O Brasil precisa popularizar a Medicina

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Diante da repercussão a respeito do texto “Eu quero médicos ‘padrão-Cuba’”, acabei respondendo no Facebook os comentários de alguns leitores. Um aspecto que procurei ressaltar: meu texto não teve como proposta primeira discutir a vinda dos médicos cubanos. Posso garantir que não teria receio algum de ser atendido por eles. Até desejaria. Gostaria de conhecê-los e ter mais elementos para embasar meus argumentos sobre a necessidade de médicos “padrão-Cuba”. Porém, como isso não é possível…

Meu texto também não teve a intenção de apontar que não existe a necessidade de infraestrutura básica para se fazer medicina. Pelo contrário. O Brasil precisa sim de mais investimentos em hospitais, clínicas, postos de saúde, laboratórios… equipamentos. A tecnologia é ferramenta importante para o diagnóstico e tratamento de muitas doenças.

Meu questionamento, porém, é em relação à glamourização da profissão. Além do mais, entendo sim que a gente precisa de mais faculdades de Medicina. E há espaço para implantação e com estrutura adequada. Custa caro? Custa sim. Mas dá para ampliar o número de vagas nas instituições existentes. Também existem muitas faculdades particulares bem estruturadas e que poderiam estabelecer parcerias com hospitais de suas cidades, com unidades de saúde etc a fim de garantir a prática médica dos acadêmicos. Essa coisa de “não pode, não dá” é argumento vazio de quem elitiza uma área do conhecimento que precisa ser popularizada. Transformaram a Medicina numa coisa… Ela é quase inatingível – tanto para quem quer ser médico como para quem quer ter acesso a atendimento de saúde. Só se fala em dinheiro, dinheiro, dinheiro…

Convenhamos, mais da metade da demanda da Saúde não é especializada. É de gente que precisa de um médico para resolver problemas clínicos… E estes não necessitam de laboratórios de última geração – apenas de um médico disponível, alguém que as escute, que faça um diagnóstico através da observação atenta… As pessoas precisam de um profissional que olhem para elas, que falem, perguntem, escutem. Isso se faz com conhecimento médico e humanidade.

Veja a situação de nossas crianças… Cadê os pediatras? Eles são cada vez mais raros. Que médico quer ser pediatra? Quem quer ser clínico? Não querem porque há outras especialidades muito mais rentáveis.

Por isso, sustento sim a necessidade de popularizar o curso. Sustento sim a carência de mais profissionais. E principalmente de acabar com a lógica do médico distante do povo. Salários de oito, dez mil reais – pagos pelo SUS – não são ridículos. Representam renda digna e que atende plenamente as necessidades básicas – moradia, alimentação, vestimenta, educação e lazer – de uma família. Entretanto, pela reserva de mercado, médicos se formam – inclusive em instituições públicas, financiadas pelos nossos impostos – e se dão ao luxo de atenderem apenas por convênios e consultas particulares (que chegam a custar mais de R$ 300,00). Isso tem que amar.

PS, Como eu disse, não teria nenhum problema em receber atendimento dos cubanos. Eles podem até não ter toda a tecnologia disponível, mas metade do sucesso no diagnóstico e tratamento de um paciente passa pela escuta atenta por parte do profissional de saúde. E isso poucos profissionais de saúde brasileiros têm disposição de fazer. Medicina se faz sim com tecnologia, mas, no passado, muita coisa se resolvia sem a interferência de aparelhos e equipamentos modernos. As doenças não se tornaram tecnológicas… Dá para resolver muita coisa com conhecimento e boa vontade. Sem contar que a medicina mais eficaz ainda é preventiva. E esta não precisa de aparelhos.

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