Ser ético é considerar o efeito de suas ações sobre as outras pessoas

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Uma conduta ética pressupõe agir com responsabilidade, considerando o impacto que nossas atitudes têm sobre a vida das outras pessoas. Muitas de nossas ações afetam as pessoas próximas. Entretanto, por vezes, em nome do nosso bem-estar ou das coisas que acreditamos serem as melhores, atropelamos quem está conosco.

Nos relacionamentos, isso é bastante comum. O marido, sonhando com sua ascensão profissional, assume compromissos sem consultar a esposa; deixa o romance de lado e parece ignorar que a parceira pode estar se sentindo abandonada.

Muitos pais fazem a mesma coisa com os filhos. Na tentativa de alcançarem o sucesso, deixam de investir na educação das crianças e no desenvolvimento emocional dos pequenos – parecem acreditar que a escola fará aquilo que deixaram de fazer. Quando notam o problema já é tarde demais. Os filhos estão distantes, com problemas na escola e, às vezes, até envolvidos com as drogas.

Agir de forma ética implica em lembrar-se do outro em minhas ações. É necessário me questionar: o que eu pretendo fazer pode prejudicar alguém? As minhas escolhas podem injustiçar alguém? Ou fazer uma pessoa infeliz?

A vida não se resume ao eu mundo. Nem mesmo aos meus sonhos, projetos ou incômodos.
Somos os principais interessados em nós mesmos. Em defender nossos planos, em promover nosso desenvolvimento e até em nós defendermos. Mas isso não significa que vivemos sozinhos, isolados, tampouco que não tenhamos responsabilidade pelos efeitos de nossas escolhas sobre as outras pessoas.

A chave para o fracasso

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Numa frase atribuída a Woody Allen, o ator e diretor norte-americano afirma desconhecer qual é a chave do sucesso, mas assegura saber o que determina o fracasso. Segundo ele, a vontade de agradar a todos leva ao fracasso. Logo, quem deseja o sucesso deve compreender que nem sempre agradará todas as pessoas.

É fundamental nos preocuparmos com quem está a nossa volta. Ressalto, inclusive, que nossas ações precisam considerar os efeitos sobre as pessoas próximas. Afinal, não me parece justo prejudicar alguém ou fazer uma pessoa infeliz em nome do nosso sucesso ou da nossa felicidade.

Entretanto, a tentativa de agradar a todos é insana. Não existe possibilidade alguma de sermos bem-sucedidos na busca por fazer com que todos estejam satisfeitos conosco.

Se estamos o tempo todo preocupados em agradar, permanecemos paralisados. Não saímos do lugar.

Por isso, segundo Woody Allen, a chave do fracasso é conhecida. Agradar a todos é impossível. Falhamos nisso até mesmo em coisas pequenas, em nosso cotidiano doméstico.

A busca por agradar a todos nos paralisa. Impede-nos de agir.

Por isso, precisamos de parâmetros éticos, de solidariedade, de responsabilidade para com os demais que referenciem nossas ações. Mas tendo esses parâmetros, é fundamental nos movermos, buscarmos nossos sonhos, realizarmos aquilo que acreditamos ser importante.

Do contrário, viveremos frustrados. Nossos sonhos seguirão encaixotados em nossas inseguranças e teremos uma vida patética. Na tentativa de agradarmos todas as pessoas, nossa existência será insignificante, inclusive para nós mesmos.

Conviver com as tristezas

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Desejamos as alegrias. Elas nos trazem sensações boas, fazem a vida mais leve. Mas a tristeza também faz parte da existência.

Precisamos aprender a conviver com a tristeza. Alguns acontecimentos passados e até situações com as quais convivemos diariamente nos causam tristeza. Por mais que queiramos afastá-la, seguirá atravessando nossa alma, tornando nossos sorrisos mais frágeis.

Uma mãe que perdeu um filho ainda criança convive com essa dor. Mesmo que a ferida aberta pela perda tenha cicatrizado, sempre haverá um grande vazio no peito. Esse vazio causa tristeza, por vezes, lágrimas.

Uma esposa que foi traída por um homem que ela amava muito, precisa seguir em frente. Mas a dor da decepção talvez nunca abandone o peito. Será só mais um dentre outros acontecimentos que provocam tristeza.

Mas não são apenas as grandes perdas e decepções que provocam sofrimento. Às vezes, sua filha adolescente tem atitudes que te entristecem, comporta-se de uma maneira que você considera inadequada. Você fala, orienta… Porém, não dá para mudar o outro. A pessoa só muda quando reconhece que precisa mudar. Por isso, ainda que sua filha tenha se tornado alguém que te causa tristeza, não há nada que possa fazer. Resta conviver com o que entristece.

E este é um dos segredos da felicidade: aprender a conviver com nossas tristezas. Não se trata de deixar pra lá, de ignorar, de fingir que não dói. Trata-se de aceitar que algumas coisas que nos machucam ficarão para sempre conosco.

