Pais que ferem filhos; filhos que perdoam pais

Nem sempre a relação entre pais e filhos é harmônica
Nem sempre a relação entre pais e filhos é harmônica

Eles cuidam, protegem… Querem o bem. Sonham dar o melhor para os filhos. Mas erram. E muito. Machucam, ferem. E, por vezes, plantam mágoas que criam abismos. Existem exceções, claro, mas os pais não fazem por mal. Na tentativa de ajudar, afastam os filhos.

Dias atrás, ao conversar com uma mãe, ela se mostrava irredutível. Dizia que faria tudo para afastar o filho de uma garota. Brigaria, ameaçaria, usaria de chantagem… Estava nervosa, irritada. O filho, segundo ela, estava cego. O rapaz não podia ficar com a menina. Ela não prestava. O moço já havia dito que preferia se afastar da mãe a deixar a namorada. Então tentei mostrar para essa mulher que estava escolhendo a pior estratégia para lidar com o problema.

É verdade que são raros, mas ainda existem “casos Romeu e Julieta”. E a confusão está armada na família, inclusive com perdas irreparáveis nos relacionamentos.

Entretanto, nem sempre as mágoas são construídas por impedimentos que se cria de um namoro na adolescência. Há outras situações. Muitas delas por meio de palavras, que são ditas que ferem a ponto de não ser esquecidas. Tem repressões, xingamentos, surras. Há coisas aparentemente pequenas, mas que, no mundo da infância são significativas demais. Por exemplo, uma coleção de figurinhas que o pai joga fora num momento de raiva pode criar uma ferida que ele desconhece, mas que persistirá no coração do filho. Uma humilhação após o resultado de uma prova… Um brinquedo jogado no chão após uma resposta desrespeitosa da criança… O tapa na mãozinha onde está a boneca favorita e que a faz cair desmontada no chão… O contato deletado no skype daquele “primeiro amor” que nasceu na escola…

Os pais não percebem, mas fazem os filhos chorar lágrimas eternas. Às vezes até reconhecem que exageram na dose, mas como minimizam a atitude, não se desculpam de verdade, não conversam sobre o que aconteceu, acabam por gerar um distanciamento que se aprofunda na juventude e na fase adulta. Por isso, não são raros os filhos que guardam mágoas dos pais. Contam as horas para sair de casa e, quando saem, as ligações tornam-se raras e as visitas acontecem apenas em datas especiais. Conheço casos de famílias que não se reúnem há anos. Já idosos, os pais lamentam a ausência dos filhos, mas estes parecem criar estratégias para evitar encontrá-los.

Muitos têm a chance de reconhecer que erraram e pedir perdão. Conseguem restabelecer a convivência e aproveitar os filhos como não o fizeram durante a infância e adolescência. Outros simplesmente ignoram o que motivou o afastamento. Passam a vida chorando a perda. Ou dizendo frases do tipo:

– Ele é um frio. Dei tudo. Paguei faculdade, fiz festa de casamento e ele nem liga no Natal.
– Ah… ela casou e nem traz os netos para passar férias em casa. Parece esconder os meninos de mim.

Sabe, faz mal viver essa realidade. Por isso, tentar entender o que houve, humilhar-se é a melhor forma de promover o reencontro. Entretanto, até por muitas vezes desconhecerem que foram os responsáveis por plantar as mágoas, cá com meus botões, acredito que, por mais duro que seja, os filhos devem aprender a perdoar os pais. Perdoar não é esquecer, mas é uma atitude, uma forma de aceitar e compreender o outro. E restabelecer os laços é fundamental para se viver bem, em paz. Ninguém é completo, ninguém se sente pleno carregando uma relação mal resolvida com a mãe, com o pai… Não é fácil. Há feridas que parecem tão profundas que nunca irão cicatrizar. Porém, vale a pena tentar. Dói dar o primeiro passo, dói atropelar o orgulho, o amor próprio. Mas vale a pena. Punir o outro com rancor consome a gente mesmo, tira a paz e realimenta emoções negativas.