Jeitinho corrupto

Um país justo se constrói com gente honesta, moral, ética
Um país justo se constrói com gente honesta, moral, ética

É difícil admitir que nossos pequenos atos marginais projetam comportamentos corruptos. Entretanto, é isso que prova um estudo realizado pelo Josephson Institute of Ethics. Baseado em quase 7 mil entrevistas, o relatório aponta que o “simples” ato de colar na escola significa maior possibilidade do sujeito ser desonesto. Pior, países que têm a prática do “jeitinho” são países mais corruptos.

Acho que isso explica muita coisa, né? E também sugere que a condição moral, o comportamento ética se aprende desde cedo.

Recordo que uma das discussões mais polêmicas que faço em sala de aula é justamente sobre a corrupção cotidiana. Costumo dizer que não somos melhores nem piores que os políticos; a diferença está apenas no tamanho dos benefícios pessoais que se tenta obter.

A cola na escola, por exemplo, é um ato de corrupção quase institucionalizado. O discurso estabelecido é bem conhecido: “quem não cola, não sai da escola”. Entretanto, quem trapaceia numa prova está corrompendo o sistema, está buscando uma vantagem pessoal. É verdade que, num primeiro momento, pode parecer apenas uma ação sem prejuízos. No entanto, revela o caráter, revela uma pré-disposição em romper com a “lei” em benefício próprio.

O relatório do Josephson Institute deixa isso muito claro: independente da idade, as pessoas que colaram (ou colam) na escola estão duas ou mais vezes mais propensas a serem desonestas. E os números são contundentes. Vejamos a comparação entre quem colou e quem não colou em situações bem específicas:

Três vezes mais propensos a mentir para um cliente (20% contra 6%) ou inflar uma reivindicação de seguro (6% versus 2%) e mais de duas vezes mais propensos a inflar um reembolso de despesas (10% contra 4%). Duas vezes mais propensos a mentir ou enganar seu chefe (20% vs 10%) ou mentir sobre seu endereço para colocar uma criança em uma escola melhor (29% vs 15%) e uma vez e meia a mais de probabilidades de mentir para o cônjuge ou outra pessoa significativa (35% vs 22%) ou trapacear nos impostos (18% vs 13%).

Na verdade, a corrupção na política, na administração pública e até mesmo nas grandes corporações nasce justamente nas frágeis bases éticas e morais de cada um de nós. A gente não quer pagar impostos, pirateia livros, músicas, filmes… Passa ser natural pagar um vereador para propor uma lei, pedir favor a fim de furar fila e conseguir primeiro uma consulta médica, mentir sobre a condição do motor do carro na hora da venda etc etc. Num patamar diferente, torna-se natural receber “incentivo” para aprovar um projeto, para conseguir recursos para uma obra pública… Quando dá, a gente fura até fila de banco!!!

Embora o estudo tenha sido realizado há alguns anos, um aspecto que se sobrepõe é a necessidade da educação para a formação de um sujeito ético. Os primeiros comportamentos marginais ocorrem na infância. E como as crianças aprendem na relação com o outro, a disciplina e o exemplo são fundamentais. Quando o baixinho tenta levar vantagem, precisa ser corrigido. Contudo, quando ele nota que o pai dá um jeitinho de escapar da multa de trânsito, ou mente que não está em casa quando o telefone toca, tudo que ele diz para o filho deixa de ter valor. Por isso, é preciso combinar orientação e modelo ético.

Dias atrás eu li uma charge:
– Se não reformarem os políticos, não adianta nada.

O discurso está equivocado. A questão não começa lá, começa aqui… entre nós. Se a gente quer um país melhor, não adianta apontar o dedo pra Dilma, pro Congresso… A gente precisa reconhecer os próprios limites – inclusive morais. E mudar. Um país tem políticos honestos quando tem um povo honesto. Um país muda quando a gente muda.

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