Teremos dias mais difíceis. Noutros, estaremos mais leves. Mas o que importa é não permitir que as tristezas sejam a única coisa para a qual olhamos.

Se conseguirmos fixar nossos olhos nas coisas boas que acontecem em cada um desses dias, encontraremos razões para nos alegrarmos. Embora carreguemos nossas tristezas, a vida também oferece muitas oportunidades para sorrirmos.

Aprendendo com Paulo Freire: Qual é a atitude correta diante do conhecimento?

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Paulo Freire tem uma resposta belíssima para essa pergunta. O educador sustentava que todo conhecimento tem história; noutras palavras, é datado. Trata-se de um saber que é relevante hoje, mas deixará de ser amanhã.

Segundo Paulo Freire, ensinar a pensar certo é ensinar que as pessoas devem se empenharem na busca pelo conhecimento existente, mas nunca se conformarem com o que aprenderam. Devem estar abertas às novidades.

Veja só como isso é atual! O que dizem os especialistas em mercado e pesquisadores desta sociedade tecnológica? Dizem que apenas vão sobreviver e serão bem-sucedidas aquelas pessoas que estão abertas ao constante aprendizado. Aprender sempre, aprender todos os dias.

Curiosamente, tenham ou não estudado Paulo Freire, o que esses profetas do amanhã estão falando é algo que já estava presente nas teorias do pensador brasileiro.

Paulo Freire afirmava que o conhecimento do mundo tem historicidade. “Ao ser produzido, o conhecimento novo supera outro que antes foi novo e que se fez velho”, diz ele.

O autor continua… [O conhecimento existente hoje] “se dispõe a ser ultrapassado por outro amanhã”.

Quando observamos o mundo em que vivemos e todo movimento das ciências, notamos claramente essa substituição dos conhecimentos.

Por isso, o autor ressalta que ensinar a pensar certo é promover um modelo de educação que auxilie a pessoa a “conhecer o conhecimento existente quanto saber que estamos abertos e aptos à produção do conhecimento ainda não existente”.

Ou seja, todos nós devemos estar em constante busca pelo conhecimento já produzido, mas, ao mesmo tempo, abertos ao novo – inclusive dispostos a produzirmos esses novos saberes.

Aprendendo com Paulo Freire: pensar certo!

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Paulo Freire estimulou os professores a pensarem, a pensarem certo! E a ensinarem a pensar certo.

O que seria esse pensar certo?

Entre outras coisas, pensar certo, segundo Freire, é ser capaz de estabelecer conexões entre o que lemos e o mundo que vivemos.

Numa das suas obras, o educador criticou o professor que lê horas a fio, memorizando as ideias de autores a fim de recitá-las, domesticando-se ao texto, sem procurar aplicar o que foi lido ao mundo real.

Embora trate, primeiro, dos professores, o que Paulo Freire propôs é que não sejamos robôs; defende que sejamos seres pensantes… Gente que tenta ler os autores para confrontar as ideias deles com as experiências da sociedade em que vivemos.

Isso é simplesmente fantástico. E contraria toda e qualquer crítica feita a Paulo Freire. Afinal, se eu estudo um autor e problematizo suas ideias, se busco relacioná-las ao mundo em que vivo, não há espaço para doutrinação, nem militância. O que faço, nesta perspectiva, é confrontar as teorias e leituras de um autor com aquilo que ocorre no cotidiano do meu país, da minha cidade, do meu bairro.

Em Paulo Freire, não existe ensino de cima para baixo – do tipo, “eu sei, você não sabe, então cala a boca”.

Ao estudar o educador brasileiro, nem mesmo os autores consagrados são autoridades absolutas. Ler as ideias deles, memorizá-las e reproduzi-las é o mesmo que manter-se alienado.

Na perspectiva de Paulo Freire, tudo que estudamos objetiva permitir que nos arrisquemos a pensar por nós mesmos!

Fantástico? Já imaginou se a escola brasileira fosse assim?

Pode ter certeza, meu caro ouvinte, nossa educação falha não é pela presença de Paulo Freire em sala de aula; falha pela ausência das práticas pedagógicas propostas pelo educador.

Aprendendo com Paulo Freire: somos condicionados, mas não determinados

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A leitura de Paulo Freire nos leva a sonhar com a liberdade, com a autonomia, com a possibilidade de cada pessoa escrever sua própria história.

Paulo Freire não propôs uma educação para atender o mundo das máquinas, das tecnologias, para levar as pessoas a ganharem dinheiro. O propósito dele era fazer da educação uma ferramenta de desenvolvimento do ser.

A educação para a liberdade… A educação para a felicidade.

Tem uma frase dele que é maravilhosa. Ele disse que “somos seres condicionados mas não determinados”.

Freire afirma isso em oposição a ideia de que a genética, a cultura, as condições sociais e econômicas, a história determinariam quem somos.

Na opinião de Paulo Freire, é evidente que todos esses elementos condicionam nossa vida. Ou seja, participam de nossa formação e criam barreiras que podem impedir nosso desenvolvimento.

