Democracia e redes sociais

As redes sociais na internet têm provocado um fenômeno que nos leva a práticas quase primitivas. Ao assegurar que os usuários consumam informações que se identificam com a maneira de pensar de cada um deles, colocam-nos de volta ao tempo em que as informações comuns eram restritas aos grupos, às pessoas que viviam juntas. Ou seja, circulavam apenas nas próprias tribos, nas comunidades locais, em guetos. E sem nenhuma garantia de veracidade.

Ainda antes de Cristo, o Império Romano compreendeu que a força de uma nação está no consenso obtido por informações precisas que chegam a todos. Noutras palavras, a força está no acesso comum, de todas as pessoas, de informações de uma mesma natureza. Desde então é a qualidade e o alcance de um mesmo tipo de informação que assegura os sentimentos comuns de um povo, inclusive de pertencimento, que fazem com que haja identificação com a pátria e com as ideias vigentes.

Acontece que as redes sociais estão acabando com isso. Cada pessoa defende a sua ideia, a sua bandeira. Já não há interesses comuns; há apenas os meus interesses e os interesses do meu grupo. Na verdade, a internet e tudo que ela traz no que diz respeito à comunicação representam um tipo de progresso que acontece sem que haja reflexão da parte de seus desenvolvedores e até mesmo das autoridades. Vale apenas o negócio, o lucro obtido. Progresso inconsequente!

Com as redes, estamos deixando de compartilhar informações comuns. As informações que eu recebo são distintas da que você recebe. Ditadas por algoritmos, estão dispostas no feed de acordo com os rastros que vamos deixando na internet. O problema é que se todos nós recebemos informações diferentes, com a nossa cara, como vamos encontrar um denominador comum? Um denominador que nos permita conviver, respeitando as diferenças e, ao mesmo tempo, beneficiando toda a coletividade.

O não acesso e compartilhamento de informações comuns é prejudicial para a democracia. E, pior, acentua as diferenças entre as pessoas e elimina os filtros que ajudam na confirmação da veracidade dos conteúdos em circulação. Na internet, é bastante duvidosa a qualidade das informações. Há um agravante: os preconceitos e as ideias falsas são abundantes.

Muita gente tem ignorado o efeito nocivo das redes. Em todo o mundo, o consumo distinto, individualizado das informações, tem contribuído para que as pessoas tenham uma visão enviesada do mundo e, de certo modo, esses conteúdos reforçam visões particulares a respeito de fenômenos diversos – sejam eles a respeito da própria humanidade, das ciências, das religiões e da política.

As redes sociais na internet têm alimentado o fogo do populismo, do racismo, do preconceito contra os imigrantes e contra todos aqueles que são diferentes do que seria tido como normal. Elas têm estimulado a intolerância, a raiva, o ódio. Isso não é nada bom.

Os algoritmos criam bolhas e, nelas, todo tipo de ideia – inclusive falsas ideias – ganha força e passa a funcionar como verdade, acentuando as rivalidades e tornando a convivência entre as pessoas muito mais difícil. A busca de denominadores comuns que possam fazer com que lutemos por causas comuns deixa de existir. O que emerge é uma espécie de guerra, de disputa entre discursos, de confrontos verbais em que cada lado tenta gritar mais alto. Há pouca chance de acabar bem, porque, para que certas crenças se consolidem, haverá necessidade de serem impostas, talvez por meio da força ou da repressão. É o que tem acontecido em alguns lugares do planeta e, de certo modo, já há um esboço disso aqui no Brasil.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s