Aprendendo com as críticas

Quando a gente reconhece os próprios limites, abre-se para o tesouro mais preciso: o conhecimento
Quando reconhecemos nossos limites, nos abrimos para o tesouro mais preciso: o conhecimento

Minha orientadora no mestrado talvez seja a pessoa mais exigente que conheço. Todas as vezes que conversamos, sinto-me um nada. O processo é dolorido. Geralmente brinco um pouco pra aliviar a tensão. Mas, ao final das nossas conversas, estou tão desgastado que mal tenho forças pra interagir.

E aqui não estou reclamando das atitudes dela. Muito pelo contrário. Jovem doutora, bastante experiente na vida acadêmica, parecerista de revistas científicas, mais que educadora, ela é um ser humano “do bem”. É dura, criteriosa e grande conhecedora. Tem formação sólida. É muito capaz. Mas nunca vi uma única atitude dela de arrogância ou prepotência. Sabe muito, mas é humilde. Por isso, apesar de me fazer sentir tão pequeno, saio de cada orientação com espírito agradecido. Sei que, embora seja sofrido, estou tendo a chance de aprender. E aprender é crescer. Sempre.

Dias atrás, após um desses encontros “arrasadores”, desabafava com uma pessoa sobre me sentir incapaz, ignorante; alguém que mal sabe escrever. A conversa acabou indo para outro terreno: o processo de aprendizagem. Fazíamos uma avaliação sobre o comportamento humano. E, lembrávamos da dinâmica das escolas, colégios e universidades. Quem quer de fato aprender tem que estar aberto às críticas. A gente só cresce quando alguém aponta os nossos erros. Não dá pra ser diferente. E, infelizmente, vivemos um momento de intolerância aos questionamentos.

Queremos ser paparicados, dengados. O professor crítico é o professor chato. Muitos alunos gostam de professor que dá nota alta, que faz festinha na escola, que transforma a aula num show. Esse é o professor legal. Pouca gente quer em sala o educador que aponta os erros, que cobra leituras, que elabora provas difíceis, que desconstrói a produção do aluno. Ao final de um seminário, o aluno quer o elogio. Espera que alguém diga que ele é o máximo. Quando entrega um trabalho, espera boa nota – afinal, fez “até demais”. Em certas ocasiões, tenho a impressão que acreditam mesmo que já sabem tudo e não precisam melhorar em nada. A escola é só uma formalidade para, em algum momento, receberem o diploma.

Sabe, não dá pra aprender sem querer aprender. E esse processo passa pela aceitação da crítica alheia. Se alguém não aponta nossos erros, não crescemos. Não é bom ouvir que o que você faz é ruim. Não é divertido ser avaliado. Não é agradável ter expostas, apontadas as suas fragilidades.

Quando minha orientadora relaciona as limitações do meu texto científico, tenho duas escolhas: ignorá-la ou refletir a respeito das minhas limitações e tentar melhorar. Se eu melhoro, não é minha orientadora quem sai ganhando, sou eu. É isso que deveríamos entender. Quando o professor, um amigo, um colega de trabalho, um chefe… Quando alguém aponta nossas falhas, podemos nos ofender e ficar com raiva da pessoa, classificá-la como imbecil, arrogante etc ou podemos ser agradecidos, avaliar as atitudes, reconhecer as fragilidades e aprendermos.