelo governo – com mudanças que vão motivar, inclusive, a obrigatoriedade de dois anos de prestação de serviço no SUS -, o ministro Mercadante fez uma avaliação que acabou provocando muita gente que já está no mercado e centenas de acadêmicos. Ele sustentou que, trabalhar no sistema público de saúde, vai ajudar a humanizar os futuros médicos.

Não sei até que ponto tem razão o titular da pasta da Educação. Entretanto, sei que esse profissional carece conhecer a realidade do pobre, do miserável… É muito fácil dizer que o setor sofre porque o governo não investe ou não gere corretamente os recursos da Saúde. Difícil é admitir a própria responsabilidade e reconhecer que a motivação econômica, o status, o prestígio têm sido os norteadores do exercício de muitos profissionais. Não estou sugerindo que são incompetentes, mas falta empatia. Não dá para negar: gente sem dinheiro fica sem cobertura plena no Brasil.

O governo tem falhado, é verdade. E em vários aspectos. A infraestrutura é caótica. Ainda assim, o percentual do orçamento destinado à saúde é bastante considerável. Mas se gasta mal. E em demandas que representam problemas sem fim: por exemplo, vítimas de acidentes de trânsito consomem bilhões/ano. Apesar disso, no âmbito internacional, o modelo SUS é um dos mais elogiados. No entanto, e o outro lado da história? Como convencer um médico que cobra R$ 350 de consulta a atender pelo sistema? E estou falando de uma consulta… Outros procedimentos custam muito mais.

Volto a repetir, o médico tem direito de desejar uma bela remuneração. Contudo, é preciso humanizar-se. Compreender que o outro carece do seu trabalho. Que os valores praticados inviabilizam o acesso à saúde para milhões de pessoas. Não dá para ignorar a realidade social e econômica do país e transferir para o Estado toda responsabilidade pelas crises da Saúde.

Acesso a atendimento médico em determinadas especialidades é artigo de luxo. Até a classe média sofre, porque pagar plano de saúde nem sempre é garantia de ter atendimento em certas áreas.

Atualmente, existem especializações que têm fila de espera – mesmo fora do sistema público. Tente encontrar um psiquiatra, dermatologista… E pra ser atendido, o paciente precisa desembolsar um dinheiro que nem sempre tem. Tem gente que passa anos esperando um milagre, porque não consegue ir ao médico – e não vai porque não existe a especialidade no SUS, não tem plano e muito menos recursos para pagar no particular.

Sabe, nenhum direito do mundo vai dar conta de pagar o que muitos entendem como remuneração justa – principalmente com as condições favoráveis de alguns profissionais.

É nesse contexto que a obrigatoriedade de passar dois anos no SUS parece-me uma iniciativa importante. Não sei se vai fazer muitos deles gostarem de gente, se sensibilizarem com a dor alheia. Admito que tem cara de arbitrariedade e até possa ser questionada a legalidade da medida. Entretanto, é hora de romper com a lógica de mercado. Não dá mais para aceitar que serviços de qualidade na saúde permaneçam restritos para uma minoria que tem poder econômico.

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Um comentário em “Médicos para o povo

  1. Eu concordo que a Medicina precisa ser menos industrial, e mais humana. Mas discordo da obrigatoriedade de dois anos servindo o sistema público, como forma de alcançá-la. Pelo contrário, acredito que intensificará a imagem clássica do médico que não olha na cara do próprio paciente.

    Em um sistema mal remunerado, em que você ganha por quantidade de pacientes atendidos em um dia, a vontade de conversar, se preocupar e cuidar do outro, é abafada pelas contas do mês, e do estresse dos plantões. Vida de médico pós-graduado é difícil. E colocar dois anos a mais de graduação, para alguém que estudou no mínimo dez anos só para se formar, não humaniza a medicina, e sim, cria um ambiente de obrigatoriedade mal remunerada, numa profissão estressante. Não encontro eficiência nesse projeto.

    Sem contar, os alunos de faculdade particular. Quem pagará por esses dois anos? O estado ou os estudantes? São 5, 6 mil reais por mês, independente da presença ou não de FIES.

    Acredito que a humanização vem de cada um. Vem principalmente, da educação em casa, e não em uma sala de aula. Existem propostas muito mais interessantes para seu encontro, e essa infelimente, ao meu ver, não é uma delas.

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