A metáfora da chave no bueiro

quedas
Caminhava apressado, distraído com meus pensamentos… Aproximei-me do carro, peguei a chave. Ela caiu. Escapou da minha mão. Tinha um bueiro logo ali, abaixo da porta. Não prestei atenção quando estacionei. Nem percebi quando estava de volta. Então só deu tempo de ver o chaveiro deslizando, deslizando… e ouvir o barulhinho de água quando bateu lá no fundo.

Era tarde da noite. Rua “morta”, sem gente. Algumas poucas casas, luzes apagadas. O que fazer? O bueiro era dos antigos, com aquelas tampas pesadas de concreto. Tentei várias vezes levantar. Nem mexia. Peguei o celular, liguei pra um lugar, pra outro… Nada. Apelei para polícia, para o Corpo de Bombeiros. Os minutos passavam. Precisava da chave. Precisava do carro.

Depois de minutos intermináveis, um carro da polícia passou pelo local. Pedi socorro. Em quatro homens, lutamos com a tampa. Não dava certo. Era pesada demais. Um dos policiais fez uma espécie de alavanca com pedaços de madeira. Finalmente, o bueiro estava aberto. E a chave? Estava no fundo, a quase dois metros. Tinha água, lama, sujeira… Porém dava para ver o chaveiro. Que dificuldade para resgatá-lo!! Nada parecia dar certo, nenhuma estratégia. Não dava para descer. Finalmente, após muito esforço, após sujar as roupas, conseguimos. Ufa!

A chave, no entanto, estava suja, arranhada. Não era mais a mesma. O sistema elétrico não funcionava. Deu trabalho limpar, secar. Apenas após uma noite inteira dentro de um potinho de arroz, voltou a funcionar (o tal do arroz funciona; indico!). Agora já posso apertar os botõezinhos para abrir e fechar as portas.

Sabe, agora pego a chave e fico pensando… Não penso no episódio pelo que aconteceu, mas como uma metáfora da própria vida. Pelo menos quatro lições podem ser aprendidas. A primeira: nossas quedas quase sempre acontecem quando estamos apressados, distraídos, desligados. Não identificamos o perigo. Não reconhecemos as atitudes que podem magoar alguém, não percebemos quais ações podem nos fazer perder uma promoção ou até o emprego. Como andamos “meio desligados”, não notamos os riscos que nos cercam.

A segunda lição: toda queda é dolorosa. Enquanto a gente cai, parece apenas estar “deslizando”. É até bonito de ver. Entretanto, quando “acordamos”, já estamos afogando, misturados em meio à lama. Tantas outras coisas ruins começam acontecer que parece não haver mais saída.

A terceira lição: quando caímos, carecemos de ajuda. Poucas vezes somos capazes de sair do “buraco” sem algum apoio. Não é simples encontrar. É difícil achar alguém disposto a estender a mão, a fazer uma “alavanca” para auxiliar a remover a “tampa” que nos mantém em meio aos problemas. Ainda assim, não dá para fazer sozinho; é preciso ter ajuda, contar com alguém realmente interessado em nos apoiar.

E a quarta e última lição é a mais importante: não existem quedas sem consequências. Quando caímos, saímos machucados. Minha chave ficou toda arranhada. Mas funciona. Precisou de um tempo para ser recuperada, é verdade. Quando caímos, também necessitamos de um tempo para curar as feridas. Ninguém que sofre uma decepção, que comete um erro grave fica bem de uma hora para outra. Porém, é possível voltar a viver. As marcas ficam ali para nos lembrar da queda, para servir de experiência. Ainda assim, dá para seguir em frente e ser feliz.

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“Joga pedra na Geni”

mobilidade
O cenário político não parece favorável à presidente Dilma. Há certo mau humor. Parte da população transfere toda responsabilidade ao governo federal pelos problemas do país. Os desastres com a Copa são um exemplo disso. Cá com meus botões, entendo que a imprensa e os analistas não parecem muito dispostos a explicar que parte do que se credita à petista deveria ser compartilhado com governos estaduais e municipais – e de diferentes partidos políticos.

