Na segunda, uma música

Há quem considere brega. Ou ache a banda ultrapassada. Entretanto, eu ainda gosto do Roupa Nova. A sonoridade da banda, a qualidade vocal, a beleza das músicas… me encantam.

O Roupa Nova tem músicas que se eternizaram. Uma delas compartilho nesta segunda. “Seguindo no trem azul” faz parte da lista dos grandes sucessos. E tem uma letra singela. Fala da inspiração que alguém, um amor, pode provocar.

Confessar, sem medo de mentir
Que em você, encontrei inspiração
Para escrever

É na poesia que esse amor se declara. Não se fala de corpo, de curvas… Não se fala de baladas, nem há provocações que buscam na sensualidade a motivação para se falar da pessoa desejada.

Te dou meu coração
Queria dar o mundo

E não é um amor egoísta. Compartilha-se. Até a poesia.

Não faz mal não ser compositor
Se o amor valeu
Eu empresto um verso meu
Pra você dizer

Vamos ouvir de novo? Sempre bom recordar.

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Sem perder o prazer de escrever

escrever

Manter atualizado talvez seja o maior de desafio de ter um blog. Por isso, é natural que a empolgação se acabe depois de algumas semanas. Afinal, é preciso ter disciplina, motivação e assuntos variados para seguir com postagens regulares.

Às vezes, a pessoa tem disciplina, mas não tem assunto. Outras, tem assunto, mas não é disciplinado e o blog fica de fora da rotina diária. E há casos em que até existe disciplina e assuntos, mas falta motivação. Afinal, ter um espaço na rede significa também ter prazer em publicar.

Eu já vivi todas essas fases. Entretanto, nunca desisti. Faz oito anos que estou na blogosfera. Pensei parar várias vezes. E por motivos variados. Em cada uma dessas ocasiões, o blog acabou ganhando nova cara, uma nova identidade. As mudanças, nem sempre tão claras para os leitores (que vão mudando), foram a forma que encontrei para continuar publicando.

A última fase, diria, é certamente a melhor. Os textos passaram a tratar mais de relacionamentos, do comportamento humano. Vez ou outra, educação e mídia. O blog ganhou muitos leitores, gente que se identificou com as discussões.

Esses são assuntos que gosto muito. Tenho prazer em tratar disso. No entanto, não dá para ser irresponsável. As publicações não são baseadas em “achismo”. São resultado de estudos, leituras, impressões pessoais e respeito ao ser humano. Isso implica leitura, dedicação, observação. E não tenho dado conta disso. Tem faltado tempo. As atividades profissionais, e principalmente os estudos acadêmicos, têm tirado minhas energias. Por isso, pensar parar o blog. Ou pelo menos dar um tempo.

Mas quem diz que consigo parar de escrever? Não se trata apenas de um vício. É algo dentro de mim que me deixa “deprimido” se não publicar. Então, surgiu outro dilema: a identidade deste blog parece ter ido além do próprio autor. É como se determinados assuntos, em especial textos mais breves, não tivessem “espaço” aqui. Resolvi fazer outro blog. Abri a conta, comecei a trabalhar na configuração… Desisti. Quem disse que não posso seguir aqui? O que seria melhor: deixar de atualizar o blog para manter sua identidade ou publicar assuntos diversificados e vez ou outra os temas que têm feito sucesso junto aos leitores? Optei pela última opção. Sigo por aqui. Sem a rotina dos posts de comportamento, talvez até menos publicações, mas sem perder o principal: o prazer de escrever. 

Exibicionismo na rede, noticiário e o leitor

rede
Na lista de sites que espio diariamente está o Globo.com. Noto com freqüência que entre as notícias relevantes, também há inúmeras bobagens. Entretanto, parece cada vez mais recorrente as publicações baseadas no exibicionismo virtual de certas “estrelas”. Hoje, entre outras, encontrei:

Com calça colada, Gracy Barbosa agradece por mais um dia de trabalho

A “notícia” dá conta de uma publicação de Gracyanne Barbosa nas redes sociais. Noutra, Joana Prado aparece pronta para malhar:

Joana Prado acorda cedo e posta na internet: ‘Já malhei e adorei a Deus

Nas informações do esporte, também existe espaço para o exibicionismo:

De short minúsculo e saltão, Daniele Hypólito dá bom dia: ‘Bora treinar’

Sempre me questiono sobre a atuação do jornalismo. Entretanto, como sustento para meus alunos, a informação oferecida tem uma referência principal: o gosto do público. O público é voyer, logo tornou-se “normal” o “noticiário” baseado no exibicionismo de “estrelas”. Além disso, brinca-se à vontade com a libido masculina. Funciona!

Quanto aos hábitos de se mostrar na rede, aí só pode ser carência mesmo, necessidade de curtidas e comentários. Sintoma de solidão e falta de afeto.

Na segunda, uma música

Talvez seja apenas certa melancolia. Entretanto, a sonoridade das músicas mais antigas me agrada mais. As melodias mais simples, ausência de tantas tecnologias parecem deixá-las mais agradáveis, mais gostosas de ouvir.

