Quase linchado. Crime? Ele queria comer

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“Nas ruas do mundo, o grande desafio é olhar para ver” (Eliane Brum)

Ele tem 17 anos. Quase foi linchado. Foi pego por populares após tentativa de furto em supermercado. Ouviu insultos… Muita gente o chamou de vagabundo, vadio. Queriam matá-lo. O adolescente tentava furtar comida.

Tempos atrás, ouvi uma professora dizer que a sociedade brasileira é vingativa, raivosa. Concordo com ela.

Temos inúmeros crimes que revoltam. Entretanto, vez ou outra parece que é preciso descontar em alguém nosso ódio. Nessa terça-feira, 4, no Rio, um adolescente de 17 anos foi alvo do desencanto, da desilusão, do sentimento de impunidade da população.

Existe justificativa para o furto? A fome é razão para um crime? Parece-me que não. Porém, existem motivos para tentar tirar a vida de um adolescente?

Enquanto lia a notícia, pensava nas condições de vida desse adolescente. Eu não sei quem ele é, qual é sua família. Entretanto, creio que deve ser vítima dessa mesma sociedade que queria linchá-lo. Garoto negro, filho do morro… Excluído do mundo urbano, da cidade, do consumo.

De fora, não conhecemos a vida desses meninos criados no morro, nas periferias, nos guetos de nossas cidades. Ali a maioria não tem escolha. Furtos, roubos, tráfico nem sempre são uma opção de vida; podem ser consequência de ter nascido na favela, da falta de outras oportunidades.

O imperativo “Vai trabalhar, vagabundo!!!” é só uma retórica pobre, vazia na boca de quem julga pelas aparências. O garoto que tem fome, que tenta furtar para comer, provavelmente não conseguiria emprego se tivesse aparecido um dia antes pedindo trabalho na empresa de qualquer um daqueles que tentavam matá-lo.

Um garoto que tenta furtar para comer talvez nem tenha sido pego pelo tráfico, porque o tráfico paga seus soldados.

A jornalista Eliane Brum diz que

Nas ruas do mundo, o grande desafio é olhar para ver. E olhar para ver é perceber a realidade invisível – ou deliberadamente colocada nas sombras. Olhar para ver é o ato cotidiano de resistência de cada pessoa.

Sabe, na história de vida de cada pessoa há um universo – para nós, desconhecido – que motiva ações ou reações que condenamos. As condições sociais, familiares, históricas às vezes são determinantes. Com um pouco de tolerância e interesse pelo outro (o desafio de olhar para ver), perceberíamos que “menores infratores” podem ser vítimas de uma sociedade desigual, que condena muitos à eterna marginalidade.

Ps – O texto não tem como proposta ser uma defesa do garoto. E a principal discussão não visa tratar desse adolescente que quase foi linchado. A proposta é fazer pensar sobre a maneira como julgamos os menores, a forma vingativa que a sociedade tem respondido por anos de frustração diante da impunidade, os riscos que corremos ao sermos apressados nas conclusões e, por fim, para apontar que muitos dos adolescentes criminosos são vítimas das próprias condições sociais. 

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