Aprendendo com Paulo Freire: não sou dono da verdade

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O professor Paulo Freire foi um educador brilhante. O mundo da educação segue aprendendo com seus ensinos. E não apenas o mundo da educação. Paulo Freire pensava a educação tendo como referência a própria pessoa e a sociedade em que ela vive. Por isso, quando lemos as obras desse grande professor, temos ensinos para a vida.

Ainda ontem, ao reler alguns de seus textos, encontrei um pensamento que compartilho por aqui. O educador sustentava a importância de marcarmos nossas posições, mas de respeitarmos as posições dos outros.

Disse ele:

Se de um lado não posso me adaptar ou me “converter” ao saber ingênuo dos grupos populares, de outro, não posso, se realmente progressista, impôr-lhes arrogantemente o meu saber como verdadeiro.

Lindo isso, né?

Paulo Freire sustenta aqui uma de suas práticas de vida. Afirma que não pode simplesmente se adaptar ou se converter a um tipo de saber que ele considera ingênuo, vazio, desconectado da realidade. Entretanto, o educador lembra que, se ele é realmente um sujeito progressista, não pode impor o saber dele como verdadeiro.

Essa é a essência do pensamento democrático progressista: marcar seu posicionamento, mas nunca impor o seu saber como sendo a verdade. É necessário respeitar o saber alheio, ainda que seja ingênuo ou se tenha provas que o outro esteja errado.

Noutras palavras, eu não devo me adaptar e nem me converter ao outro, mas não me porto como sendo o dono da verdade e nem obrigo a outra pessoa a aceitar o que eu penso.

Já pensou como seria maravilhoso se todos nós reproduzíssemos essa máxima de Paulo Freire? Nossas relações seriam pacíficas, baseadas no respeito e na tolerância.

Você se conhece?

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A jornada para o conhecimento de si é desafiadora. É necessário empenhar tempo em contemplar a si mesmo na busca por compreender quem sou.

Nesse fim de semana, participei de um seminário para casais. O especialista responsável pelas palestras propôs algumas atividades. Entre elas, perguntas aparentemente simples, mas que fizeram todos se demorarem na busca por respostas.

E quais perguntas eram essas? As perguntas mais difíceis eram aquelas que diziam respeito a quem somos – o que realmente gostamos, queremos, sonhamos, nossas virtudes e fraquezas.

Pouco nos conhecemos.

Na antiguidade, os gregos davam muito valor ao autoconhecimento. O filósofo Sócrates se tornou conhecido pela frase “conhece-te a ti mesmo”. Platão ia além…Ressaltava que um homem não poderia governar uma cidade enquanto não fosse capaz de governar a si mesmo. Por isso, sustentava que ninguém antes dos 50 anos estaria pronto para ser o governante de um povo.

Nós, em nossa cultura superficial, não apenas desconhecemos o mundo; pouco sabemos sobre nós mesmos. E por não sabermos quem de fato somos, vivemos uma vida vazia; falta-nos um propósito. Muitos de nós estamos doentes, doentes emocionais. Sofremos com angústia, ansiedade, medo, pânico…
Investir em conhecer a si mesmo é o primeiro e mais importante passo para o cuidado de si. Nenhuma conquista é mais importante que saber quem sou, o que me realiza, o que me faz feliz.

Paulo Freire é inimigo do Brasil?

Pelo menos para parcela da elite política brasileira, Paulo Freire é sim um inimigo do Brasil. O autor deveria ser banido nas salas de aula. Não poderia ser utilizado em hipótese alguma como inspiração de práticas educacionais. Mas por que isso acontece?

Falo sobre isso neste vídeo!

Apresento algumas ideias do autor e, em seguida, listo as três principais razões que motivam a perseguição a Paulo Freire.

A urgência do ensino da leitura

Tenho defendido a urgência do ensino da leitura, de práticas que permitam a alfabetização plena, o desenvolvimento de habilidades de interpretação de um texto.

Nenhum outro aprendizado ocorre de maneira efetiva sem que a pessoa tenha capacidade de plena de ler e interpretar um texto.

