Cadê o entusiasmo?

Trombei numa frase, extraída de um livro, que defendia a importância do entusiasmo. O autor falava sobre o entusiasmo como a chave de uma visão otimista da vida, o entusiasmo como o motor para a ação e para o sucesso.

Acho a ideia ótima! Mas ela tem um problema: as emoções nem sempre são controláveis. Me incomoda o fato de sustentar que o ser humano dá conta de dizer para si mesmo: vou ficar animado agora. Essa tese parece ignorar que nem sempre se trata de querer estar entusiasmo.

Esse discurso motivacional, típico de livros de autoajuda e, mais recentemente de alguns coaches, me incomoda profundamente.

Às vezes, a pessoa adoraria acordar todos os dias no maior pique, super empolgada, entusiasmada… Entretanto, não existe botão de liga e desliga. Há momentos que você não quer nada além do próprio quarto, de sua cama… Não quer ver a cara de ninguém. Não sente vontade de fazer nada.

Por ser consciente e responsável, você levanta, vai lá e faz o que tem que fazer. Mas não dá pra contar com o entusiasmo. Você faz por saber que é preciso fazer. Faz por saber que a vida requer atitude e é necessário cumprir os compromissos. Porém, ter atitude não significa ter entusiasmo, ânimo o tempo todo.

Somos humanos, não robôs.

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Jovens são massa de manobra?

Os jovens e adolescentes são idiotas? Idiotas úteis? Massa de manobra?

Tenho dois filhos; o mais velho, com 22 anos e no quarto ano da universidade; a mais nova, 18 anos e no primeiro ano de faculdade. Trabalho com jovens no ensino superior há 14 anos e, por dois anos, convivi com dezenas de estudantes de ensino médio e cursinho. Acho que conheço, por experiência própria, um pouco deste público – além disso, sou pesquisador em Educação. Sinto ter certa autoridade para falar de jovens e adolescentes.

Então, voltando as perguntas iniciais, posso garantir que a moçada pode até ser idiota, às vezes. Afinal, todos nós, vez ou outra, somos. Entretanto, uma coisa que jovens e adolescentes não são é massa de manobra. Por ingenuidade, inexperiência, fragilidade emocional, formação educacional inadequada, nem sempre agem de maneira inteligente; mas não são facilmente manipulados, principalmente por adultos.

Jovens e adolescentes escutam youtubers, influencers. Escutam gente que se parece com eles. Por outro lado, pais, professores, padres, pastores são quase sempre vistos com desconfiança, tidos como inadequados e chatos. A maioria deles também não gosta de política e não acredita nas estruturas de poder. Por isso, quem afirma que jovens e adolescentes são idiotas úteis, massa de manobra de professores, demonstra total desconhecimento deste público.

Jovens e adolescentes se apaixonam por causas, por bandeiras ou, simplesmente, são alheios a tudo que pode parecer relevante para nós, adultos. Poucas coisas são mais importantes que a luta deles pela liberdade de suas subjetividades; querem ser reconhecidos como pessoas que sabem o que querem, que são donas do próprio nariz. Geralmente erram por não ouvirem gente mais experiente, mais vivida.

Nos colégios e universidades, professores não conseguem ser ouvidos; por vezes, sequer são respeitados.

Vivemos hoje uma crise de autoridade. Não há espaço para manipular ou doutrinar um adolescente ou jovem em sala de aula. Quando um professor tenta direcionar o olhar dos alunos para uma determinada perspectiva ideológica, a maioria percebe, resiste e passa a agir de maneira crítica – e até explicitamente desrespeitosa – com aquele educador.

Adultos que têm adolescentes e jovens em casa sabem que não é nada fácil fazer com que sigam certas orientações ou façam o que lhes foi determinado; sem ameaça ou pressão, eles só fazem o que querem, o que acreditam ser importante e necessário fazer. Também sabem o quanto são desconfiados em relação aos professores, aos discursos de autoridades institucionalizadas. Ou seu filho é diferente? Passivo? Cordeirinho que segue todas as ordens?

Não, meus caros, jovens e adolescentes não são idiotas úteis – até poderiam ser idiotas inúteis (como nós adultos, em algumas situações). Contudo, reafirmo, algo que eles não são, é massa de manobra.