Na segunda, uma música

A essência do cristianismo é o amor. Entretanto, viver o amor é uma das coisas mais difíceis. Quase todos nós somos egoístas, mesquinhos, maldosos, maledicentes. A gente ama, mas só da boca pra fora.

Dias atrás, enquanto conversava com um amigo, ele dizia ter muita resistência às religiões. E isso por que a maioria dos praticantes está longe de viver o que prega. Eu concordo com ele, pois também repito muitas vezes um discurso que não pratico. Talvez por isso, a música desta segunda-feira me tocou tanto quando a ouvi pela primeira vez. Ela mostra que não adianta querer chegar até Deus sem começar a viver uma vida de amor. 

Eu ei de ver, Senhor, a tua glória
E viverei o verdadeiro amor
Quando eu estender a mão
Quando eu tiver compaixão
E me importar um pouco mais com meu irmão

Nada do que a gente faça tem valor enquanto não houver amor de verdade. Amor que se importa, amor que reparte, amor que é capaz de ver se ocupar primeiro da dor do outro.

Só é adoração quando eu estendo a mão
Quando eu reparto o que é meu
Quando eu enxergo além dos meus desejos
Além do meu próprio eu
Só é adoração se move o coração de Deus
Se eu vejo além da minha dor

Tomando como referência o belíssimo texto bíblico de São Paulo, quando fala de amor, Eyshila reforça a essência do cristianismo – e de quase todas as religiões.

Ainda que eu tenha uma fé que remove montanhas
E dê o que eu tenho aos pobres
Ainda que eu dê o meu corpo pra ser queimado pelo fogo
Será em vão; de nada valerá…
[Se não tiver amor]

A canção de hoje é do gênero gospel. Não sei quantos gostam. Mas vale ouvi-la… até pra entender que muitas vezes o problema das religiões não está em suas filosofias, mas na maneira como nós as praticamos.

Vale ouvir. Eyshila, Adoração.

Lágrimas na solidão

lagrimas
Nos caminhos da vida, não faltam espinhos. Por escolhermos a forma mais difícil de viver ou simplesmente porque não temos controle de tudo, nos machucamos – ferimos e somos feridos. A dor dilacera o coração e tudo que se quer é não sentir-se a pior das pessoas, o pior dos seres humanos. Sozinho, a gente afunda ainda mais… E este processo parece ainda mais doloroso. A dor se intensifica pela ausência, pela falta de alguém pra ouvir, pra dar atenção. É dor que se chora sozinho pela falta de um amigo disposto a escutar, apenas escutar. Chorar junto, se preciso. Abraçar, se necessário.

Há momentos em que a angústia toma conta. É preciso verbalizar. “Botar pra fora”. Mas com quem contar? Quem pode ouvir? Quem tem disposição para ouvir e não julgar?

A gente até acha um monte de “amigos” dispostos a dar palpites, preparados para dizer pra gente sair dessa, que tudo passa, que é só um momento… Entretanto, onde estão os amigos que acolhem? Que estendem a mão? Que abraçam? Que amam simplesmente por amar, sem esperar nada em troca?

Hoje cada um cuida da sua vida. E, no olhar para o outro, frequentemente se tem a “receita” para que seja feliz. Por isso, é tão difícil encontrar alguém que ouça. Que escute, acolha, não julgue e muito menos transforme em “notícia” tudo o que ouviu.

Estamos ilhados em meio a um mar de pessoas. Muitos de nós estamos sozinhos. As lágrimas correm sem ninguém para enxugá-las. Poucos podem se orgulhar de ter um amigo de verdade. Alguém capaz de ouvir, simplesmente ouvir, abraçar, apoiar. A dor que se sofre é a dor do problema, é a dor da angústia, da incerteza, da aparente falta de uma saída. Mas também é a dor do abandono, da solidão.

O “estraga-prazer”

inveja
É preciso estar muito bem consigo mesmo para lidar com os invejosos de plantão

Conhece algum? Provavelmente sim. Eles estão por toda parte. Dias atrás, enquanto aguardava o elevador, notei que a mulher da portaria estava toda empolgada com o notebook novo que havia comprado. Foi mostrar para um colega que estava papeando por ali. Em meia dúzia de frases, ele tirou o sorriso dela. Começou mostrando que a configuração era isso, aquilo… Em resumo, disse que o computador não prestava.

Depois de ver a cena, fiquei pensando nas tantas vezes que observei situações semelhantes. Pode ser com o notebook, o tablet, o celular… Mas também pode ser com a blusinha nova que acabou de comprar em cinco vezes no cartão, o xampu para diminuir o volume dos cabelos… Ou quem sabe até o novo namorado. Tem gente que adora botar defeito no que é do outro. Parece ter prazer nisso.

