A conquista do mestrado

mestrado

Decidi escrever este texto muito mais como um registro pessoal do que como uma crônica de agradecimento ou comemoração. Talvez ninguém se interesse por ler. Ainda assim vai ficar aqui, no blog, como manifestação de alguns sentimentos após concluir uma etapa tão importante da minha formação.

Antes de ingressar no mestrado, tinha ouvido vários comentários sobre o quanto o processo é difícil, desgastante. Confesso que pensava haver certo exagero. Hoje, não sei bem o que dizer. Durante o percurso da pesquisa, achei que não daria conta. Caí no fosso da depressão em alguns momentos. Desistir nunca foi opção, mas não faltaram pensamentos negativos e desejo de entregar os pontos… Entretanto, hoje, após ter concluído, me questiono: será que foi mesmo tão difícil? Ou será que apenas superdimensionei as coisas ao longo desses últimos três anos?

Deixa eu explicar… Eu fiz um ano de mestrado como aluno especial. Cursei duas disciplinas em 2013. Na verdade, quatro. Isso porque fiz duas em Letras e mais duas em Educação, na época. Depois, participei da seleção para me tornar aluno regular, passei nos dois programas de pós e acabei optando por Letras. Por isso, conto que meu mestrado teve, ao todo, três anos.

Ao longo desse período, tudo foi muito complicado. Tive dificuldades na vida pessoal, na esfera profissional… Não foi nada fácil. Culpa do mestrado? Não necessariamente. Mas é impossível dizer que uma coisa não afeta outra. É assim em tudo na vida, né? Ninguém consegue isolar os problemas. Se você está com problema com os filhos, tudo mais fica complicado. Basta uma coisa fora do lugar para te aborrecer completamente.

O mestrado era um sonho pra mim. Teve uma época que eu sonhava, mas achava que era algo impossível, inatingível. Achava que nunca seria capaz de ser aprovado na seleção. São poucas vagas, o processo é desgastante… De fato, é preciso muito envolvimento, persistência e preparo para ser aprovado. Tinha medo de não conseguir… Mas deu certo. Passei. E em primeiro lugar em Letras e Educação.

Quando passei, descobri que se tornar aluno era a parte mais fácil. Há tantas demandas que, em alguns momentos, a impressão é que a gente é incapaz de dar conta de tudo. E, como eu disse, a vida da gente não é uma coisa só. Você tem o estudo, mas tem o trabalho também, tem a família… Quando menos percebe, está tudo misturado e parece que o mundo virou as costas pra você.

E uma coisa eu descobri nesses últimos três anos: a vida não para para você fazer mestrado. Não adianta reclamar que falta tempo, que está muito difícil… Cada dia é um dia, só tem 24 horas e a vida passa… Ninguém espera você dar conta de suas tarefas. As coisas estão acontecendo e você está estudando. Ou não.

Para quem está de fora, é difícil compreender isso. Pouca gente entende por que tantas horas de leitura, tanto tempo em frente ao computador… O que custa uma saidinha para comer uma pizza? Beber alguma coisa com os amigos?

Para quem está “dentro”, também é difícil aceitar abrir mão de “viver” para estudar tanto, escrever tanto e ainda assim perceber que todo esforço é insuficiente. E essa talvez seja uma das maiores angústias de um pós-graduando: você faz, faz e faz, mas parece ser nada. Na academia, o seu máximo parece ser muito pouco. Isso, muitas vezes, é desolador.

A trajetória da pesquisa por vezes também é solitária. Raras são as pessoas dispostas, e com tempo, para colaborar. Ou ao menos ouvir os lamentos. Quem está envolvido com o universo acadêmico (e que poderia te entender ou apoiar), quase sempre também não tem tempo. Quem é de fora, acha tudo uma doideira. Quase um desperdício de tempo e esforços.

A relação com o orientador é singular. Trata-se da pessoa mais envolvida no processo. E talvez por isso, como todo relacionamento, há o risco de as coisas não funcionarem como se espera. Não raras vezes, tudo que o orientando espera é apoio – às vezes, até “colo”; por outro lado, o orientador tem prioridades bem diferentes: precisa motivar a produção, o envolvimento com a pesquisa. E, para isso, nem sempre  age de maneira simpática, digamos assim.

Quer dizer… Essa dinâmica toda gera um desgaste emocional que nem sempre é possível administrar. Por isso, quando a gente conclui, defende a dissertação, é impossível não se sentir aliviado. Alguns quilos vão embora logo após a leitura da ata de aprovação. A sensação é mesmo única, uma vitória daquelas que a gente não esquece. Aos poucos, a vida vai voltando ao normal, o título conquistado é incorporado ao que você é e, como tudo na vida, novos desafios vão se impondo como necessidade – o doutorado, por exemplo (mas isso já é uma outra história).

Anúncios

7 comentários em “A conquista do mestrado

  1. Foi muito bom ler este texto.
    Estou sentido-me muito angustiada. Tanto esforço e tudo parece em vão.
    Os meus desafios são enormes. Sei que o processo seletivo é difícil, mas eu sou dedicada. Como moro muito distante de uma universidade, o que não oportuniza o translado para fazer as aulas presenciais, escolhi uma pós a distância, em Portugal. Curso que ainda não tem revalidação do certificado no Brasil. Será que um dia teremos uma parceria nesse sentido? Sei lá. Mesmo assim continuo, penso em desistir, mas com tanto dinheiro já investido, não é inteligente fazer isso.
    Investigar não é fácil. Colaboração? Mais difícil ainda. Chorar é normal? Por que certos sonhos são tão difíceis de se realizar?
    Um abraço.
    Obrigada por suas incentivadoras palavras.

    1. Aparecida, o processo é mesmo doloroso. Não raras vezes precisei recorrer a remedinhos antidepressivos. Mas siga em frente. Acredite em você. Perdoe-se quando as coisas não funcionarem como você gostaria.

  2. Parabéns. Texto lúcido e que sintetiza muito bem os sentimentos, expectativas e angústias de um pós-graduando. Mas, sem querer minimizar seu sofrimento e nem tampouco desestimulá-lo na tarefa de dar continuidade à sua formação, não posso deixar de dizer que a “brincadeira” fica ainda mais interessante no doutorado. Tente não deixar se passar mais de cinco anos entre o término do mestrado e o início do doutorado. Caso contrário, ´não poderá fazer nenhum aproveitamento de disciplinas, caso elas sejam equivalentes. Boa sorte.

  3. Nossa eu sei bem oque é isso, porque fiz o meu e ainda em outro idioma, essa sensação de desespero e angustia, nossa é muito sofrido, mas a recompensa vem logo depois com o diploma e mais uma batalha vencida..Adorei seu texto e sorte com o doutorado…
    Ronaldo gostaria de convidar você para cadastrar seu blog em feedhi, uma plataforma para bloggers nova e gratuita no Brasil, vale a pena é muito interessante para nós que temos blogs..Aqui deixo o link onde explico sobre o funcionamento do site..http://petitluxo.com/2016/03/01/feedhi-no-brasil/

    Obrigado e sorte..

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s