Mas você faz…

discussao

Um dos argumentos mais repetidos em discussões é também um dos mais vazios e improdutivos. De um lado, está alguém que diz algo para ser prontamente rebatido pelo outro com uma fala do tipo:

– Ah… mas quando é você, você faz isso e também aquilo e mais aquilo…

Pronto. Está armado o cenário para uma discussão imbecil e que não vai produzir nenhuma mudança. Pelo contrário, apenas deixará mágoas.

E chega ser engraçado como as coisas acontecem. Às vezes começa de maneira muito simples. A mulher entra no quarto pela manhã, está com dor de cabeça e sente o perfume forte do marido.

– Poxa, você passou bastante perfume…

É uma situação localizada. O incômodo aconteceu naquele momento. Mas… pra que foi dizer isso? O sujeito parece estar armado, pronto para o contra-ataque.

– E quando é você? Você toma banho de perfume. Gasta um frasco de perfume toda vez que vai sair.

Se quem fez o primeiro comentário não engolir as palavras e optar por rebater, não tem jeito: vai ter briga.

Por sinal, muitas brigas começam por coisas simples. Coisas sem sentido. Apenas porque as pessoas são intolerantes, vivem na defensiva, prontas para o confronto. Sentem-se perdedoras se não responderem o comentário alheio.

Isso tudo é muito ruim para a dinâmica do relacionamento. É improdutivo. Não ajuda em nada. A gente tem mania de não tolerar a crítica. E não fazer a autocrítica. A gente escuta o comentário do outro e não é capaz de parar e pensar: “será que exagerei?”, “será que errei?”… Na verdade, a primeira coisa que fazemos é procurar no outro comportamento semelhante que o desautorize a nos corrigir. Trata-se de uma atitude medíocre, pequena demais. A gente não cresce e nem ajuda o outro crescer. Continuamos no erro e não contribuímos para a mudança do outro.

Deveríamos entender que cada situação é específica. A história do perfume, por exemplo, talvez nem fosse uma crítica. Talvez teria nascido apenas porque o outro não está se sentindo bem. Um comentário num tom agradável…

– Está incomodando?

Ou:

– Acha que exagerei hoje?

Poderia ajudar a entender o contexto, saber o que o outro está de fato pensando, ou o que queria dizer. Também poderia abrir a possibilidade de continuar a conversa de maneira branda e aí sim falar do outro.

– Por sinal, amor, acho que tem passado muito perfume também. Às vezes me incomoda.

O problema é que frequentemente nem há incômodo, nem há razão pra questionar o outro. Mas a falta de disposição pra entender a perspectiva do outro, que o outro é diferente… acaba falando mais alto. A gente “tira algo da cartola” e tudo vira motivo pra confrontar, para não se abrir ao diálogo.

Sabe, as relações seriam muito melhores, cresceríamos mais, se tivéssemos humildade para ouvir as críticas e até os comentários tido como nocivos. Embora possa num primeiro momento parecer um ataque barato, a fala do outro pode conter certa verdade. Não significa que a outra pessoa também não tenha erros que precisam ser reparados. Significa que o erro do outro não deve silenciar nossos próprios erros. E a gente pode ouvir, refletir, mudar… Separando o que é falha nossa do que é falha do outro. Afinal, não é por que o outro tem problemas que precisamos seguir com os nossos. A autocrítica produz crescimento. E mudanças são sempre bem vindas.

PS- O texto não tem como proposta dizer que, no relacionamento, a gente deve baixar a cabeça pra tudo que o outro diz (não estou falando de sujeição). Apenas tem como objetivo mostrar que, no fundo, a crítica pode trazer uma verdade sobre nós. Uma verdade que pode nos ajudar a mudar. Quanto aos erros do outro, podemos ajudá-lo a crescer. Mas não será fazendo comparações, partindo para o ataque que isso vai acontecer.

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2 comentários em “Mas você faz…

  1. Algumas vezes, quando a crítica nos vem, ficamos em silêncio, baixamos a cabeça. Isso pode ser um sinal de aceitação ou então pra evitar conflitos. Só que, fazendo isso, o outro diz: “não vai falar nada? O que houve? Perdeu a língua?”, entre outras perguntas. Quem fez a crítica realmente sempre espera o contra-ataque pra atacar novamente, pois tem uma carta na manga. Que tenhamos paciência e domínio próprio!

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