Notícias falsas causam linchamento

Minha insistência em falar sobre os conteúdos falsos que circulam na internet tem relação com vários fatores. Um deles é porque conheço o processo de produção de notícia na imprensa profissional. Sei da responsabilidade que existe por parte de uma equipe de pessoas especializadas no assunto e também sei os métodos e técnicas aplicadas na apuração de um fato.

Ou seja, parte do meu incômodo é motivado por uma espécie de luta pessoal em defesa do bom jornalismo.

Entretanto, outra razão é o efeito dos conteúdos falsos junto ao público. As informações distorcidas ou mentirosas que circulam na rede desinformam. E ao desinformarem, impedem que as pessoas vejam os fatos concretos.

Exemplo, no meu boletim anterior enviado à Band News, e que está também nas minhas redes pessoais, muita gente sustentou o questionamento da qualidade de formação dos médicos cubanos sob o argumento de que o curso de Medicina deles tem apenas 3 anos.

De onde tiraram isso? Certamente de tweets, mensagens de whatsapp ou blogs pseudo-informativos. Em Cuba, o curso de Medicina tem 6 anos – semelhante ao do Brasil.

A diferença existe apenas no modelo de formação – o que é chamado de currículo. Enquanto no Brasil o ciclo teórico é de 4 anos, mais 2 de ciclo clínico, em Cuba, são 2 anos de ciclo teórico, 3 anos de ciclo clínico e mais 1 ano de trabalho em campo, sob supervisão.

Mas o processo de desinformação não promove apenas a ignorância que leva as pessoas a falarem bobagem. A desinformação, por vezes, motiva decisões. E mais que isso, promove o ódio.

Uma reportagem divulgada esta semana no site da BBC mostrou o que aconteceu com dois homens em uma pequena cidade do México. Boatos sobre sequestros de crianças se espalharam pelo whatsapp. Os homens foram identificados como os supostos responsáveis. A comunidade espancou, colocou fogo nos dois homens ainda vivos. Eles foram mortos antes que alguém pudesse checar a veracidade do que havia sido divulgado no whatsapp. E o linchamento foi filmado por vários celulares.

As pessoas são cruéis. De certo modo, isso está em nossa natureza. O processo de desinformação promovido pelos conteúdos falsos que circulam na rede potencializa imagens falsas a respeito da realidade levando muita gente a acreditar no que não existe. Disseminam-se preconceitos, reforçam-se estereótipos… reputações são colocadas em xeque.

Justamente por isso insisto na importância de duvidarmos sempre. Checarmos as informações que chegam até nós. Questionarmos nossas certezas. O que foi nos dito, aquilo que lemos, ouvimos e assistimos pode não ser verdade.

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