Em defesa de Bonner

entrevista boner
William Bonner está sendo vítima de agressões e xingamentos por fazer bom jornalismo. Sim, o âncora do principal telejornal do Brasil tem sido questionado por aliados e eleitores dos candidatos à presidência da República por cumprir uma das funções mais básicas do jornalismo: questionar.

O Jornal Nacional abriu a rodada de entrevistas com os candidatos ouvindo Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). E os apresentadores foram contundentes. Fizeram perguntas que colocaram os presidenciáveis em situações, no mínimo, desconfortáveis. No entanto, nenhuma delas estava desprovida de embasamento. Ficou nítido que Bonner e Patrícia Poeta estavam preparados para questionar os candidatos. Mas isso incomodou muita gente. O âncora, principalmente, foi alvo de agressões e xingamentos.

O assunto, que ganhou repercussão inclusive na internet, também apareceu em minhas aulas. Alunos trouxeram depoimentos de familiares e amigos que disseram que os apresentadores do JN estão vendidos ao PT. Algumas pessoas acharam deselegante o tom firme de Bonner e Poeta. Entendem que deveriam ser mais gentis, “generosos” com os candidatos.

Sinceramente, fico assustado com tanta bobagem. Na minha opinião, mostra o tamanho da imaturidade política do país. E o completo desprezo ao bom jornalismo.

Na verdade, historicamente, o Brasil sempre teve um jornalismo pequeno, pobre, acanhado, publicista, vítima de alinhamentos com o poder e/ou com grupos econômicos. O jornalismo no país pouco contribui para o debate democrático. Apresenta-se como imparcial, isento, responsável, porém, geralmente se dobra diante de interesses nem sempre republicanos. Quando o assunto é política, sabe-se que por vezes falta aos jornalistas liberdade para atuar como gostariam. Há uma “regra silenciosa” – que não se ouve, mas sabe-se que existe – de que o melhor é estar “de bem” com todo mundo.

Talvez por isso cause estranhamento que Bonner, no comando do JN, assuma uma postura crítica, firme diante de candidatos à presidência. Talvez também seja nosso desconhecimento da verdadeira prática jornalística. Talvez não estejamos acostumados a questionar o poder.

Não vou discutir aqui a entrevista de Eduardo Campos, vítima de acidente aéreo na quarta-feira, 13. Porém, a participação de Aécio Neves, na terça-feira, 12, é reveladora. Não mostra um Bonner e uma Patrícia dispostos a destruírem a candidatura do tucano. Aponta sim para o exercício justo do jornalismo, que ao longo dos anos ganhou status de mediador entre os fatos e a sociedade. Por isso, Aécio tem sim que explicar as contradições de seu discurso. Como terá que fazer Dilma Rousseff e os demais candidatos.

No horário eleitoral, nos palanques… os candidatos dizem o que querem. O discurso é efeito. E nele a realidade é a que se pode construir no imaginário popular. Aos jornalistas, cabe observar as contradições, problematizá-las e, sempre que possível, colocá-las em evidência. O público precisa conhecer o que está para além da aparência dos presidenciáveis. O marketing político, é claro, fará o possível para apresentar apenas o que é bonito de ver. Entretanto, a escolha do eleitor não deve ser baseada numa imagem.

E, sejamos sinceros, mesmo com toda contundência de Bonner e Poeta, ainda não temos todas as explicações. No caso de Aécio, ele assegura que fará um governo de “previsibilidade” e transparência. Porém, se é de previsibilidade, não deveríamos saber que cortes serão feitos, quais ministérios serão fechados? Apesar da insistência dos jornalistas globais, essa questão ficou aberta, sem resposta. E o sítio da família de Aécio valorizou ou não com o aeroporto? Tudo bem que a propriedade é da família há mais de 100 anos e não há interesse em vendê-la, mas custava responder a pergunta de Bonner? E se a saúde foi modelo em Minas, porém com dinheiro do governo federal, não poderia admitir isso e dizer que a diferença dele foi a eficiência?

Além do mais, ética e eficiência não seriam pressupostos básicos de todo governante? Como isso pode ser prioridade? Falta ao candidato planos para educação, saúde, segurança?

Enfim, o que quero mostrar é simples: William Bonner, ao lado de Poeta, estão apenas fazendo jornalismo. Talvez nossos políticos, e até nossa sociedade, não saibam muito bem o que é isso. Cá com meus botões, porém, fico contente por ver que, aos poucos, a mesma Globo, tão criticada por ser conivente e até partidária em muitos momentos da história, apresenta amadurecimento na prática jornalística e assegura certa liberdade aos seus jornalistas.

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7 comentários em “Em defesa de Bonner

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