Mortas em nome da honra

violencia

Jovem, apenas 32 anos… Tamar Zeidan morreu. Não foi acidente, não foi doença. Ela foi assassinada pelo próprio pai. Foi estrangulada durante o cochilo, após o almoço. O pai a amava; não queria matá-la. Porém, se não tirasse a vida de Tamar, sua família continuaria sendo alvo de pressão. Ele precisava limpar a honra, o nome da família, por causa dos “atos vergonhosos” da filha. Quando soube da notícia, uma tia fez festa para comemorar a morte da sobrinha.

Tamar era palestina. Casou-se à força aos 15 anos. Há quatro, estava divorciada. Já havia renunciado a guarda de três filhos. Estava na casa dos pais. Na verdade, praticamente escondia-se ali.  Então um homem se interessou por ela e a queria como segunda esposa. A descoberta dos vizinhos motivou revolta. Tamar teve que esconder-se na casa da irmã. Mas os boatos não pararam. Num documento assinado por 51 parentes, foi exigido que o pai tomasse providências. Era preciso restabelecer a moral da família.

A jovem morta em dezembro passado é apenas uma das cerca de 20 mil mulheres assassinadas a cada ano em nome da honra. São vítimas da própria família. Geralmente são estranguladas, envenenadas, decapitadas, apunhaladas, queimadas ou até enterradas vivas. Quais os crimes delas? Contrariar os costumes da sociedade. São jovens que querem estudar, querem ter um emprego, querem ser donas do próprio corpo, querem escolher seus parceiros e/ou maridos.

Pouco pode ser feito por essas mulheres. As autoridades fingem que não enxergam o problema. As leis são frágeis. Não há quem pressione. Quem tenta mudar essa realidade, corre o risco de morrer. Por isso, muitas mulheres preferem fugir, esconder-se. As mortes são silenciadas. E filhas de mulheres que traíram seus maridos geralmente também são tratadas como vadias e, na maioria dos casos, sequer conhecem quem foram suas mães.

Quando alguém é condenado, fica pouco tempo preso. Por isso, é normal que as famílias usem os filhos menores para cometerem o crime. Assim, ninguém vai preso.

É comum quem está distante dessa realidade, vivendo no Ocidente, culpar a religião por esses crimes. Porém, a religião tem pouca responsabilidade nisso. Tratam-se dos costumes, das tradições desses povos. Ou seja, da cultura deles.

Embora, pareça-nos assustador o que fazem com as mulheres de alguns países orientais, não é muito difícil encontrar exemplos por aqui. No Brasil, são inúmeros os casos de violência e até mortes de mulheres, geralmente vítimas de seus próprios maridos. No entanto, também há pais que se sentem donos, proprietários das filhas. Quando confrontam os “valores” familiares, são renegadas, expulsas de casa. Outras, apanham, sofrem castigos e, em algumas situações – quando há homem envolvido -, não são raras as ameaças de morte.

E o que dizer daqueles que escondem a sexualidade por anos e anos? Não são poucos os pais que viram as costas para os filhos quando assumem a homossexualidade (outros até os espancam). Sentem vergonha deles. Rejeitá-los parece ser a única forma da não manchar o nome da família.

Portanto, ainda que nos orgulhemos de nossa cultura ocidental, não estamos plenamente livres de preconceitos, discriminações, machismo… Nem rompemos de vez com o sentimento de posse do outro. Também por aqui se mata (o corpo ou alma) para “lavar a honra”. Mata-se por si, mata-se pelos vizinhos ou pela família – para não sofrer a vergonha de ser traído. Sim, estamos no século XXI, mas muito de nossa cultura ainda é medieval.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s