O poder destrutivo da inveja

invejar

A inveja exerce uma poderosa força destrutiva na vida da gente. E, infelizmente, está mais presente no nosso dia a dia do que deveria estar.

Como sou professor, não raras vezes observo as movimentações entre os alunos. Em especial, após as provas. Tenho o hábito de não divulgar as notas. Porém, nem todo mundo age assim. E mesmo não tornando públicas as avaliações, os estudantes procuram saber as notas dos colegas. Entretanto, o que é bastante desagradável nessas ocasiões é notar as reações. Vez ou outra a gente escuta diálogos do tipo:

– Quem ficou com a melhor nota com o professor fulano? 
– Foi aquela loirinha sem vergonha, que vem sempre com uma saia que só falta mostrar a bunda.
– Ah… Eu já sabia que seria ela. Você ela fica sempre papeando com o professor? E os olhos dele chegam brilhar quando ela vem com aquelas blusinhas decotadas.
– E o perfume? Esses dias eu vi o professor comentando do perfume dela.

Sabe, as cenas podem ser outras, os personagens podem ser diferentes, porém creio que quase todo mundo já ouviu comentários desse tipo. Ou até participou de diálogos semelhantes. Nessas ocasiões, o talento, a capacidade e o empenho do outro raramente são notados. Não se questiona se pode haver algo, para além dos atributos físicos ou táticas de sedução, que tenha motivado as boas notas da garota bonita, a promoção na empresa do sujeito sempre falante, o sucesso financeiro do cara que está sempre falando com o chefe…

A inveja está presente em todos os ambientes. Inclusive dentro das famílias. E o mecanismo que sustenta a inveja é o conformismo, a insegurança, o medo de arriscar, de fazer diferente. É mais fácil ter inveja e listar defeitos na pessoa invejada que reconhecer o que lhe falta, o que é necessário mudar…

Do ponto de vista conceitual, a inveja pode ser definida como o desejo de algo que não se possui. A inveja produz angústia, tristeza e até ódio de alguém quando se observa o bem alheio – um bem que julgamos que nós merecemos.

Quando descobrimos que alguém tem algo que desejamos, surge a inveja. E pior, à medida que pensamos mais e mais no que não temos e a outra pessoa tem, os pensamentos se tornam mais profundos e, embora possamos não admitir, surge em nós uma convicção de que somos inferiores ao outro. Por isso, é quase natural tentar descaracterizar o outro. Ou, no caso da ilustração que usei, desqualificar a garota que tirou nota melhor. Prefere-se dizer que ela não tem mérito. Prefere-se afirmar que as conquistas dela são obtidas por atitudes não éticas; atitudes que nós não teríamos. Logo, a nota dela pode ser melhor, mas “nós somos melhores como pessoas”. Somos mais morais. É esse o discurso.

A inveja também nos tira a capacidade de nos alegrarmos pelas conquistas alheias. Tentamos relativizar os triunfos, as vitórias do outro… Tornar menores do que são. E sabe de uma coisa? Ao invés de desperdiçarmos energia com a inveja, que nos faz tanto mal e nos impede de crescer, deveríamos tentar desenvolver um outro tipo de sentimento pelas pessoas que invejamos: deveríamos admirá-las.

Sei que pode ser algo difícil. Entretanto, se alimentamos a inveja, destruímos a nós mesmos. Por outro lado, se nos esforçarmos para admirar os outros, nossas relações pessoais imediatamente se tornarão mais edificantes, mais felizes, nos tornaremos menos amargos. E o melhor, quem sabe até poderemos aprender com os acertos dos outros.

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