A canção escolhida para esta segunda-feira tem essas características. “I’m Never Gonna Say Goodbye”, de Billy Preston, é linda. Recordei da música dias atrás. O intérprete nem está entre nós. O cantor e músico americano morreu em 2006. Muitos de seus álbuns foram gospel. Foi por meio desse gênero que foi descoberto no final dos anos 1950. Entretanto, sua discografia reúne outros gêneros – entre eles o soul, o rock e até funk.

“I’m Never Gonna Say Goodbye” fala de despedida, tem um tom triste e mostra o quanto é difícil deixar alguém sair de nossa vida.

Nunca vou dizer adeus
É algo que não posso fazer
Porque enquanto eu não digo adeus
Querida, eu sei, parte de mim sempre estará com você

Mais que dizer da impossibilidade de um adeus, a música ainda declara o quanto esse amor sempre fez bem.

Ter você é tudo que eu sempre quis
Para onde eu vou
Para me sentir como senti aos seus braços
Ainda assim a minha vida é melhor
Amando você como eu amei

Vamos ouvir e recordar?

Que tal andar de bicicleta?

bicicleta

Já andei muito de bicicleta. Mas faz tempo que pedalar é algo que só faço na academia. E ainda assim, prefiro a esteira – caminhar e correr. Ainda assim, sou um entusiasta da bicicleta. Não necessariamente para o lazer ou como opção de atividade física. Penso na “magrela” como alternativa de transporte.

Por isso, fiquei super empolgado quando li a notícia:

Venda de bicicletas supera a de carros na Itália

Depois de 48 anos, o comércio de bicicletas superou o de veículos. E o que é mais interessante: doze anos atrás, cerca de 2,9% da população usava esse tipo de transporte; hoje, os ciclistas representam cerca de 9%. Legal demais, né?

E não é por economia, por falta de dinheiro, empobrecimento da população… Nada disso. Apenas consciência.

Sonho com isso por aqui.

Temos um estrangulamento do sistema de trânsito de nossas cidades. O transporte coletivo não funciona. É ruim. E o preço, pouco convidativo. Diante do quadro, a bicicleta poderia ser a resposta para um problema real. Ela garante autonomia, agilidade, custo reduzido e ajuda no controle ambiental.

Porém, em nosso país há muitos desafios. O primeiro deles é a visão estereotipada dos brasileiros. É ridículo, mas muita gente acha que bicicleta é “coisa de pobre”. Chega a ser preconceituoso, inclusive com as pessoas de menor renda.

Também é preciso rever as prioridades no trânsito. Hoje, o privilégio é para o carro. Não há segurança para quem pedala, não há estacionamentos, não há sistemas de integração com o transporte coletivo, nem banheiros nas empresas para atender os ciclistas.

O que me anima é saber que tudo que acontece nos chamados países desenvolvidos acaba chegando por aqui. Atrasado, mas chega.

Meu direito termina onde começa o do outro

flor

Vivemos numa sociedade individualista. E que prega a liberdade do indivíduo como bem maior. Acontece que individualidade e liberdade nem sempre produzem bons resultados. Na verdade, somadas, podem fazer muito mal.

Dias atrás, enquanto desenvolvia alguns argumentos teóricos numa de minhas aulas, entramos num tema muito delicado: a relação que temos com nossos vizinhos. Pode ser algo bastante prazeroso, mas também provocar dores de cabeça.

Uma aluna contava que, domingo passado, um vizinho resolveu fazer churrasco na calçada da casa dele. Som ligado, gente bebendo, rindo, falando alto, fumaça da churrasqueira invadindo todos os espaços… Incômodo total para quem queria um domingo mais tranquilo, para quem desejava estudar, ver televisão.

Outra acadêmica comentou que, no prédio dela, uma das vizinhas deixa os filhos brincarem nos corredores, entre as portas de entrada dos demais apartamentos. Os baixinhos espalham brinquedos e outros objetos por todo o espaço. As crianças gritam, riem, brigam… E quando alguém precisa sair ou chegar, tem que desviar daquelas coisinhas todas.

Eu tenho uma vizinha que chega em casa quase sempre de madrugada. Dificilmente antes das 3h da madrugada. Está frequentemente de salto. E tem o hábito de arrastar os móveis. É rara a noite que não acordamos com o barulho dela. Na frente do apartamento, tem um dos bares mais badalados da cidade. As pessoas deixam o local muito tarde da noite. Entretanto, não sabem fazer isso sem ligar o som alto, acelerar forte e “cantar” os pneus do carro. Elas se divertem. Entendem ser o direito delas. Respeitar quem está dormindo parece significar um cerceamento à liberdade delas. 

Em todas essas situações, a gente pode pedir para as pessoas fazerem diferente. A chance de a pessoa aceitar de bom grado a reclamação é pequena. Quem age dessa maneira quase sempre acha ter direito de “ser assim”, “fazer assim”. Entende estar no direito dela. Atender pedido do outro é sentido como uma agressão a sua liberdade. Esse tipo de gente tem dificuldade para respeitar o vizinho, porque está centrada em si mesma. É a tal da individualidade em ação. 

