Por que não posso ser mecânico?

mecanico

Medicina é o curso mais concorrido do país. Cá com meus botões, tenho dúvidas se muitos desses jovens têm aptidão para a profissão ou se desejam ser médicos pelo status e salário.

Na verdade, essa história de profissão é bastante complexa. Medicina, digamos, é o topo. Porém, a lógica funciona para outras tantas atividades.

Recentemente, conversava com um garoto de 19, 20 anos. Ele trabalha num shopping. Tem uma rotina puxada. Não tem sábado ou domingo. As folgas são escalonadas. E até os estudos são prejudicados. Salário? Menos de mil reais.

Curiosamente, na mesma semana, falei com o dono de uma pequena indústria. Ele estava tentando contratar algumas pessoas. Já havia entrado em contato com o Senai. Afinal, quem vai pra esse tipo de atividade geralmente faz cursos ali. Porém, alguns cursos sequer fecharam turma. Não havia candidatos. E nem esse industrial conseguia gente para trabalhar. Detalhe, ele pagava, inicialmente, entre 1,5 mil e 2 mil reais.

Perguntei:

– Mas os jovens não se interessam por esse ramo?

Resposta:

– A moçada prefere o ar condicionado a sujar a mão de graxa.

Pois é. Por status, roupinha limpa e ar condicionado, parece-me que muitos jovens não têm interesse por determinadas profissões. Trabalhar na indústria, construção civil – ou mesmo como garçom, mecânico, cozinheiro etc – não os motiva. Na cabeça dos rapazes, pensam que também não ajuda a seduzir as meninas.

A facilidade de acesso a uma faculdade também trouxe certas ilusões. Fazem farmácia, informática e outros cursos, para terem uma profissão supostamente mais respeitada socialmente, ainda que ganhem menos que atividades tidas como mais “rudes”.

É curioso porque isso tudo não passa de uma imagem construída socialmente. Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, existe maior respeito as profissões que, no Brasil, consideramos inferiores. E o problema por aqui nem é tanto o salário. Afinal, um bom eletricista ou encanador, atualmente, ganha mais que um jornalista, por exemplo. Isso sugere que o olhar para certas profissões é preconceituoso. E de pura ignorância. Sim, porque trabalho é trabalho. E o que se espera dele é que ofereça condições dignas de sobrevivência e prazer em sua realização. Ou seja, se sou garçom, ganho o que considero suficiente pra viver e tenho satisfação no que faço, qual o problema de não ter escolhido ser engenheiro?

Sabe qual o maior problema disso tudo? Até na profissão, somos reféns das expectativas alheias. Pior, assumimos tais expectativas como verdades.

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