Por que o Brasil não anda?

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A gente reclama muito dos governos. E é justo reclamar. Embora não seja correto generalizar, dá pra dizer que parte considerável de nossos políticos tem pouco compromisso com o bem-estar da população, com o desenvolvimento do país. Muitos são incompetentes. E outros são representantes de si mesmos (estão no poder para defender seus próprios interesses e de determinados grupos econômicos).

Entretanto, além de encontrar motivos externos para o país não funcionar, deveríamos assumir nossa responsabilidade. Não são apenas as obras da Copa que atrasaram, foram mal feitas ou deixaram de ser executadas. Independente do partido político, tem centenas de obras superfaturadas, atrasadas ou paralisadas pelo país afora. Porém, o que acontece na esfera pública, ocorre também em nossa casa, em nosso trabalho. Quem nunca “esqueceu” uma tomada estragada em casa por semanas sem se mexer para arrumar? Quem nunca atrasou um relatório ou quis dar um jeitinho de entregar depois um trabalho de escola?

Não, não estou justificando o injustificável da prática política, da gestão pública no Brasil. O que quero mostrar é a outra face. Na verdade, não privilegiamos a eficácia, a excelência dos serviços. Veja o que acontece no comércio. Quem nunca entrou numa loja e sentiu vontade de virar as costas por ser mal atendido? E o serviço de atenção aos clientes prestado pelas operadoras de telefonia? Por quantos minutos ficamos esperando no telefone? Quem nunca precisou voltar à oficina mecânica porque o profissional foi negligente? Quem nunca teve que brigar com o pedreiro porque ele foi relapso na execução do que havia sido combinado?

Sou professor. Vejo alunos sentirem prazer em ter aula vaga ou quando um colega falta. Comemoram recessos e muitos passam o ano sem ler um único texto proposto para as aulas. Há negligência e pouco interesse pela excelência. Reclama-se do sistema, mas não há luta para, como indivíduo, ser melhor.

O economista Paulo Roberto Feldmann, professor da USP, lançou um livro nos Estados Unidos. Nele, o ex-diretor de empresas como a Microsoft e o Banco Safra, tenta ensinar americanos a trabalhar com latino-americanos. Numa entrevista à revista Época, Feldmann foi taxativo: “algumas características culturais do brasileiro atrapalham seu desempenho no trabalho”.

O professor mostra que isso atrapalha e muito o desenvolvimento do país.

Não damos importância à pontualidade. Em outros países, isso é inadmissível. O fato de não darmos importância a detalhes de comportamento influencia a má administração. No Brasil, se alguém atrasa a entrega de um projeto, dificilmente será advertido ou punido. Em outros países, a questão da pontualidade e do cumprimento de prazos é levada muito a sério, e isso tem uma influência na produtividade.

Na opinião de Feldmann, o brasileiro não gosta de seguir regras, não se preocupa com a excelência.

Na média, o brasileiro é um pouco indolente, não se preocupa em seguir regras e não se empenha em ser preciso. De forma geral, o brasileiro não tem um ritmo de trabalho tão alto como os americanos e os europeus.

Ele aponta que uma pesquisa revelou que a nossa produtividade é muito baixa quando comparada com povos de nações desenvolvidas.

Há dados sobre a produtividade da mão de obra em vários países. Nos EUA, a produtividade é 100. No Brasil, é de 18% da americana. Isso quer dizer que a produtividade do brasileiro é menor que a quinta parte do americano. Na Alemanha, é 70%.

Ou seja, embora seja um tanto clichê, é correto dizer que “enquanto a gente não mudar, o Brasil não vai mudar”. A gente despreza os livros, despreza a importância da pontualidade, da entrega nos prazos… A gente acha que o “meia-boca” é aceitável. Não, não é. Fazer bem um serviço, atender bem um cliente, valorizar e investir no conhecimento, não desperdiçar o tempo, contratar o competente e não o “amigo”… é o que se espera de um profissional, é o que deseja de um trabalhador, de um estudante… E são práticas que podem impactar positivamente nossa relação com o mundo do trabalho e do conhecimento. E, em especial, que podem nos ajudar a romper com a cultura acomodada e “indolente” sugerida pelo professor Feldmann.

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