Ainda falando da Copa, vale lembrar que temos 13 cidades-sede. Para realização do evento, várias obras foram anunciadas. Não apenas estádios. E a responsabilidade pela execução e gestão delas deveria ser compartilhada pela União, Estados e Municípios. Ou seja, uma obra em atraso pode significar que houve incompetência da presidente e sua equipe, mas também do governador do estado e do prefeito. E sabe o que eu penso? Penso que a Copa evidencia que a questão é muito mais complexa: a máquina pública brasileira não funciona. O Estado está falido. Não importa quem está no governo, qual é o partido. Importa que a máquina não funciona. Portanto, mais que questionar a Dilma, o Alckmin ou qualquer outro gestor, precisamos questionar: o que pode ser feito para mudar essa realidade?

Além disso, acho que é necessário distribuir as responsabilidades. Por não votar desde 1998, sinto-me livre para dizer: acho que estão culpando a Dilma até por coisa que ela não tem culpa. E a Folha de São Paulo me ajuda a sustentar o discurso.

Num editorial publicado nessa quarta-feira, 28, o jornal mostra que, em 2012, o governo federal disponibilizou R$ 12,4 bilhões a fundo perdido para governadores e prefeitos investirem em projetos de mobilidade urbana. Depois dos protestos de junho do ano passado, esperava-se que esse dinheiro sequer fosse suficiente para atender tanta demanda. Para isso, só precisavam apresentar bons projetos. Havia um prazo para isso. Outubro de 2013 era o limite. Não apareceram projetos e o prazo foi estendido, dezembro. E agora o prazo é junho/2014. E sabe o que é curioso? Até o momento, poucos gestores se interessaram pelo dinheiro. Apenas R$ 479 milhões foram sacados por Estados e Municípios.

Portanto, há necessidade de ir para além do simples ato de criticar um governo pelos problemas sentidos pela população. A responsabilidade deve ser compartilhada. Não há uma pessoa apenas e nem um só partido quando o tema é incompetência na administração do setor público.

Estresse no romance encurta a vida

casal

Uma das razões pelas quais escrevo sobre relacionamentos é porque entendo que a vida acontece na dinâmica da convivência com o outro. Embora entenda que é possível ser feliz sozinho, a gente quer mesmo ter alguém por perto pra tocar, sentir, amar. E quando essa dinâmica não funciona, a gente não funciona. Tudo parece se complicar quando o romance não vai bem.

Entretanto, uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Copenhague, Dinamarca, revelou que não apenas as emoções ficam abaladas quando o relacionamento tem problemas. Casais que brigam demais abrem mão de viver em paz, abrem mão de viver mais. Após observar 9.870 pessoas entre 30 e 60 anos, num período de 11 anos, os estudiosos descobriram que relacionamentos estressantes triplicam o risco de morte. Ou seja, um relacionamento ruim destrói as emoções e encurta a vida.

Pior, a morte quase sempre acontece porque o cenário ruim do relacionamento mexe com as emoções e, ao fazer isso, provoca doenças – como o câncer. Na verdade, o que acontece é justamente a reprodução de uma lógica que já ocorre noutras situações: quando as emoções vão mal, o corpo sofre, doenças surgem. Pode começar com irritação, dores de cabeça mais freqüentes tonturas, gastrite… E os quadros se desenvolvem para depressão, câncer, doenças hepáticas, doenças do coração. Um relacionamento ruim aumenta, inclusive, as chances da pessoa se suicidar.

Outras pesquisas já demonstraram que vive mais quem tem um casamento calmo, maduro, de parceria, de segurança… Curiosamente, até quando ficam doentes, os casados têm mais chance de descobrirem o problema precocemente, tratarem-se e se curarem. E nós homens somos os principais beneficiados – justo nós que temos menor expectativa de vida. Portanto, investir num relacionamento que administra os conflitos, que se desenvolve em harmonia, também é investir em qualidade de vida e numa velhice mais longa e muito melhor.

Na segunda, uma música

Eles foram pioneiros. Fazer rock no meio gospel na década de 1970 significava confrontar certas tradições. Bob Hartman e Greg Hough, porém, criaram a Banda Petra. Desde então, percorreram diferentes países, gravaram dezenas de álbuns e seguem na estrada. Podem até não ter o mesmo apelo de 20 ou 30 anos atrás. Entretanto, ainda agradam muita gente.

Para esta segunda-feira, escolhi uma música que não explora as guitarras e nem a batida forte da bateria. Ainda assim, é uma música especial. “Rose-colored stained glass windows” fala da “janela cor-de-rosa”, de onde muitas vezes olhamos o mundo sem enxergar as contradições, as desigualdades e dificuldades do próximo.