Lembro que quando comprei meu golzinho zero quilômetro, básico de tudo, um vizinho viu o carro sem placas e foi rondar por ali. O sujeito mal tinha uma bicicleta para andar, mas assim que respondi que era simples, nem possuía ar condicionado, foi logo disparando:

– Ah… não. Não dá pra comprar carro em Maringá sem ar condicionado.

Inveja? Talvez. Mas o pior é que esse tipo de gente se espalha, se múltipla e, por vezes, puxa o outro pra baixo. Essas pessoas não vibram com a conquista alheia. Pelo contrário, parecem sentir satisfação na derrota; não são altruístas. Alimentam a própria alma com a tristeza, com o desânimo, com a queda do outro. Por isso, quando a pessoa consegue alguma coisa, o “estraga-prazer” aparece para tirar o sorriso, a felicidade, minimizar a vitória. É incapaz de aplaudir o outro.

Não tem muito que fazer com esses “amigos” e “colegas”. Não dá para prendê-los. Sempre vão existir. Estarão a postos em algum lugar e, quando menos esperarmos, vão aparecer. E sempre com um discurso negativo na ponta da língua. O que nos resta é ignorar. Ter fortalecida a autoestima e vez outra disparar um “dane-se; é meu, eu fiz, eu conquistei… e com muito orgulho”.

Carentes de reconhecimento

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Reconhecer o outro, o papel que o outro tem na nossa vida… Ou simplesmente as pequenas atitudes, os pequenos gestos, deveriam fazer parte de nossa rotina. Sei que a gente não deve viver esperando o reconhecimento alheio. Mas isso parece maior que nós. Na relação entre sujeitos, está subentendida a expectativa por reconhecimento. Quando não é reconhecida, a pessoa se sente lesada, ignorada.

Um gesto de reconhecimento pode vir desde um obrigado até uma menção pública. Eu acho bonito isso. Lembro que só cursei a faculdade de Jornalismo por causa de um antigo colega de trabalho. Ele praticamente acertou tudo pra mim. Viu custo, negociou ajuda da empresa onde eu trabalhava… Enfim, me empurrou para fazer o curso. Numa das primeiras oportunidades que tive, mencionei o apoio dele em sala de aula, diante do professor e dos demais alunos. Era o mínimo que podia fazer. Do contrário, provavelmente não estaria ali.

Eu não sou a pessoa mais agradecida do mundo. Pelo contrário, sou um bocado ranheta e egoísta. E por vezes tenho repetido a máxima “ah… ele não fez mais que a obrigação”. Entretanto, entendo que demonstrar reconhecimento pelos gestos gentis, pelos pequenos favores é algo que deveríamos praticar mais. Faz bem pro coração. Pro nosso e para o coração do outro. Às vezes, o outro ficará até um tanto acanhado, sem saber receber o elogio… Mas não custa dizer: “valeu por fazer isso pra mim”.

O colega de trabalho limpa a mesa… Ignoramos. A moça do cafezinho avisa que o café ficou pronto… Mal olhamos pra ela. O professor empresa um livro… Nem nos damos ao trabalho de comentar se gostamos ou o quanto nos ajudou. Às vezes, até esquecemos de devolver.

Nos relacionamentos amorosos, por exemplo, por que parece tão difícil dizer “obrigado por ter feito o café da manhã?”. Ou… “o almoço de hoje estava muito gostoso!!!”. Quem sabe um “deixa que eu lavo a louça pra você; você já fez a torta pra nós”. Por que quase sempre não fazemos isso? Muitos romances esfriam, ou vão sendo minados aos poucos pela ausência de palavras gentis, por se negligenciar o outro, reconhecer o esforço do parceiro em investir na relação.

Por mais que o outro tenha defeitos, mesmo que seja culpado por desastres cotidianos, provavelmente é alguém que também tenta acertar. Reconhecer as pequenas ações positivas valoriza  a pessoa. Motiva a tentar ser ainda melhor. Todo mundo gosta de elogio. Gostamos de ser reconhecidos. Quem não quer saber que fez algo legal? Carecemos dos aplausos.

Em sua juventude, o filósofo alemão Hegel desenvolveu a tese de que parte da luta humana se dá pela busca por reconhecimento. Ainda que de forma inconsciente, as pessoas querem ser reconhecidas em suas singularidades, em suas potencialidades. Por isso, quando reconhecemos uma atitude do outro, estamos o aplaudindo, tocando sua subjetividade. Ou… massageando seu ego. E sabe o que é melhor? Conforme reconhecemos o talento do outro, as qualidades do outro, os pequenos favores, reforçamos há de bom no outro. Hegel sugere que essa pessoa se torna melhor. Em todos os sentidos. Torna-se mais gentil, amável e até mais ética.

