“Foi isso que a vida me deu”

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Ninguém passa pela vida sem experimentar algumas perdas. Alguns mais, outros menos… Mas todos vivem momentos de dor.

Entretanto, tem gente que passa pelas tragédias aceitando-as como parte da vida. E isso faz toda diferença. Faz os dias ficarem mais leves e a pessoa vive menos amargurada, revoltada, ansiosa.

Dias atrás, reconheci nas falas de Manoel Carlos a beleza de aceitar a vida como ela é. Ele perdeu o terceiro filho. Mas ainda assim conseguiu dizer:

– Perdi três filhos. Foi isso que a vida me deu.

Após participar da cerimônia de cremação, o autor estava bastante abalado. Mas demonstrou toda sensatez de alguém que aprendeu a passar pelas tragédias, aceitando-as como parte da existência. Ao falar sobre o que seria feito com as cinzas do filho, Manoel Carlos chegou a demonstrar bom humor. Comentou que a esposa talvez usasse um pouco para levar num colar, mas brincou que ele já tinha passado da idade de andar com esse tipo de adereço. E completou que levaria o filho no coração: “o resto está tudo bem. Vamos tocar a vida”.

Eu não sei a dimensão da dor de Manuel Carlos. Perder um filho deve doido demais. Perder três, ainda mais. Entretanto, vejo nas falas do autor algo que aprecio demais: não tornar a tragédia um modo de vida. Tem gente que parece gostar de sofrer. Fica remoendo, falando, repetindo… A pessoa se apega ao que perdeu. Não liberta o coração.

Sabe, tem perdas que vão ficar pra sempre marcadas. Quem perde um filho, mesmo que tenha outros dez, nunca vai esquecer quem se foi. Quem perde o marido, vê parte de sua história ir embora junto. Entretanto, se a pessoa passa a vida chorando por alguém que se foi, deixa de ver o brilho do sol, a lua prateada, o azul do mar, o sorriso das crianças… Ouvir o cantar dos pássaros, o som harmonioso das mais belas canções.

A vida é bem mais que nossas perdas. Não dá pra estacionar na tragédia, ficar bebendo o cálice amargo dos fracassos. A gente chora sim… Mas precisamos aprender enxugar as lágrimas, olhar pro azul do céu e seguir em frente. Afinal, cada dia que temos – com suas vitórias ou derrotas – é um dia a mais que a vida nos deu.