Não gosto desse tipo de liberdade. Liberdade boa é liberdade com responsabilidade. E não apenas na relação com o vizinho. Mas em todas as práticas diárias. Quando a gente pensa no outro, se sente responsável por ele. Não vai fazer churrasco na calçada e nem ligar o som em alto volume, porque o vizinho pode estar cansado, ter tido uma noite ruim ou mesmo querer simplesmente assistir sossegado o Faustão. Quem pensa no outro, entra no apartamento em silêncio de madrugada para não acordar os vizinhos. Nem coloca os filhos para brincarem no corredor.

Quem tem responsabilidade com o coletivo, não bebe antes de dirigir. Não é só ele que corre risco, alguém inocente, que respeita as leis, pode ser vítima de sua “liberdade de escolha”. Liberdade boa é encontrar uma carteira com dinheiro na rua e tentar achar o dono para devolvê-la. É não jogar papel na rua… É usar o banheiro e facilitar o trabalho do zelador.

Cá com meus botões, entendo que tem algo errado, distorcido na visão de liberdade. Certos usos da liberdade representam uma escolha por ser melhor, por ser superior – como se pudéssemos nos “presentear” com alguns privilégios. Ser livre é ser igual sim, mas no sentido de reconhecer o outro como digno de meu respeito. É meu semelhante, é igual a mim como humano, mas diferente em escolhas, gostos, comportamentos. E isso requer que o aceite e o acolha em sua diferença. 

Na segunda, uma música

Eu sonhei um sonho num tempo que já se foi
Quando esperanças eram grandes e valia a pena viver
Eu sonhei que o amor nunca morreria
Eu sonhei que Deus seria misericordioso

Essas frases iniciam uma das mais belas canções que conheço. “I dreamed a dream” foi gravada e regravada por muitos intérpretes. Tem uma letra linda, mas que chega a constranger por mostrar que sonhos se perdem, que a esperança, por vezes, morre.

Eu era jovem e destemida
Quando sonhos surgiram e foram e usados e desperdiçados
Não havia nenhum resgate a ser pago
Nenhuma canção não cantada, nenhum vinho intocado

Sempre digo que a vida não é simples de ser vivida. É verdade que a gente complica bastante. Mas a felicidade plena é apenas uma utopia. Talvez por isso não é difícil encontrar pessoas que se deixaram consumir pela realidade.

Eu tive um sonho que minha vida seria
Tão diferente deste inferno que estou vivendo
Tão diferente daquilo que parecia
Agora a vida matou o sonho que sonhei

Para interpretar esta canção, escolhi a versão de Hayley Westenra. A soprano, natural da Nova Zelândia, é cantora de música celta, contemporânea e erudita. Vale a pena ouvir e se encantar.

Sua relação te faz feliz?

casalfeliz

Talvez a pergunta deveria ser outra. Não gosto da ideia de que é preciso ter alguém para ser feliz. Entretanto, uma coisa é certa: um relacionamento ruim pode fazer infeliz.

Por si mesma, a vida não é simples. E torna-se mais difícil porque nos fizeram acreditar que a felicidade existe como um bem que está disponível a todos. Confundimos sorrisos, prazer, beleza, sexo, consumo com felicidade. O desfile de gente famosa na televisão, nas revistas e até de amigos e conhecidos no Facebook faz a gente desejar algo que não existe. Todos parecem ter uma vida melhor que a nossa. Uma falsa felicidade é estampada em imagens que silenciam a verdade da existência humana. Por isso, crescemos sonhando ser felizes. Como a realidade é outra – tem falta de dinheiro, brigas, falsos amigos, parentes chatos, doença, dor… – a gente vive a frustração constante de uma vida diferente da almejada.

Por isso mesmo, quando se tem alguém para amar, esse alguém tem que somar, tem que acrescentar em nossa vida. Não pode estar ali para somar problemas, acrescentar tristezas. Essa pessoa tem que trazer as experiências e a disposição para se ter uma vida que valha a pena viver. O parceiro deve ajudar a nos tornar melhores e não representar um fardo.

Tem gente que, sozinho, sorri; quando tem alguém, está sempre emburrado. Como pode? O amor faz bem. O amor não faz triste.

Significa que o outro tem que estar ali apenas para agradar? Claro que não. Não é nada disso. Ninguém está numa relação apenas servir o outro.  A pessoa que a gente ama tem uma história, tem um passado, tem um jeito de agir, tem uma família, tem amigos… Tem seus próprios problemas. Entretanto, é diferente a pessoa ter problemas e ser um problema. Gente-problema torna a vida do parceiro pior. Rouba as energias. Chega um ponto que a pessoa não caminha, ela se arrasta. Num encontro, você chega feliz e sai triste. Entra em casa sorrindo e sai chorando.

Quem tem um relacionamento assim, não vive, vegeta. Perde o sorriso, a produtividade, afasta-se dos amigos e até a autoestima.