Vale a pena praticar, né?

A insatisfação no relacionamento

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A insatisfação é inerente ao ser humano. Acho que é uma característica nossa. Nada nos satisfaz por muito tempo. Por exemplo, a gente compra um carro novo. Ele é lindo, o máximo. Era o objeto desejado. Porém, não demora muito tempo pra outro modelo chamar nossa atenção.

Acontece que isso muitas vezes acontece nos relacionamentos. Quando o romance perde o “cheirinho de novo”, aparece a frustração e a vontade de mudar – de parceiro(a) inclusive.

Dias atrás lia uma entrevista com o ensaísta francês Pascal Bruckner. Em comum, tenho com ele os estudos em Letras e o gosto por refletir sobre relacionamentos. Achei interessante a explicação de Bruckner para as separações.

Antes, as pessoas permaneciam juntas, em nome das conveniências, da moral, para preservar os filhos. Hoje, os homens e as mulheres – sobretudo as mulheres – não hesitam em divorciar-se, desde que eles não se entendem mais. Ou seja, a intolerância ao tédio e ao desamor se tornou muito forte.

A insatisfação, que sempre apareceu em muitos aspectos da vida – e que nos movia, inclusive, para novas conquistas (uma casa nova, um emprego melhor etc) – também passou a significar os relacionamentos. Como sugere Bruckner, certos valores serviam quase como cabrestos. Impunham limites. E numa época em que ser feliz não era uma imposição social, as pessoas toleravam o tédio no relacionamento e, mesmo sem amor, mantinham o casamento.

Entretanto, os valores mudaram. E algumas teses se tornaram “verdades absolutas”. A felicidade permanente é uma delas. As pessoas acreditam que podem ser felizes o tempo todo. Outra tese é a de que o romance só é romance se houver paixão; tem que ter “fogo”.

Gostaríamos de sentir o fogo da paixão e a satisfação de uma felicidade permanente – e frequentemente fracassamos nessa tentativa.

E o fracasso se dá justamente porque são valores ilusórios. São verdades construídas, mas que se naturalizaram como crenças. E hoje norteiam nossas ações. Mas não representam a verdade concreta, a verdade da vida. A vida é construída por bons e maus momentos. Por dias de alegria e outros de tristeza. Risos e lágrimas, euforia e tédio fazem parte da dinâmica da própria existência. E não é diferente com o relacionamento.

A pessoa com quem a gente vive é alguém real. E como todo ser humano, cheio de contradições. Nas contradições, encontramos as virtudes e as imperfeições. Numa hora, o parceiro é mocinho; noutro, bandido. Assim também sou eu… Assim é você. Se não sou perfeito, por que o outro precisa ser?

É preciso, notadamente na vida amorosa, aceitar viver com as próprias imperfeições e com as imperfeições dos outros. Não podemos pedir ao outro para tornar-se um herói ou uma heroína em tempo completo. Quando aceitamos nossas imperfeições podemos chegar a uma espécie de harmonia com o outro.

Entender isso é que faz a gente viver bem o relacionamento e não descartá-lo diante da primeira novidade que aparecer.

Na segunda, uma música

Muita gente vive o drama constante de guardar sentimentos que incomodam. Pequenas ou grandes frustrações que machucam o coração. Verbalizar essas dores, por vezes, é a melhor maneira de aliviar as dores da alma.

Caminhando como um exército de um homem só
Lutando contra as sombras em sua mente
Vivendo o mesmo velho momento
[…] Diga o que você precisa dizer

John Mayer, na música “Say”, traz um recado que deveria nortear nossa vida.

Não tenha medo de continuar
Não tenha medo de desistir
Melhor você saber que no fim é melhor dizer demais
Do que nunca dizer o que você precisa dizer

Persistir é fundamental. Mas desistir também pode ser necessário. O que a gente carece é ter certeza de ter dado o melhor, feito o melhor, investido o nosso melhor… Feito tudo pra vida valer a pena.

Mesmo que suas mãos estejam tremendo
E sua fé perdida
Mesmo se os olhos estiverem se fechando
Faça isso com o coração bem aberto

E então… vamos ouvir?

Crianças obesas e a responsabilidade dos pais

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Comer é uma das melhores coisas do mundo. Não é sem razão que a gente, ao comemorar alguma coisa, pensa logo em comida. Entretanto, o prazer de comer tem se transformado num enorme problema: a obesidade. E a situação se torna ainda pior porque tem começado ainda muito cedo. Estudos sugerem que cerca 1/3 da molecadinha está acima do peso. Sabe o que é pior? Os adultos são os culpados – principalmente os pais.

