Carentes de reconhecimento

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Reconhecer o outro, o papel que o outro tem na nossa vida… Ou simplesmente as pequenas atitudes, os pequenos gestos, deveriam fazer parte de nossa rotina. Sei que a gente não deve viver esperando o reconhecimento alheio. Mas isso parece maior que nós. Na relação entre sujeitos, está subentendida a expectativa por reconhecimento. Quando não é reconhecida, a pessoa se sente lesada, ignorada.

Um gesto de reconhecimento pode vir desde um obrigado até uma menção pública. Eu acho bonito isso. Lembro que só cursei a faculdade de Jornalismo por causa de um antigo colega de trabalho. Ele praticamente acertou tudo pra mim. Viu custo, negociou ajuda da empresa onde eu trabalhava… Enfim, me empurrou para fazer o curso. Numa das primeiras oportunidades que tive, mencionei o apoio dele em sala de aula, diante do professor e dos demais alunos. Era o mínimo que podia fazer. Do contrário, provavelmente não estaria ali.

Eu não sou a pessoa mais agradecida do mundo. Pelo contrário, sou um bocado ranheta e egoísta. E por vezes tenho repetido a máxima “ah… ele não fez mais que a obrigação”. Entretanto, entendo que demonstrar reconhecimento pelos gestos gentis, pelos pequenos favores é algo que deveríamos praticar mais. Faz bem pro coração. Pro nosso e para o coração do outro. Às vezes, o outro ficará até um tanto acanhado, sem saber receber o elogio… Mas não custa dizer: “valeu por fazer isso pra mim”.

O colega de trabalho limpa a mesa… Ignoramos. A moça do cafezinho avisa que o café ficou pronto… Mal olhamos pra ela. O professor empresa um livro… Nem nos damos ao trabalho de comentar se gostamos ou o quanto nos ajudou. Às vezes, até esquecemos de devolver.

Nos relacionamentos amorosos, por exemplo, por que parece tão difícil dizer “obrigado por ter feito o café da manhã?”. Ou… “o almoço de hoje estava muito gostoso!!!”. Quem sabe um “deixa que eu lavo a louça pra você; você já fez a torta pra nós”. Por que quase sempre não fazemos isso? Muitos romances esfriam, ou vão sendo minados aos poucos pela ausência de palavras gentis, por se negligenciar o outro, reconhecer o esforço do parceiro em investir na relação.

Por mais que o outro tenha defeitos, mesmo que seja culpado por desastres cotidianos, provavelmente é alguém que também tenta acertar. Reconhecer as pequenas ações positivas valoriza  a pessoa. Motiva a tentar ser ainda melhor. Todo mundo gosta de elogio. Gostamos de ser reconhecidos. Quem não quer saber que fez algo legal? Carecemos dos aplausos.

Em sua juventude, o filósofo alemão Hegel desenvolveu a tese de que parte da luta humana se dá pela busca por reconhecimento. Ainda que de forma inconsciente, as pessoas querem ser reconhecidas em suas singularidades, em suas potencialidades. Por isso, quando reconhecemos uma atitude do outro, estamos o aplaudindo, tocando sua subjetividade. Ou… massageando seu ego. E sabe o que é melhor? Conforme reconhecemos o talento do outro, as qualidades do outro, os pequenos favores, reforçamos há de bom no outro. Hegel sugere que essa pessoa se torna melhor. Em todos os sentidos. Torna-se mais gentil, amável e até mais ética.

Vale a pena praticar, né?

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2 comentários em “Carentes de reconhecimento

  1. Por vezes nos tornamos prisioneiros de nossa subjetividade, não enxergamos o outro, não estabelecemos relações. Deixamos de criar vínculos e de mostrar aquele que está ao nosso lado sua importância em nossa vida.

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