Quem incentiva um filho a ser professor?

ensinar

Dias atrás publiquei aqui que existe dinheiro para educação; porém, gasta-se mal. Hoje, enquanto lia a Folha, encontrei essa informação:

– Fora da lei, 11 capitais negam tempo livre a professores

A legislação nacional garante 33% de tempo livre para o preparo de aulas, correção de provas, trabalhos etc. Mas não é apenas a chamada “hora-atividade” que é atropelada pelos gestores municipais. Macapá, por exemplo, sequer paga o piso mínimo, R$ 1.567 no ensino fundamental e médio/por horas semanais. Ou seja, das 27 capitais, 12 não cumprem a lei.

Bom, estamos falando aqui das capitais. Se o quadro fosse ampliado – incluíssemos estados brasileiros (que contratam educadores para as redes estaduais) e os demais municípios do país -, chegaríamos a números assustadores. Basta notar que, em março deste ano, nove estados descumpriam a lei.

A crise na educação brasileira passa pelo desrespeito dos gestores a essa categoria profissional. Os professores têm salários baixos e condições mínimas para o preparo das aulas e atendimento aos alunos.

Diante do quadro, a qualidade de quem está na sala, de quem deveria ensinar nossos filhos, é bastante questionável. Gente que poderia estar na educação prefere outras áreas – mais rentáveis e respeitadas socialmente. Convenhamos, como é visto o professor hoje? Quase como um coitado.

A gente diz:

– Eu sou professor.

O outro olha e comenta?

– Professor? Hummm…

A expressão de menosprezo está ali, latente.

Se um garoto, uma garota revela que vai escolher a docência como profissão, a reação é a mesma, acompanhada de algum outro comentário do tipo:

– Professor? Mas tem tantas outras profissões melhor remuneradas.

Quem incentiva um filho a ser professor? Quem se sente motivado a passar quatro, cinco anos numa faculdade para, após formado, brigar por um emprego, começar com renda quase sempre inferior a mil reais e nem ter tempo para preparar aulas? Sem contar que pouca gente o respeitará – inclusive os próprios alunos…

As condições atuais de trabalho levaram o professor a desenvolver a “síndrome de coitadinho”. De fora, ninguém o respeita; e quem está dentro, se acha patinho feio. A combinação é péssima. E o resultado está nos indicadores da educação: nossa molecada não sabe ler nem escrever; muito menos domina a matemática.

A qualidade que tanto se deseja no ensino e na aprendizagem só pode ser conseguida com bons educadores. E isso tem tudo a ver com gente. Gente preparada, disposta, motivada. Gente que ama a profissão, mas que, mais que amor pela sala de aula, sente-se respeitado. Gente que sabe que tem uma carreira, que não fez a escolha pela docência como última opção.

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Um comentário em “Quem incentiva um filho a ser professor?

  1. Ronaldo. Permita-me fazer alguns observações sobre o conteúdo do seu artigo: 1) É certo que deixa a desejar a qualidade docente, e a responsabilidade deve ser dividida entre governos e a cultura pedagógica das nossas universidades. Isto é, governo do Paraná tem um programa contínuo de formação continuada dos professores (criado no governo Requião), mas falta saber [pesquisa] se o mesmo vem revertendo a baixa qualidade dos docentes. Outro ponto: ainda não acordamos para formar professores dotados de “boa didática”, que “sabem como ensinar”; 2) “Síndrome de coitadinho”[sic] não vale mais para professores das universidades públicas, que ganham igual ou até mais aos colegas europeus. 3) A docência nas escolas e nas universidades ainda desperta muito interesse. Basta ver as filas para concursos para professores das escolas públicas, e o número cada vez crescente de candidatos para ser professor “temporário” ou “efetivo” das universidades públicas. Afinal, que outra atividade você pode estudar mais e mais? Qual atividade pode pode desenvolver uma carreira acadêmica (na universidade: especialização, mestrado, doutorado)? Qual atividade oferece mais de um mês de férias? Qual atividade respeita a condição da mulher (grávida, mãe, etc)? Enfim, o magistério, escolar ou universitário é uma boa atividade profissional, sim, embora ela seja desgastante, com alunos cada vez mais mal educados em casa, a imagem da escola não boa, É mais desgastante para pessoas sem vocação para a docência, que os concursos não distinguem. Mas para os “vocacionados” e comprometidos com a causa do ensino e da pesquisa, é uma felicidade.

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