Preferimos não ser sinceros

amizade

Você já notou como a gente tenta ser conveniente diante de situações que nem sempre nos agradam? Ou como muitas vezes até fingimos saber de algo que desconhecemos? Ou ainda demonstramos interesse por assuntos que não nos empolgam?

É um negócio meio maluco, é verdade. Mas a gente é assim.

Dias atrás, uma amiga me contava que passou vergonha ao conversar com dois conhecidos alemães. Eles perguntaram se ela já tinha assistido um determinado filme. Pra se mostrar interessada, respondeu que sim. Depois de uns dois minutos de conversa, os rapazes perceberam que tinha algo errado e começaram a fazer perguntas sobre o filme. Claro, ela não sabia nada e teve que confessar que desconhecia a obra.

O que essa minha amiga fez, eu já fiz. Também já disse conhecer livros que nunca li… E provavelmente você, caríssimo leitor, deve ter feito o mesmo.

Essa cultura de conveniência, porém, não fica restrita a essas situações. Tem muito mais. Quem já não aprovou o cabelo de uma amiga, mesmo achando que o corte ficou ridículo? Semana passada, lembro que minha filha perguntou sobre um penteado. O negócio tinha ficado esquisito… Para não chateá-la, eu disse:

– Está tudo bem, filha.

Ela olhou pra mim e preferiu a opinião do irmão. Ele olhou, riu e respondeu:

– Não vou nem comentar…

A Duda entendeu o recado. Estava feio. Bem feio. E mudou o penteado.

Quem é professor, como eu, já deve ter visto apresentações de alunos que são pavorosas. No entanto, a gente aprendeu que precisa incentivar, estimular. Então, a molecada faz um troço assustador, revela completa ignorância e a gente ainda diz:

– Gente, valeu pela iniciativa. Foi legal o esforço de todos vocês.

O aluno, que é um pouco mais atento, sabe que o professor optou por não magoar. Outros sentem que, de alguma forma, está tudo certo… E não há mesmo o que fazer. Ficam com a impressão que trabalhos escolares são mesmo uma grande porcaria, uma perda de tempo. Enfim, eles seguem fingindo que fazem e nós, educadores, fingimos que ensinamos.

Sabe, esse é um traço de nossa cultura. A gente tem isso. Eu costumo dizer que faz parte das nossas máscaras para convivência social. Afinal, se expressamos a verdade, criamos desconforto. Tornamo-nos os chatos, críticos, arrogantes, prepotentes… Os “sabe-tudo”. No colégio ou na faculdade, ninguém gosta do professor que aponta o erro, que mostra a incompetência, o relaxo, a displicência.

O brasileiro prefere uma mentira que conforte a uma verdade que revele sua incompetência.

E nessa tentativa de agradar, de manter as relações, a gente preserva um hábito que paralisa. Sim, porque quando os problemas não são apontados, eles se perpetuam.

Por exemplo, se meu filho não ironizasse o cabelo da irmã dele, ela teria saído com um penteado ridículo… Vale o mesmo pra escola, pro trabalho, para as diferentes dinâmicas dos relacionamentos.

O professor que não aponta o erro, perde a chance de ensinar; o marido que não fala que a comida da esposa está salgada, não ajuda que ela note o mau hábito…. Se a gente não corrige o pedreiro que colocou uma lajota fora do prumo, a gente aceita que a parede fique torta depois de pronta. Ou seja, ao tolerar as falhas, nós as aceitamos como condições naturais, como parte do que é normal. E isso nos impede de crescer. Ninguém muda se não notar seus erros. E o humano, por si mesmo, nem sempre dá conta de saber o que precisa mudar.

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6 comentários em “Preferimos não ser sinceros

  1. Por vezes, já tomei atitudes desta forma, exatamente como descreve no texto acima, mas com certeza é bem melhor que sejamos sinceros e porém cautelosos em nossas colocações para que o outro possa interpretar como uma atitude positiva. Ronaldo, mais uma vez parabéns pelos excelentes temas que sempre aborda em seu blog.

  2. È verdade Ronaldo,esse tema é vivenciado no dia a dia,talvez seja por
    isso que não acreditamos ou fingimos que acreditamos na opinião alheia.Obrigado pelos seus temas que nos servem de alerta.

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