Outro domingo sonolento seguro dentro das paredes
Lá fora um mundo morrendo em desespero nos chama
Mas ninguém ouve os choros ou sabe o que está acontecendo
As portas estão trancadas por dentro, ou é por fora?

A canção mostra que, muitas vezes, nos protegemos do mundo, nos escondemos dele. Olhamos tudo à distância, sem nos envolvermos.

Olhando através dos vitrais cor de rosa
Nunca permitiremos que o mundo entre
Vendo mal algum e não sentindo nenhuma dor

Não participamos dos movimentos da vida. Temos medo. Achamos que o outro é frágil, precisa crescer sozinho. No fundo, não queremos nos envolver, não queremos estender a mão, não queremos o peso de ter de ajudar alguém.

Fora da porta estão as massas em decadência
Ignore-os por tempo suficiente, talvez eles vão embora
Quando você tem tanta coisa, você acha que tem muito a perder
Você acha que não tem falta quando você quem está realmente carente

E então… vamos ouvir?

Golpe do bilhete premiado

golpe

Quem cai no golpe do bilhete premiado? Eu me surpreendo sempre quando vejo o noticiário e descubro os perfis das vítimas. É impressionante! Tem gente simples, mas tem gente supostamente esclarecida. E o que leva a pessoa a ser seduzida? Primeiro, a habilidade dos criminosos; segundo, a ganância.

Soube do caso de uma professora. Ela perdeu R$ 100 mil. E os golpistas não levaram mais, porque não quiseram. A vítima sacou o dinheiro, que era de uma casa que havia vendido, e só não deu outros R$ 100 mil porque os bandidos não esperaram pela grana.

É curioso ouvir o relato dos funcionários do banco. Eles a questionaram sobre o motivo do saque. Ela respondeu que aplicaria na compra de um sítio. Como estranharam o comportamento da cliente, insistiram que negócios não podem ser feitos de última hora, que poderia estar sofrendo um golpe. A professora sustentou que era esperta e ninguém ia passá-la para trás. As lágrimas de desespero, enquanto registrava a ocorrência na delegacia, demonstram que nem sempre dá para ser auto-confiante.

Sabe, eu nunca acreditei em dinheiro fácil. Nem apostas eu faço. Conheço gente que vez ou outra embarca em “novidades”, aquelas parecidas com pirâmides, e até faturam seus trocados. Existem inclusive alguns produtos que são vendidos dessa forma: você ganha pelo simples fato de alguém, que foi seu cliente, estar vendendo o tal objeto. Porém, pra mim, não dá. Talvez eu seja conservador demais, ou seguro demais.

Acho, porém, que a ganância tem norteado as escolhas de muita gente. O golpe do bilhete só seduz porque a pessoa vê ali uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil. Pior, há uma motivação que vai para além da ganância. Enquanto o golpe se desenvolve, a vítima acredita que está se dando bem, que vai se dar bem cima do outro “tolo”. Ou seja, há um desejo desonesto. O estímulo, que faz funcionar o golpe, nasce da ganância combinada com certo “mau-caratismo”; não tem nada a ver com “vou ajudar o outro comprando o bilhete”.

Ou seja, se nossas motivações fossem virtuosas, éticas, o golpe nunca se efetivaria.

Viver em paz

harmonia

Tem comentários cotidianos cheios de verdade, mas que, por vezes, ignoramos. Um que gosto bastante é sobre nossa condição anatômica: temos dois ouvidos e apenas uma boca. Isso sugere que deveríamos ouvir mais e falar menos.

Com frequência, a gente faz justamente o contrário: fala mais e ouve menos. E mesmo quando silencia, não ouve. Tem uma passagem bíblica na carta de Tiago que é traz um conselho precioso.

– Lembrem disto, meus queridos irmãos: cada um esteja pronto para ouvir, mas demore para falar e ficar com raiva (Tiago 1:19).

Consegue perceber a dimensão da orientação? Primeiro, a gente deve ouvir mais que falar. Segundo, a gente deve ter disposição para ouvir. Terceiro, a gente deve refletir antes de falar. Por fim, a gente deve ter controle das emoções.

