Bolsonaro precisa compreender o papel do líder

As últimas declarações de Jair Bolsonaro começam a indicar que existe certa diferença entre a retórica usada para vencer as eleições e o que, de fato, o presidente eleito pensa.

Entretanto, há algo nocivo na retórica que foi usada: a agressividade verbal do então candidato – e, principalmente, do que ele disse em situações passadas durante o exercício de seus mandatos parlamentares – funcionou como uma espécie de despertar do que existe de mais cruel em algumas pessoas.

Não são muitos os casos, mas são visíveis os episódios de violência verbal e até física de seguidores de Bolsonaro.

Já tivemos o registro de pessoas agredidas e até mortas, gente mostrando armas na internet, declarações homofóbicas e até ameaças contra gays, inclusive dentro de escolas e universidades.

Não, eu não acredito que o presidente eleito aprovaria qualquer uma dessas práticas. Também rejeito a ideia de que os mais de 57 milhões de eleitores que votaram nele são fascistas, são preconceituosos, intolerantes, violentos.

Porém, existe sim uma parcela da sociedade – pequena, penso – que, ao ouvir Bolsonaro, sentiu-se autorizada a manifestar todo o tipo de sentimento ruim e vontade de agredir, violentar, matar.

Essas pessoas nunca foram boas, amáveis, pacientes, tolerantes… Na verdade, o ódio contra o diferente, o desejo de eliminar quem não se encaixa nos padrões delas, esses sentimentos ruins sempre existiram nelas.

No entanto, o discurso do respeito, o cuidado com as minorias, o peso da legislação funcionaram como instrumentos de vigilância. Essas pessoas eram como cães raivosos, presos e sob o cuidado de um adestrador forte que pune os excessos.

As falas de Bolsonaro, porém, mexeram com essas pessoas, que começaram a vislumbrar a chance de verbalizar e até praticar tudo que estava reprimido (os cães raivosos acreditaram que seriam libertados).

O que acontece agora? O presidente eleito terá que demonstrar que vai trabalhar para impedir toda e qualquer ação de violência verbal ou física contra os grupos que correm mais riscos.

Diferente do que fez no passado, Bolsonaro necessita compreender qual o papel do líder. O bom líder acalma, modera, inspira sentimentos positivos em seus seguidores. Todo líder traz consigo uma massa de pessoas que nem sempre pensa por elas mesmas. São influenciadas pelas atitudes de quem está à frente delas.

O presidente deve entender que, se deseja construir uma nação unida e fazer nossa gente feliz (como tem prometido), deverá ser o líder que o Brasil precisa, um homem capaz de dar exemplo, inspirando boas atitudes.

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