Vejamos… Se um tenho nas mãos um livro de História do Brasil e não sou um leitor proficiente, certamente não vou entender tudo que o autor ou a autora relataram. Não se trata de falta de inteligência; trata-se de falta de habilidade para compreender o texto.

Vale a mesma regra para textos da Geografia, Matemática, Biologia… E também da Literatura.

É fato que um texto científico reúne conceitos que, por vezes, são desconhecidos. Mesmo uma pessoa plenamente alfabetizada encontrará dificuldades para interpretá-lo de maneira adequada. Será necessária uma leitura atenta, talvez ler duas ou três vezes, buscar textos de apoio, de comentadores daquele autor, para que haja a compreensão.

Esse movimento de busca de compreensão de um texto científico é normal. Quando a gente não tem conhecimento prévio dos conceitos abordados na obra, é impossível ler uma única vez e já saber o que foi discutido.

Entretanto, as leituras cotidianas – uma reportagem, por exemplo – deveriam ser simples para a maioria de nós. E, lamentavelmente, muita gente até acha que leu e entendeu. Porém, quando você pergunta para a pessoa sobre o fato central ou a respeito das principais ideias, é possível perceber equívocos na leitura, erros de interpretação que motivam uma visão deturpada do que estava escrito.

Portanto, a urgência do ensino da leitura objetiva preparar pessoas que possam compreender plenamente os relatos mais variados e tenham a possibilidade de, efetivamente, interpretarem os acontecimentos do cotidiano e até mesmo acessarem o conhecimento teórico e científico sem leituras enviesadas. Afinal, o conhecimento só é possível se os parâmetros básicos para a leitura das informações estiverem corretos.

Por que a gente tem dificuldade para mudar comportamentos?

Sabe por que a gente tem dificuldade para mudar comportamentos? Porque espera ter vontade.

Durante o fim de semana, decidimos começar a dieta na segunda-feira. Chega a segunda, um amigo convida pra almoçar naquele restaurante bacana… No fim da tarde, tem um bolinho de aniversário pra uma colega do escritório… Lá se vai o início da dieta.

Em dezembro, decidimos que vamos fazer um curso no ano novo. Fazemos planos… Sonhamos. Mas chega o ano novo e nos sentimos cansados. Não conseguimos fazer quase nada do que planejamos.

Por que isso acontece?

Porque esperamos que a decisão venha acompanhada da vontade de fazer.

A gente acha que o simples fato de tomarmos uma decisão racionalmente será suficiente para despertar em nós a vontade de colocar tudo em prática.

Infelizmente, não funciona assim.

Eu faço exercícios físicos regularmente 3 ou 4 vezes por semana. Tem gente que comenta: “você gosta de academia, né?”. Não, gente… Não gosto! Eu faço, porque entendo que preciso me exercitar. Depois de anos me exercitando, já tenho o hábito. Mas, se dependesse da vontade, ficaria mais tempo na cama.

Nosso cérebro manda informações para o nosso corpo baseadas nas coisas que nos dão prazer.

Por isso, diante uma mesa farta, não dá para contar com a vontade. O corpo vai dizer “coma tudo que puder”. A decisão de não comer terá que ser racional. Será um esforço grande, vai consumir bastante energia…

Vale o mesmo para todas as outras decisões que tomamos. Para que saiam dos planos e se tornem realizações, será necessário contrariar as próprias vontades. O corpo vai dizer “estou cansado”, “não quero” e você terá que agir contrariando tudo isso.

Três efeitos nocivos do perfeccionismo

Em entrevistas de emprego, o perfeccionismo talvez seja uma das poucas coisas que as pessoas citam como defeito. Afinal, na prática, ser perfeccionista não parece algo ruim. Gente perfeccionista é gente intolerante ao erro; logo, não deve ser ruim contar com pessoas assim numa empresa, por exemplo.

Entretanto, diferente do que muita gente pensa, o perfeccionismo é um problema. Primeiro, causa enorme sofrimento em quem tem essa característica. Segundo, causa dificuldades de relacionamento. E, por fim, impede a pessoa de arriscar, de ousar, de inovar. O perfeccionismo trava as pessoas.

