Escolhi ser professor

Dia do professor… Muita gente felicita professores e professoras… Outras pessoas mencionam a necessidade de reconhecimento profissional… Em meio a tudo isso, fico pensando: será que tenho algo a contribuir com o que está sendo dito? Cheguei a pensar em nada escrever. Porém, este é o primeiro ano que dedico exclusivamente à educação. Desde fevereiro, das 7h às 23h, sou professor e coordenador em instituições de ensino. Acho que preciso falar pelo menos da minha felicidade em ser educador.

Sim, sou feliz com o que faço. Brinco que o Jornalismo é acidente de percurso; ser professor é minha escolha. E tenho muito orgulho disso.

A docência é um trabalho árduo, difícil, cansativo. Hoje, por exemplo, desde que acordei, só parei de trabalhar para fazer as refeições e, agora, para escrever este texto. Há doze anos, essa é minha rotina aos domingos e feriados. Algo a reclamar? Não. Escolhi ser professor. E toda escolha implica perdas e ganhos. Alguém talvez diga: mas não se ganha suficiente para isso. Acontece que, quando escolhi ser professor, eu sabia qual era a remuneração e todo o empenho que seria necessário para fazer meu trabalho de maneira digna.

Talvez alguns falem: falta reconhecimento! Respondo: o que é reconhecimento? Dinheiro? Status? Fama? Se este for o reconhecimento desejado, a maioria dos profissionais brasileiros (e em todo planeta) está em condições semelhantes. Reconhecimento, para mim, são situações como a que aconteceu comigo na última sexta-feira. Cheguei ao caixa do supermercado, uma ex-aluna, da qual nem lembrava mais e que já estava saindo, retornou com um sorriso no rosto, me deu um abraço e, ali em frente à mulher do caixa, fez vários comentários positivos sobre o quanto fui importante na sua formação. Me contou histórias da vida dela, da gravidez, do que está fazendo… Mostrava-se contente por ter me reencontrado. Cá com meus botões, acredito que, durante os dois anos que fui professor dela, se eu estivesse reclamando das condições de trabalho, do salário, das horas dedicadas à preparação das aulas, das provas e textos que tenho para corrigir, não ouviria os elogios que ouvi. Não teria os sorrisos e as histórias dela.

Entendo sim que deveríamos ganhar mais. Enfermeiros também, fisioterapeutas, farmacêuticos, contadores, jornalistas… Também entendo que existam injustiças, desigualdades e tratamentos diferenciados. Mas também penso que muitos de nós temos assumido um discurso de vitimização. Isso nos apequena. Na sociedade do espetáculo (aparência), colocar-se como vítima é tornar-se efetivamente vítima e perder o respeito das pessoas. Hoje, muitos docentes sequer são respeitados pelos alunos e pelos pais de alunos – o que é lamentável. Que investimentos, porém, estão fazendo em si mesmos para se assumirem como autoridade no que fazem e dizer: “disso daqui eu entendo”?

Eu escolhi ser professor. Preferi o saber a fama, ao status, ao dinheiro. Sinto prazer no conhecimento. Gosto de pensar para além do senso-comum. Me faz bem oferecer olhares provocativos, amplos e plurais aos meus alunos e alunas. Isso me realiza. É isso que quero fazer até o fim dos meus dias: ser professor!

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