Cidades sustentáveis

As ruas do centro de Estrasburgo (França) funcionam como um calçadão; não há espaço para carros
As ruas centrais de Estrasburgo funcionam como calçadões. Não há lugar para os carros

Imagine o seguinte quadro… Você sai de casa de bicicleta. Percorre algumas quadras. Não precisa disputar espaço com carros, caminhões ou motocicletas. Chega num bicicletário, guarda a magrela. Logo ali tem um ponto de ônibus. O ônibus tem ar condicionado, é confortável e, o melhor de tudo, é rápido. Deixa você a três quadras do trabalho em dez minutos. Você desce, caminha por uma calçada ampla. Não há carros por ali. Apenas pedestres. Embora more a cerca de dez quilômetros do emprego, você usou três sistemas de transporte, mas não demorou mais que 30 minutos.

O quadro acima não é utopia. Já é uma realidade em várias cidades do mundo. Por exemplo, nesta semana (dia 28/3), em Bruxelas, três cidades europeias – Vitoria e Rivas-Vaciamadrid (Espanha), e Estrasburgo (França) – disputam o prêmio de melhor plano de intermobilidade. Elas possuem modelos que integram diferentes sistemas de transporte. E o foco é um só: sustentabilidade. (Veja o vídeo abaixo).

A palavra que está na moda, inclusive aqui no Brasil, por lá representa uma prática. As pessoas são desestimuladas a usar o carro. Não vale a pena. Os governos apertam o cerco contra quem quer circular de carro, mas oferecem contrapartida (não apenas eliminam estacionamentos e saem alardeando a necessidade de se usar ônibus sem oferecer nenhuma melhora no sistema).

Em Rivas (Espanha), a prefeitura acertou com o consórcio regional de transportes uma mudança significativa no sistema. Hoje, existem menos pontos de ônibus. As pessoas precisam andar mais, é verdade. Entretanto, com menos paradas, o transporte ganhou agilidade. Para garantir que os usuários não tivessem que andar tanto a pé, foi criado um sistema público de aluguel de bicicletas. Há vários pontos para locação. E a cidade apostou numa rede de vias para pedestres. O veículo é desestimulado. A lógica que norteia as ações do município é uma só: gastar com ruas e avenidas para circulação de carros é insustentável; beneficia poucos e custa caro. Ou seja, não vale a pena.

Em Vitória (Espanha), a administração municipal tem uma meta: garantir que o espaço público seja ocupado pelos pedestres, não por carros. O plano é ousado. Muito. Permitir que as vias públicas sejam ocupadas, no máximo, em 20% por carros (até 2050, esse índice é de 10%). Para isso, os estacionamentos ficaram muito mais caros. A velocidade máxima permitida é de 30km/h. Como contrapartida, o poder público já construiu 120 quilômetros de ciclovias (a proposta é chegar aos 150). O sistema de transporte coletivo também foi otimizado. Há menos linhas, mas ganhou em agilidade. Em cerca de 10 minutos é possível atravessar a cidade. Curiosamente, até a bicicleta sofre restrições. Certos pontos permitem apenas a circulação de pedestres.

No transporte coletivo de Estrasburgo, há lugar para bicicletas. É a integração plena

Sobre Estrasburgo, outra finalista do prêmio de mobilidade, nem é preciso falar. Há anos é uma referência mundial. Os espaços são muito bem definidos para pedestres (ruas e avenidas que servem apenas como passeio público), bicicletas, carros e tram (um veículo leve que funciona sobre trilhos – uma espécie de substituto do bonde). Para se ter uma ideia, o incentivo aos modelos alternativos é tanto que são quatro vagas de estacionamento para bicicleta para cada vaga de estacionamento para carro.

Num dos meus textos anteriores, ao falar sobre nossa mentalidade provinciana, ressaltei que antes do desenvolvimento econômico, a mudança começa pelo nosso jeito de ser e pensar. Nós, brasileiros, queremos carro, andar de carro. O carro é quase uma extensão nossa. Brigamos por mais investimentos nas vias públicas a fim de contemplar a fluidez e vagas de estacionamento para carros. Em Maringá, por exemplo, os comerciantes criaram uma celeuma em função de uma pobre ciclovia que seria construída no canteiro da principal avenida da cidade. A prefeitura fez um projeto porco, questionável… tudo às pressas (neste momento, tudo empacado).

Nas cidades-modelo em sistemas sustentáveis de transportes, planejamento é palavra de ordem (mas não demora décadas para sair). Nada é feito por acaso. E na medida que se restringe o carro, outros serviços são implantados, melhorados. Claro, quem promove mudanças, enfrenta resistências iniciais. Existem hábitos, costumes arraigados. Por isso, há necessidade de um amplo programa educativo. É preciso mudar a cultura. Pode parecer utópico, mas quando os objetivos são claros (e nobres), as ações transparentes, é possível construir uma nova realidade.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s