Pode me dizer “bom dia”?

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Enquanto caminhava até o trabalho, três senhores que nunca havia visto me cumprimentaram. Um boa tarde rápido… Um deles esboçou um sorriso. Fiquei tocado. E achei a situação curiosa. Afinal, embora percorra o mesmo trajeto todos os dias, raramente alguém desconhecido se dirige a mim. Na verdade, parece que cumprimentar uma pessoa na rua é uma atitude invasiva. É como se estivéssemos rompendo sua privacidade.

Quando eu era ainda criança, vez ou outra saia com meu pai. A cidade era relativamente pequena. Cerca de 70 mil habitantes. Estávamos nos anos 1980. Andava-se muito a pé, de bicicleta e até em carroças puxadas por cavalos. Pelas ruas, meu pai sempre cumprimentava as pessoas. Não apenas ele. Mas ali no bairro as pessoas falavam umas com as outras. Nem sempre se conheciam. Ainda assim, eu ouvia com frequência trocarem um “bom dia”, “como vai?”, “tudo bem?”.

Porém, já naquela época, meu pai e também meus avós comentavam que os mais jovens eram “mal educados”; não cumprimentavam as pessoas. Os anos passaram, meus avós se foram e não saio mais pela cidade com meu pai. Também não cumprimento as pessoas. E nem ouço alguém me dizer “bom dia”. Talvez por isso cause certo estranhamento encontrar gente que fale conosco, mesmo sem nos conhecer.

Não sei se perdemos a gentileza. Ou a educação, como diriam meus avós. Sei, porém, que nos tornamos bastante individualistas. Estamos presos em nossos casulos, fechados em nós mesmos. Ficamos conectados apenas com nossos pensamentos. E quando falamos, falamos ao celular. É impressionante como as pessoas saem falando, falando sem parar. Mas raramente com alguém que esteja do lado.

Poderíamos dizer que é tudo uma questão de hábito. Entretanto, penso que a questão é mais complexa. Ao longo dos anos, perdemos a relação com o outro. Pessoas são números, estatísticas. Nos identificamos apenas com aqueles que fazem parte de nosso círculo de amizade. E, por vezes, mesmo quando vemos um conhecido na rua, desviamos o olhar para não ter o trabalho de dizer “bom dia”, talvez com receio de que o outro puxe conversa e percamos tempo.

É lamentável. Mas nos tornamos solitários demais. Não vemos quem está do nosso lado. Parece que não nos sentimos como sendo da mesma espécie. Por isso, por mais simbólico que seja, cumprimentar é uma forma de reconhecer o outro, de identificá-lo como humano, gente como a gente.

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4 comentários em “Pode me dizer “bom dia”?

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