A insatisfação no relacionamento

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A insatisfação é inerente ao ser humano. Acho que é uma característica nossa. Nada nos satisfaz por muito tempo. Por exemplo, a gente compra um carro novo. Ele é lindo, o máximo. Era o objeto desejado. Porém, não demora muito tempo pra outro modelo chamar nossa atenção.

Acontece que isso muitas vezes acontece nos relacionamentos. Quando o romance perde o “cheirinho de novo”, aparece a frustração e a vontade de mudar – de parceiro(a) inclusive.

Dias atrás lia uma entrevista com o ensaísta francês Pascal Bruckner. Em comum, tenho com ele os estudos em Letras e o gosto por refletir sobre relacionamentos. Achei interessante a explicação de Bruckner para as separações.

Antes, as pessoas permaneciam juntas, em nome das conveniências, da moral, para preservar os filhos. Hoje, os homens e as mulheres – sobretudo as mulheres – não hesitam em divorciar-se, desde que eles não se entendem mais. Ou seja, a intolerância ao tédio e ao desamor se tornou muito forte.

A insatisfação, que sempre apareceu em muitos aspectos da vida – e que nos movia, inclusive, para novas conquistas (uma casa nova, um emprego melhor etc) – também passou a significar os relacionamentos. Como sugere Bruckner, certos valores serviam quase como cabrestos. Impunham limites. E numa época em que ser feliz não era uma imposição social, as pessoas toleravam o tédio no relacionamento e, mesmo sem amor, mantinham o casamento.

Entretanto, os valores mudaram. E algumas teses se tornaram “verdades absolutas”. A felicidade permanente é uma delas. As pessoas acreditam que podem ser felizes o tempo todo. Outra tese é a de que o romance só é romance se houver paixão; tem que ter “fogo”.

Gostaríamos de sentir o fogo da paixão e a satisfação de uma felicidade permanente – e frequentemente fracassamos nessa tentativa.

E o fracasso se dá justamente porque são valores ilusórios. São verdades construídas, mas que se naturalizaram como crenças. E hoje norteiam nossas ações. Mas não representam a verdade concreta, a verdade da vida. A vida é construída por bons e maus momentos. Por dias de alegria e outros de tristeza. Risos e lágrimas, euforia e tédio fazem parte da dinâmica da própria existência. E não é diferente com o relacionamento.

A pessoa com quem a gente vive é alguém real. E como todo ser humano, cheio de contradições. Nas contradições, encontramos as virtudes e as imperfeições. Numa hora, o parceiro é mocinho; noutro, bandido. Assim também sou eu… Assim é você. Se não sou perfeito, por que o outro precisa ser?

É preciso, notadamente na vida amorosa, aceitar viver com as próprias imperfeições e com as imperfeições dos outros. Não podemos pedir ao outro para tornar-se um herói ou uma heroína em tempo completo. Quando aceitamos nossas imperfeições podemos chegar a uma espécie de harmonia com o outro.

Entender isso é que faz a gente viver bem o relacionamento e não descartá-lo diante da primeira novidade que aparecer.

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2 comentários em “A insatisfação no relacionamento

  1. Bem isso Ronaldo! Quantas pessoas insatisfeitas, porque buscam a perfeição onde não há. Somos imperfeitos, limitados e assim agradamos, desagradamos o outro. Que a felicidade seja fruto não apenas dos momentos alegres, mas também daqueles em que buscamos reconhecer e superar as nossas limitações juntos.

  2. Gostei muito do artigo. O ruim acontece quando só um tenta mudar. As vezes a limitação do outro é tão grande que ele mesmo não percebe o quanto ser resistente à mudança o faz mal, limitando-o a viver grandes momentos com uma pessoa maravilhosa, ou outras que ele vier a encontrar.

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