Para que nascemos?

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Acho que uma das grandes inquietações do homem é a razão de sua existência. Por que nascemos? Por que vivemos? Qual o sentido da vida? Por meio da religião, muitos parecem se encontrar e aquietar o coração. Outros tantos simplesmente não pensam; optaram por viver anestesiados. Divertem-se como se a vida se explicasse tão somente pelo prazer que se pode ter.

Eu também não tenho uma resposta. Todas que conheço permitem ser questionadas. Entretanto, gosto da ideia de que nossa existência se justifica coletivamente. Ou seja, pode até não explicar por que nascemos, mas ao menos aponta uma razão para a vida valer a pena. O premiado escritor americano Ernest Hemingway, na obra “Por quem os sinos dobram”, traz na fala de uma de suas personagens um pouco dessa beleza. Após ouvir o relato de um jovenzinho que teria perdido toda a família e seu lamento por expor tanta dor ao grupo de amigos, ela diz:

– Para que nascemos se não para nos ajudarmos uns aos outros?

O jovem estava constrangido por falar de mortes, de perdas para um grupo de amigos que também carregava consigo decepções, frustrações e familiares mortos na guerra. Todos ali tinham uma história de dor. Parecia que ninguém tinha o direito de chorar seus dramas. Afinal, o choro de um parecia não se justificar diante de sofrimentos supostamente ainda maiores vividos por outros. Ainda assim, a personagem de Hemingway sustenta: existimos para nos apoiar, para ajudar uns aos outros.

E, diante da incapacidade que muitas vezes temos de dizer alguma coisa, ela completa:

– E ouvir sem dizer nada é o menos que se pode fazer.

Sabe, relacionar-se não é fácil. Entretanto, é isso que nos faz humanos. Eu costumo dizer que não somos dependentes de um amor (ter alguém com quem dividir a cama) pra vivermos felizes. Mas precisamos de gente. Não é bom viver sozinho. E não se trata de ter alguém com quem dividir uma festa ou uma bebida. Trata-se de ser capaz de ajudar e ser ajudado, abraçar e ser abraçado… em todos os momentos. Algo dentro de nós reclama a presença do outro. A gente é mais feliz quando faz alguém feliz – ou está ali para enxugar uma lágrima, provocar um sorriso… 

Quando a gente vai no velório de alguém, dá pra perceber se a existência daquela pessoa valeu ou não a pena pelos depoimentos que se ouve. Não se trata de apenas escutar coisas do tipo “ele era tão bom”. Trata-se de perceber o quanto aquela pessoa se doou pelos outros. Familiares, filhos, amigos, colegas de trabalho, conhecidos e até desconhecidos circulam por ali com lágrimas nos olhos e lamento real pela perda de alguém que fez a diferença. Pessoas assim, quando se despedem da vida, parecem ter deixado marcas; marcas na vida de outras pessoas. Escrevem uma história que se estende para além delas. Não vivem isoladas do mundo; elas são o próprio mundo.

Acredito que gente assim pode até não ter entendido por que nasceu, mas certamente soube como e por que viver.

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2 comentários em “Para que nascemos?

  1. Belíssimo texto caríssimo, além de poéticas e sensíveis, suas palavras são verdadeiras.
    As pessoas que vivem na filosofia de que o “prazer é um fim, e não um meio”, são as que se dedicam a vida no seu dia a dia, construindo, plantando, ajudando, sendo humano e empático ao outro são aquelas que se dedicam a causa humana, lembrando que essa causa não precisa ser ambiciosa em atingir um grande grupo da sociedade.
    Basta que cuidemos de nosso jardim, e das flores que ali estão, se todos fizerem isso, esse mundo com toda certeza será melhor para ser vivido.

    Obrigada pela chance de encher o coração com bons sentimentos, e parabéns pela sensibilidade e assertividade no uso das palavras.

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