Violência conjugal

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Um novo relatório da Organização Mundial de Saúde informou que, no mundo, uma em cada três mulheres sofre violência conjugal. Sim, uma em cada três é vítima do próprio parceiro, do sujeito que deveria estar ali não apenas pra prover, mas principalmente para amar e proteger.

E mais, o documento mostrou que entre 100 milhões e 140 milhões sofreram mutilação sexual e cerca de 7% sofrem violência sexual ao longo da vida.

Esses números me assustam. Sei que existem diferentes motivos pra isso. Vão desde a cultura até posições religiosas de caráter questionável. Entretanto, o que mais me entristece é que isso tudo acontece e pouca coisa se faz. Estou cansado de ver denúncias, mas o que tem mudado?

Muitos desses crimes também acontecem perto da gente. Quem não conhece uma vítima de violência doméstica? Quem não sabe de pelo menos um caso de estupro contra mulher?

Pior que mesmo em países como o nosso, os atos de violência são por vezes tolerados. Muita gente age como se fosse normal o homem espancar a mulher. E isso ocorre por ciúme, porque ela queimou o arroz, porque esqueceu de passar a camisa ou simplesmente porque não quis fazer sexo.

Não sei se apenas punições mais duras são suficientes para mudar essa realidade. Talvez o maior problema ainda seja o medo, a vergonha. Por razões que a própria razão parece incapaz de explicar, muitas mulheres sofrem caladas. E outras inclusive assumem a responsabilidade pelo ato de violência sofrido. É como se repetissem o mantra: “eu mereci”.

Sei apenas que, como sociedade, precisamos rejeitar todo e qualquer ato de violência contra a mulher. Nada justifica. E eu entendo que isso deve mudar a partir do nosso discurso, da nossa posição diante de fatos que deveríamos condenar.

Dias atrás, por exemplo, ouvia uma mulher contando de uma conhecida que traiu o marido e apanhou dele. Ela repetia a história do espancamento, tendo como espectadores da narrativa duas filhas menores e um garoto de 12 anos:

– Bem feito! Quem mandou ser safada?, dizia.

Esse tipo de discurso perpetua uma visão machista e que tolera a violência. Essas meninas vão crescer pensando o quê? E o garoto? Será que não se sentirá autorizado a bater numa futura parceira? Violência nenhuma pode ser aceita. Em nenhuma situação. Não adianta a gente ter legislação rigorosa, mas uma cultura que admite (e até estimula) a violência em “casos específicos” – como se algumas ocasiões justificassem a agressão.

E o medo, por que ocorre? Porque além da sensação de impunidade, existe a impressão que ninguém se importa. Se pedir ajuda para o vizinho, até que ponto irá se envolver? Na verdade, muitas vezes, nem mesmo as autoridades policiais se empenham em dar atendimento às vítimas. Não são raros os casos de vítimas desestimuladas a denunciar os agressores.

Sinceramente, eu não tenho respostas… Não sei como mudar essas estatísticas. Sei apenas que, a partir da casa da gente, da sala de aula, temos que manter um discurso que rejeite por completo a violência contra a mulher. É preciso falar, falar e falar sobre essas questões. Aproveitar todas ocasiões. E fazer isso sem ter vergonha, sem ter pudor.

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5 comentários em “Violência conjugal

  1. Há ainda um terceiro motivo para que a mulher não denuncie, ou não conte para ninguém sobre a violência sofrida: culpa. A mulher se sente responsável pelo que acontece com ela, porque até os terapeutas deixam claro que se algo de ruim lhe acontece é porque você PERMITIU. A culpa também está presente nos (poucos) casos em que a mulher revida a agressão, seja com um chute, ou quebrando uma garrafa na cabeça do sujeito para se defender. Momentos depois, ela sente culpa por ter machucado o parceiro, por ter perdido a cabeça.

    Concordo que o assunto deva ser debatido, mas longe da esfera “feminazi” que tanto empobreceu essa discussão. As manifestações avacalharam tanto a luta, que nós, mulheres, perdemos a razão novamente. O espaço que havíamos conseguido para falar sobre este assunto foi, novamente, tomado por piadas e chacotas, ou pelo desprezo ao tema.

    Colocaram a violência doméstica num caldeirão de lutas que, ao meu ver, não precisavam nem de discussão porque já foram conquistadas, mas continuam em pauta por serem mais polêmicas e ganharem mais Ibope.

    Obrigada por trazer o tema à baila com seriedade.

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