Ah… Deixa eu abrir um parênteses aqui: ser perfeccionista é bem diferente de ser e estar comprometido com o que faz. Gente comprometida com o trabalho, com os relacionamentos, com a vida… é gente que busca acertar sempre; é gente que, em que tudo, busca fazer o melhor.

O perfeccionista também parece comprometido, mas seu comprometimento não tem a ver com uma escolha em dar o melhor de si. É algo mais forte que a pessoa; é um sentimento que a controla e que causa enorme sofrimento. O perfeccionista gasta todas as energias sendo meticuloso com detalhes… Está sempre inseguro, não confia em si mesmo. Nada está perfeito para o perfeccionista. Por isso, é alguém que pode desenvolver um sério problema de autoestima.

O perfeccionista também não dá conta de ter bons relacionamentos. Trata-se de alguém tão rigoroso consigo mesmo que desenvolve intolerância ao comportamento alheio.

Por fim, o perfeccionista, sempre insatisfeito com o que faz, não dá conta de ousar, de inovar. O perfeccionista só se sente seguro fazendo as coisas sempre do mesmo jeito. Não aceita os riscos. Seu medo o impede de experimentar o novo. É o tipo de pessoa que sabota a própria vida e tenta impedir quem está próximo de viver de forma criativa.

Por isso, embora seja desejável que todos nós busquemos a excelência em tudo que fazemos, a perfeição é utópica. E o perfeccionismo é um modo doentio de viver. Pessoas perfeccionistas precisam de ajuda. Do contrário, serão infelizes e causarão sofrimento não apenas a si mesmas.

Ouça o texto em podcast:

Nem todo esforço terá as recompensas esperadas

Ilude-se quem acredita que todo esforço será recompensado com a vitória desejada. Haverá ocasiões nas quais trabalharemos muito para realizar um determinado projeto e não teremos resultado.

Eu acredito plenamente que vale a pena esforçar-se, empenhar-se totalmente num projeto, numa tarefa, num sonho pessoal. Também acredito que sempre vale a pena plantar boas sementes na caminha da vida. Mas isso não significa que todas as vezes que faço coisas boas, recebo coisas boas. Tampouco significa que todo investimento em um projeto vai resultar naquilo que eu esperava.

Existem pessoas de coração bom, amável, generoso… Gente que vive dignamente e parece incapaz de ser injusta. Ainda assim, não raras vezes essas pessoas recebem coisas ruins do mundo. Por outro, tem gente que é mau carácter, que age de maneira negativa e se dá bem.

Vale o mesmo para nossos projetos. Às vezes, investe-se muita energia, dinheiro… Tudo foi feito com planejamento, organização, cooperação… E dá errado. Enquanto isso, tem gente que parece conquistar tudo de “mão beijada”.

É fato, nem sempre há justiça.

Porém, eu ainda acredito que todo esforço empenhado com ética, honestidade vale a pena. Acredito sim que todo bom esforço não é vão.

– Como assim, Ronaldo?; talvez você diga. – Você acabou de dizer que nem sempre há justiça.

É verdade. Não há garantia de que dará tudo certo para quem faz as coisas certas.

Mas o empenho nunca será vão. Quando nos esforçamos e os resultados não aparecem, ainda assim, olhamos para traz e sabemos que fizemos o melhor, sem atropelarmos ninguém, sem magoarmos as pessoas. Essa é uma forma de recompensa: estar em paz.

Há outra recompensa: enquanto nos esforçamos, vamos nos relacionando com as pessoas; estando sendo somos observados. Quem está ao nosso lado sabe quem somos. Talvez não tenha dado certo o que queríamos, mas o percurso que fizemos não fica vazio. Colhemos amizades sinceras, ajuda, reconhecimento… E o aprendizado adquirido nos pertence. É nosso!

Essas coisas asseguram o que precisamos para novos sonhos, novos projetos e para vivermos uma boa vida.

Afinal, embora a ideia seja um tanto clichê, resume uma importante verdade: o maior fracassado não é quem nunca perdeu; fracassado é quem nunca lutou.