Quando eu era garoto, meu avô usava uma expressão que eu achava o máximo. Ele dizia “quem fala demais, dá bom dia a cavalo”. Bom, não sei bem o que significa dar bom dia a um cavalo, mas sei o que ele queria dizer. Seo Américo sustentava – e praticava – a tese que é mais prudente falar pouco. E, ao recordar dele, posso assegurar que a “regra” funciona. Meu avô era um homem que tinha autoridade e era respeitado. Justamente por falar pouco, geralmente não magoava as pessoas. O que ele verbaliza parecia ser estudado, resultado de uma reflexão. Por isso, quando abria a boca, a gente sabia que era algo importante; deveríamos ouvi-lo.

Na verdade, esse também é um dos problemas de falar demais: as palavras se tornam banais, vazias. Perdem força. Há pressa, ansiedade em falar, falar e falar.

Entretanto, mais que ter cuidado com o que se fala, é desafiador se manter disposto a ouvir. A gente tem fôlego pra falar, mas pouca paciência em ouvir. E estar pronto para ouvir é estar preparado para ser ofendido, inclusive. Ou para escutar coisas que desagradam, que não nos interessam. Num momento de intolerância e egoísmo, quem se prontifica a ouvir? E nem digo de ouvir num confronto; falo, por exemplo, do ato de ouvir alguém que precisa desabafar. Na verdade, as pessoas hoje parecem não se importar uma com as outras. No confronto, a situação tende a ser muito pior.

O que me parece ainda mais difícil é controlar as emoções. Como não ficar com raiva se aquilo que ouvi me ofende ou agride pessoas que amo? Como ter disposição para ouvir, demorar-se pra responder e pra ficar com raiva? Posso garantir que sou um sujeito bastante controlado. Contudo, estou distante demais de combinar essas “habilidades” do conselho do apóstolo Tiago. Parece quase uma utopia. Como viver dessa maneira? Sinceramente, não sei. Ainda assim, para além de uma crença religiosa ou de ser um ensino bíblico, sei que se trata do jeito certo de viver. Se praticássemos o que está nesse texto, viveríamos bem melhor, faríamos bem às pessoas com as quais nos relacionamos e certamente a convivência com os outros se tornaria mais prazerosa.

Qual é o nosso desejo?

brasil

Tempos atrás li uma frase que chamou minha atenção.

Um povo se define pela qualidade do seu desejo. E desejo só se qualifica com educação. (Eliane Brum)

Fiquei pensando nos sentidos que se constroem a partir do que disse a Eliane. Qual é o nosso desejo? Qual é a vontade do povo? Responder essas perguntas ajudaria a compreender o que queremos. E isso nos levaria a discutir a qualidade, os fundamentos do que queremos.

Por exemplo, as pessoas se manifestam, reclamam do governo, falam sobre escola, saúde, transporte, questionam os estádios construídos para a Copa… Mas, afinal, o que de fato querem? Sabem qual seu verdadeiro desejo?

Eu tenho dúvidas disso. Até vejo barulho, mas não ouço harmonia. A gente mal sabe em quem votou nas últimas eleições. A gente mal olha para as demandas do nosso bairro. Por exemplo, tenho um apartamento numa região da cidade que há cerca de dois anos sofreu uma mudança significativa pela instalação de um bar muito badalado. O movimento de pessoas, carros e motos é intenso. Incomoda. Inclusive de madrugada. O ruído é insuportável. Quem mora no prédio não tem paz. Entretanto, curiosamente, só tem interesse em questionar o desrespeito que se pratica no local quem é afetado diretamente pelo problema. Gente que mora a 500 metros, no lugar onde estava instalado o bar até então, está feliz da vida. Funciona a lógica “se não me incomoda, não é problema meu”.

E assim é com quase tudo. Olhamos para o próprio umbigo. Questionamos o governo, brigamos com a Dilma, mas não sabemos o que de fato queremos. Qual é nosso desejo para a educação? Uma educação de qualidade, diriam. Ok; então o que é uma educação de qualidade? O que você entende como educação de qualidade? Seria um prédio bonito? Desculpem-me, mas vamos ser sinceros: que educação de qualidade é essa se sequer respeitamos os professores? Basta o docente ser mais severo com um filho e lá vai o pai à escola ameaçando, pedindo a demissão do educador.

