Quem tem direito de frequentar uma universidade?

Para o atual ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodrigues, apenas um grupo muito seleto deveria ter direito de acesso ao ensino superior. Nas palavras dele, as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual. Ele também afirmou, em entrevista ao Valor Econômico, que a ideia da universidade para todos não existe.

Embora sustente que existe uma diferença entre a elite intelectual e a elite econômica, o que o ministro parece ignorar é que, no Brasil, a elite econômica é também aquela que reúne as condições de se tornar a elite intelectual do país. Logo, se passar a vigorar a lógica do ministro, o país vai excluir ainda mais os jovens pobres, empurrando-os para serem tão somente mão-de-obra especializada.

Para justificar sua ideia, o ministro ressalta que, na Alemanha, funciona assim: nem todos chegam à universidade. O ensino técnico é o meio de profissionalização para uma parcela considerável da população alemã.

De novo, o ministro silencia um fato: as crianças têm ensino de qualidade na Alemanha e conseguem, mesmo sendo pobres, candidatarem-se às universidades – caso queiram se dedicar ao universo intelectual. Não é o ocorre no Brasil. Por aqui, se as vagas não forem asseguradas para todos, ainda menos gente frequentará o ensino superior. Vale lembrar que cerca de 80% dos jovens brasileiros estão fora das faculdades e universidades. Ou seja, fazer uma faculdade, no Brasil, já é um privilégio de poucos.

Tenho sustentado que o nosso país precisa de uma ampla mudança na educação. Os indicadores mostram que nossa gente não sabe o mínimo necessário de Matemática e tampouco dá conta de ler e interpretar adequadamente um texto. É necessário mudar, inclusive com a valorização do ensino técnico – que é o caminho mais rápido para a profissionalização.

Entretanto, falas como a do ministro refletem um pensamento mesquinho, excludente, preconceituoso.

Entendo que nem todos queiram frequentar a universidade. Também defendo que este espaço não seja para a formação técnica e profissionalizante; universidade é um ambiente para o desenvolvimento intelectual. Contudo, a escola pública de hoje não assegura formação para que um aluno possa fazer parte da elite intelectual. E as vagas já são mínimas diante da demanda. É justamente por isso que defender tal ideia é, no mínimo, um desrespeito com a maioria do nosso povo.

Anúncios