A gente se preocupa demais com o peso, mas faz muito pouco pra mudar os hábitos. A gente come porcaria, come fora de hora, come demais e faz exercícios de menos. E as crianças crescem vendo nossos exemplos. Agora, um estudo recente, identificou um outro problema: pais de crianças obesas fazem muito pouco para ajudá-las. Na verdade, metade deles não acha que o filho obeso represente um problema. São pais que subestimam o excesso de peso dos filhos. Parecem que não enxergam o que está acontecendo. Isso é grave demais!

E é grave porque criança gorda é meio caminho para um monte de doenças. As autoridades de saúde dizem que ainda na infância têm crescido os registros de hipertensão, colesterol alto, os casos de diabetes, enfraquecimento dos ossos… A coisa é feia. E os pais seguem dando bobagem para os filhos. Bolachinhas recheadas, salgadinhos industrializados, refrigerantes, sorvetes, balas… Tem família que não sabe mais o que é ter um almoço com arroz, feijão, carne, legumes e saladas. Frutas então??? Nem feitas em vitamina.

A molecadinha não sabe brincar. Quer dizer, até sabe – desde que no computador, nos videogames, smartphones, tablets… Acomodados, nós, pais, nada fazemos para mudar essa realidade. Nem na mesa nem na prática de atividade física. Futuro? Difícil saber… Talvez, como ouvi dias atrás de um médico, vamos começar a ver muito cedo uma redução na expectativa de vida. Ou gente vivendo muito, mas à base de medicamentos, sem qualidade de vida.

Quase linchado. Crime? Ele queria comer

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“Nas ruas do mundo, o grande desafio é olhar para ver” (Eliane Brum)

Ele tem 17 anos. Quase foi linchado. Foi pego por populares após tentativa de furto em supermercado. Ouviu insultos… Muita gente o chamou de vagabundo, vadio. Queriam matá-lo. O adolescente tentava furtar comida.

Tempos atrás, ouvi uma professora dizer que a sociedade brasileira é vingativa, raivosa. Concordo com ela.

Temos inúmeros crimes que revoltam. Entretanto, vez ou outra parece que é preciso descontar em alguém nosso ódio. Nessa terça-feira, 4, no Rio, um adolescente de 17 anos foi alvo do desencanto, da desilusão, do sentimento de impunidade da população.

Existe justificativa para o furto? A fome é razão para um crime? Parece-me que não. Porém, existem motivos para tentar tirar a vida de um adolescente?

Enquanto lia a notícia, pensava nas condições de vida desse adolescente. Eu não sei quem ele é, qual é sua família. Entretanto, creio que deve ser vítima dessa mesma sociedade que queria linchá-lo. Garoto negro, filho do morro… Excluído do mundo urbano, da cidade, do consumo.

De fora, não conhecemos a vida desses meninos criados no morro, nas periferias, nos guetos de nossas cidades. Ali a maioria não tem escolha. Furtos, roubos, tráfico nem sempre são uma opção de vida; podem ser consequência de ter nascido na favela, da falta de outras oportunidades.

O imperativo “Vai trabalhar, vagabundo!!!” é só uma retórica pobre, vazia na boca de quem julga pelas aparências. O garoto que tem fome, que tenta furtar para comer, provavelmente não conseguiria emprego se tivesse aparecido um dia antes pedindo trabalho na empresa de qualquer um daqueles que tentavam matá-lo.

Um garoto que tenta furtar para comer talvez nem tenha sido pego pelo tráfico, porque o tráfico paga seus soldados.

A jornalista Eliane Brum diz que

Nas ruas do mundo, o grande desafio é olhar para ver. E olhar para ver é perceber a realidade invisível – ou deliberadamente colocada nas sombras. Olhar para ver é o ato cotidiano de resistência de cada pessoa.

Sabe, na história de vida de cada pessoa há um universo – para nós, desconhecido – que motiva ações ou reações que condenamos. As condições sociais, familiares, históricas às vezes são determinantes. Com um pouco de tolerância e interesse pelo outro (o desafio de olhar para ver), perceberíamos que “menores infratores” podem ser vítimas de uma sociedade desigual, que condena muitos à eterna marginalidade.

Ps – O texto não tem como proposta ser uma defesa do garoto. E a principal discussão não visa tratar desse adolescente que quase foi linchado. A proposta é fazer pensar sobre a maneira como julgamos os menores, a forma vingativa que a sociedade tem respondido por anos de frustração diante da impunidade, os riscos que corremos ao sermos apressados nas conclusões e, por fim, para apontar que muitos dos adolescentes criminosos são vítimas das próprias condições sociais.