O que é mais contraditório é que, conforme resume a frase da jornalista Eliane Brum, o desejo só se qualifica pela educação. E, convenhamos, nossa educação é muito ruim. Não, não estou falando da educação que é dada na escola. Estou falando de formação, de cidadania. A gente joga lixo na rua, a gente não tem disposição para dar passagem ao pedestre, a gente para em fila dupla, a gente briga com o outro motorista que dá sinal de luz ou buzina para sairmos da frente, a gente fura fila no banco, a gente faz “gato” pra não pagar TV a cabo, a gente cola na prova, a gente pede favor a político, a gente liga o som alto e diz um “dane-se” pro sono do vizinho, a gente bebe e dirige, a gente corta a árvore quando atrapalha a fachada da loja, a gente não devolve o troco que é dado a mais pelo caixa do supermercado… E essa lista poderia se estender. E muito.

Nossa postura é tão duvidosa que, num evento como o da Copa, perdemos o foco, protestamos e achamos que as manifestações com “quebra-quebra” nas ruas são o verdadeiro exercício de cidadania. Não estou defendendo a passividade, nem o fim dos protestos; questiono a falta de “time”, questiono a falta de percepção do que é nosso desejo, da qualidade de nosso querer; questiono a ausência de auto-crítica, a ignorância… Será que sabemos o que realmente queremos? Qual o país que desejamos? Eu não acredito que são sábios os desejos de pessoas que desprezam os livros, que classificam as aulas como chatas (mas não se envolvem com a escola), que julgam antes de conhecer, que ouvem, dançam e cantam as músicas que tocam nas rádios (reproduzindo discursos machistas e de mulheres-objeto), que assistem e tornam seu assunto predileto os programas populares da tevê e os atores que estão na capa das revistas. Ou que reproduzem comportamentos como os que citei há pouco.

Não vejo nossa sociedade como madura. Nem disposta a amadurecer. Vejo nossos desejos verbalizados em críticas e manifestações mais como atos adolescentes, inconsequentes, fruto de um povo que ainda não sabe quem é e o que realmente quer ser.

O que sente o filho adotivo?

adocao

Não sei como me sentiria se fosse adotado. A gente que sabe quem é o pai, quem é a mãe nunca para pra pensar nessas coisas. Hoje, porém, estava lendo dicas de como dizer ao “filho” que foi adotado. A tese básica é sempre a mesma: seja o mais natural possível. O texto me incomodou. Afinal, e o outro? E para a criança, é natural?

Fiquei pensando o que passaria na cabecinha dela. E quando o filho é adolescente ou adulto e descobre ser adotivo, o que sente? Não tenho resposta. Talvez alguém apareça por aqui e comende no texto, diga algo relevador. Sei apenas que já temos tantas inseguranças, complexos, culpas, medos, traumas… Por isso, penso: como se sente alguém que não tem sua origem definida?

Conheço algumas poucas pessoas que foram adotadas. Até parecem bem resolvidas. Entretanto, nunca perguntei “E aí, como é ser adotado? O que você sente?”. O assunto acaba sendo meio tabu. A gente finge que está tudo normal… O que temos com isso, né?

De fora, até questionamos quando algum filho adotivo demonstra revolta ou quer conhecer os pais biológicos. Apontamos que estariam sendo ingratos. É verdade que foram “salvas” por pessoas amorosas, dedicadas, altruístas… Mas já imaginou como essa pessoa se sente?

Cá com meus botões, acho que algumas se sentem um tanto rejeitadas, abandonadas, enganadas. Não ter uma origem definida deve “tirar o chão” dessas pessoas. Claro, não de todas. Porém, penso que não se trata de não se sentirem amadas pelos pais adotivos. Trata-se de saber quem de fato são, de onde vieram, qual poderia ter sido a história delas… Podemos até viver o momento, curtir os prazeres da vida, mas a existência reclama um sentido e a origem conhecida ajuda a formar nossa identidade, a apontar quem de fato somos. Mesmo quando há uma briga com a família, uma ruptura com os pais, é bom saber quem odiar.

Sabe, talvez este texto seja só uma “viagem” pessoal; um daqueles momentos que a gente divaga e vai do nada pra lugar nenhum. Ainda assim, entendo que pensar nessas coisas ajuda a entender o outro. Nem sempre é possível. Eu não sei como se sente um filho adotivo. Não conheço o coração. Como também não sei o que sente uma mãe que compra drogas para o filho… Não entendo o que passa na mente de uma mulher que introduz um celular na vagina para levar ao parceiro que está preso… Cada um, porém, tem suas angústias, motivações, verdades ou dúvidas. E, nessa complexidade do que é o homem, nos constituímos como sujeitos que guardam histórias de risos ou lágrimas, vitórias e derrotas.