Entretanto, condicionar não é determinar. Não significa que, se nasci num certo ambiente, serei exatamente igual as pessoas que ali estão. Tampouco significa que minha genética vai determinar quem serei.

Todos estamos submetidos aos condicionamentos genéticos, culturais e sociais. Mas ainda assim podemos escrever nossa própria história. E a educação é a ferramenta mais poderosa para abrir novos caminhos, novas possibilidades de ser.

Paulo Freire afirma: “a história é um tempo de possibilidades e não de determinismo”. O futuro está aberto… Nós podemos construí-lo.

Em Paulo Freire, não há lugar para o fatalismo, para a desesperança. E a educação é este lugar de construção dos sonhos, de superação das ideologias que nos apequenam, que nos tornam meras peças de um jogo em que o final já está decidido.

Aprendendo com Paulo Freire: três lições

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A atualidade do pensamento de Paulo Freire está diretamente relacionada à capacidade do educador de compreender que o ensino precisa vincular-se à realidade das pessoas. Ou seja, os métodos e conteúdos devem dialogar com o que o aprendiz vive aqui e agora. Não existe em Paulo Freire uma receita, uma forma única de fazer educação. Faz-se educação partindo-se do mundo real, das experiências do professor e do aluno.

Outro aspecto que assegura a atualidade do pensamento de Paulo Freire é a importância dada à associação entre teoria e prática.

Ele afirma:

“A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação teoria/prática sem a qual a teoria pode ir virando blablablá e a prática, ativismo”.

Confesso que quando leio isso e lembro dos críticos de Paulo Freire, tenho o desejo de questionar: cara, você não consegue ver o quanto as ideias dele são sensatas?

Veja só, caro amigo, o primeiro aspecto que emerge dessa afirmação de Paulo Freire é que toda teoria sem aplicação prática é vazia. Note, qual é uma das constantes críticas feitas pelos alunos ao que acontece em sala de aula? O ensino da teoria sem a prática.

Muito do que se ensina na escola não é aprendido porque o aluno não consegue relacionar ao mundo da vida, ao que se experimenta nas práticas cotidianas. São teorias vazias. Ou, como diz Paulo Freire, uma teoria sem prática acaba virando blablablá.

Por outro, práticas sem teorias não passam de ativismo. Quando não existe uma teoria para embasar as práticas, corre-se o risco de fazer sempre as mesmas coisas sem desenvolvimento, sem crescimento. A teoria permite o repensar constante das práticas, levando à ações inovadoras.

Um terceiro e último aspecto da afirmação de Freire é que ele sustenta a necessidade de uma reflexão crítica nessa relação teoria/prática.

O que isso quer dizer? Quer dizer que, mesmo havendo a associação entre teoria e prática, é fundamental sustentar uma atitude crítica desse processo. Quando se reflete criticamente sobre teoria e prática, é possível notar os acertos e equívocos. Isso permite inclusive a revisão ou mesmo o abandono de determinadas teorias e práticas.

Afinal, a vida é movimento. E ensino e aprendizagem devem vincular-se ao mundo real, inclusive com suas contradições.

Aprendendo com Paulo Freire: não falamos do que desconhecemos

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A beleza do pensamento de Paulo Freire se revela ao longo da leitura de cada uma de suas obras. Embora criticado por algumas pessoas, o educador brasileiro deixou como legado um modo ético de fazer educação. Mais que isso, diria, deixou-nos orientações preciosas sobre como viver bem. No texto de hoje sobre Paulo Freire, falo sobre qual seria a atitude ética de quem se propõe a criticar algo, alguém ou mesmo uma ideia.

Segundo o educador brasileiro, não se pode basear uma crítica numa leitura superficial, nas primeiras impressões que temos.

Claro que, quando Paulo Freire tratou disso em “Pedagogia da Autonomia”, mencionava especificamente o comportamento do professor.

Freire ressaltou que o professor não pode basear a “crítica a um autor na leitura feita por cima de uma ou outra de suas obras”. Tampouco teria o direito de sustentar seus argumentos tendo como referência outras pessoas, gente que talvez só tenha lido “a contracapa de um de seus livros”.

Essa orientação de Paulo Freire é maravilhosa. Chega a ser bíblica. A gente não fala do que não conhece. A gente não fala do que supostamente conhece apenas pelo olhar dos outros. A gente só fala quando conhece de verdade. E conhecer de fato implica em envolver-se, aprofundar-se, conviver, observar…

A gente pode até não gostar, não concordar com a ideia… Mas a gente não critica sem conhecer.

Falando especificamente da Educação, o pensador afirmou que o professor não pode mentir. “O preparo científico do professor ou da professora deve coincidir com sua retidão ética.”

Não é lindo isso? E não seria fantástico se na escola e fora dela baseássemos nossas falas apenas naquilo que de fato conhecemos, sem distorções, sem mentiras?