Vidas marcadas

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Burro, louco, fracassado, vagabunda, safada, rebelde… Essas e outras tantas palavras classificam pessoas. Por vezes, são usadas até mesmo por pais ao se dirigirem aos filhos. São pessoas que desconhecem a influência da fala na construção da imagem. Sim, porque nós somos aquilo que acreditamos ser. E essas crenças, muitas delas, são construídas na relação com o outro.

Chega a ser criminoso quando os pais dizem para o filho que ele é burro. E pode ser pior… Conheço mães que chamam as filhas de vagabundas, sem-vergonha.

O que me assusta é saber que muitos desses comportamentos estão sendo discutidos há anos por educadores e psicólogos. A própria mídia abre espaço para orientar. Ainda assim, não sei se por raiva, palavras carregadas de sentidos negativos são usadas por muitos de nós para nos dirigirmos a filhos, amigos, alunos, funcionários... Palavras que afetam as emoções e subjetivam quem as ouve a ponto de assumirem tais discursos como sendo a verdade sobre elas.

O filósofo francês Michel Foucault pesquisou a história de pessoas que foram marginalizadas pela sociedade nos séculos XVII e XVIII. Os estudos dele nos ajudam a entender o mal que fazemos ao usar rótulos para falarmos sobre os outros. Foucault identificou pessoas que tiveram suas vidas aniquiladas por serem tratadas como fracassadas, loucas, mentirosas… por sofrerem rejeição.

Atualmente, os consultórios de psicólogos vivem lotados de vítimas de palavras duras… Essas pessoas foram subjetivadas por esses discursos. Foram marcadas e sofrem. Sofrem para romper com as mentiras que foram ditas sobre elas.

Quantas pessoas se acham limitadas, pensam ser incapazes? Quantas estão infelizes porque foram tratadas como incompetentes? Quantas cresceram como sendo culpadas por tudo de errado que acontecia em casa? Quantas meninas foram tratadas como vagabundas por seus pais por terem errado na escolha de um namorado?

O olhar raivoso, punitivo, desprovido de sabedoria, machucou, magoou, marcou. As palavras que ouviram – nos jogos de poder entre pais e filhos, entre chefes e funcionários, entre professores e alunos – construíram “verdades”. São mentiras, mas que são impostas como “verdades” a respeito das vítimas. Por gozarem de uma posição de autoridade – ser pai, ser professor, ser chefe etc -, dizem o que querem dizer e não percebem os traumas emocionais que causam.

O que é pior é que muitas dessas pessoas não se tornam (ou não se tornaram) mais do que aquilo que falam (ou falaram) delas. Embora exista um abismo entre o que poderiam ser e o que de fato são, assumem (ou assumiram) o papel que lhes foi dado por gente que parece incapaz de pensar antes de falar, de classificar o outro.

Sabe o que mais me assusta? Às vezes reproduzimos essas “verdades” a respeito de alguém próximo. O jovem que usou drogas será sempre o “ex-drogado”; a menina que teve um filho na adolescência será sempre a “mãe solteira”; o garoto que foi preso por um furto será sempre o “delinquente”… São pessoas marcadas. Uma vida marcada pela crueldade (ou ignorância) humana.

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