Quando vale reclamar

A vida não é cor de rosa. Ela não facilita. Por vezes, dá vontade de desistir
A vida não é cor de rosa. Ela não facilita. Por vezes, dá vontade de desistir

Eu gosto de olhar títulos de livros. Como quase sempre são feitos para vender, podem ser reveladores. Há dias observo no expositor de um sebo da cidade um título que me intriga:

– Pare de reclamar e concentre-se nas coisas boas.

Sugestivo, né? E eu gosto da tese. Não sei bem para que serve, mas gosto do argumento. A proposta é clara: devemos parar de reclamar e focar nas coisas positivas da vida.

Eu gosto da tese porque, sinceramente, queria muito que fosse simples assim. É como se reclamar fosse uma opção. Eu reclamo hoje, escuto a sugestão e não reclamo mais. Seria perfeito se fosse uma mera escolha. 

Bom, eu não estou aqui discutindo o conteúdo do livro. Apenas refletindo sobre a tese apresentado no título. Que fique claro. Entretanto, o que se estabelece como discurso, a partir do título, é que a escolha por se concentrar nas coisas boas é do sujeito. Entretanto, não sei bem para que serve tal afirmação, pois quando a gente está com problema, nada parece realmente bom.

Escrevi anos atrás um texto que fala sobre aqueles momentos em que a vontade é de desistir. Até hoje é um dos mais lidos do blog. E é natural que seja, porque às vezes a situação é tão ruim que a gente não encontra nada de bom. Não tem como se concentrar em coisas boas se elas parecem não existir. Tudo bem… a gente está vivendo. E só o fato de viver já deveria ser motivo de gratidão. Acontece que, quando a dor aperta, viver parece ser um fardo.

E por mais chato que seja ouvir gente reclamando, o ato de reclamar se torna uma espécie de desabafo. A pessoa reclama quase como um pedido de socorro, como se estivesse dizendo:

– Ei, tem alguém aí que pode me ajudar?

Eu concordo que tem gente que só sabe reclamar. Reclama do café, reclama da comida, reclama da mulher, reclama do preço da gasolina, reclama do atendimento no banco, reclama do chefe, reclama do carro… Essas pessoas não crescem, não progridem. Contudo, existe uma diferença entre ser um “reclamão contumaz” e alguém que vez ou outra se lamenta dos problemas.

Quem repete a tese que a gente tem que ver só as coisas boas está, na verdade, tentando não envolver-se, não participar do problema alheio. E é mais fácil, né? É mais fácil dizer pro outro esquecer as dificuldades e se concentrar nas coisas boas que se dispor a ajudar, a ouvir lamentações… Por isso, por mais simpático que seja o discurso pra parar de reclamar e concentrar-se nas coisas boas, a vida não é cor de rosa. Ela não facilita. Tem momentos que a gente chora sim e não encontra motivos pra sorrir.

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2 comentários em “Quando vale reclamar

  1. Sabe Ronaldo que li seu texto na certeza de que o sinônimo do “reclamar” era “reivindicar”.

    Mas, o “reclamar” do seu texto, me parece, é aquele que normalmente é só desabo e talvez cansar o ouvido de quem tem e de quem não tem nada haver com a história. É o reclamar sem intenção. Do gênero que vai do mais simples ao mais complexo “aí, dói aqui, dói ali” ou “pobrezinha de mim”. Este tipo, eu abomino. Porque é inútil. E o título do livro, puxa vida! Tenho medo do conteúdo….

    Se temos que nos concentrar nas coisas boas da vida, então é só curtir, sem responsabilidades, sem reflexão, sem sentir, sem reclamar… e se todo mundo (como acho que já está) só curte, sem responsabilidades, sem reflexão, só finge ser feliz, tudo vira (ou já está) um caos… e esse comodismo que o livro propõem, pelo menos no título, atrofia a evolução do indivíduo e por consequência, da sociedade. É o mesmo que dizer: basta crer em deus e está salvo…

    E, pensando que o reclamar do livro talvez não seja mesmo o de “exigir”, mas, de lamentar: eu lamento dizer que pessoas reclamonas não tem solução ou receita… são um mistério…

    Me excedi em palavras aqui. Reclamei? Talvez foi um desabafo… me desculpe (rs rs)

    Concordo contigo: “A vida não é cor de rosa. Ela não facilita. Tem momentos que a gente chora sim e não encontra motivos pra sorrir.”

    Essa é a vida real, fora dos livros de auto ajuda e receitas de bolo…
    Adorei seu post Ronaldo.

    1. Sempre bem vinda, Michele. Seu comentário foi ótimo. E o “reclamão” realmente faz mal. Entretanto, quando a vida está difícil demais, às vezes é impossível não verbalizar. Rsrs.

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