Aprendendo com Paulo Freire: ensinar não é transferir conhecimento

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A educação brasileira nunca adotou Paulo Freire como um referencial para as práticas pedagógicas. Primeiro, porque o pensamento do autor não inspirou efetivamente as leis que norteiam as políticas de educação implementadas por estados e municípios. Segundo, porque Paulo Freire não é efetivamente estudado nos cursos de licenciatura. A maioria dos professores conhece apenas fragmentos do pensamento do educador, mas nunca houve uma tentativa de tê-lo como fonte inspiradora. Terceiro, porque para fazer educação como Paulo Freire propôs, é preciso ir além dos métodos; é necessário incorporar uma outra maneira, altruísta, de agir e se relacionar com as pessoas e com o próprio mundo.

E é exemplificando este aspecto que vou desenvolver este artigo.

De acordo com Paulo Freire, quem ensina deve “saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.”

Esta é uma das teses centrais do educador. Talvez a mais desafiadora. Ela exige uma mudança de postura em quem ensina; demanda a compreensão que o conhecimento não é um objeto qualquer que você, ao entregar ao outro, continua sendo o mesmo objeto.

Veja como é difícil… Vamos pensar numa situação familiar, doméstica.

Quando eu ensino meu filho a organizar o quarto dele, geralmente tento fazer com que ele reproduza a minha noção de organização. A organização dele deve se assemelhar a minha. A forma de organizar o quarto também deve ser como eu organizaria. Mais que isso, se meu filho questiona a lógica da organização, a própria necessidade de organização, é possível que eu me irrite e responda de forma imperativa que devem ser assim e pronto.

E como funciona com Paulo Freire? Na proposta do autor brasileiro, eu não transfiro um conhecimento, eu possibilito que o aluno – ou meu filho – produza, construa o conhecimento. Há um espaço de liberdade para as indagações, curiosidades e até questionamentos.

É isso que acontece em sala de aula? Frequentemente não. O que são os livros didáticos, por exemplo? A prática de um modelo em que o professor reproduz um saber, sem espaço para a criatividade dele, e tampouco há o respeito ao ritmo e à realidade do aluno. Não são raros os exemplos usados em livros didáticos para ilustrar determinadas lições que são desconhecidos pelas crianças.

Na universidade isso é diferente? Não. Por que hoje temos tanta polêmica envolvendo o ensino superior? Porque existem professores que abrem um texto de Karl Marx, por exemplo, e transformam o sociólogo no único referencial, única autoridade para explicar o capitalismo. E se o aluno questionar, pode ser alvo de respostas irritadas do professor.

E eu cito Marx, mas poderia mencionar outros nomes. Nas universidades, há seguidores fiéis de inúmeros pensadores, filósofos etc. São professores que transformaram suas referências de leituras em guias, quase de forma dogmática.

Sabe o que isso significa? Significa que não tem Paulo Freire nas práticas pedagógicas desses professores.

Paulo Freire sustenta a necessidade de permitir que o aluno problematize, discuta e construa o conhecimento dele; não é o meu conhecimento, não é do jeito que entendo, não é do meu autor preferido. Noutras palavras, o meu conhecimento não pode se impor.

O pensador comenta que essa postura é muito difícil, às vezes, penosa. Ela contraria as nossas tendências, a nossa vontade de fazer com o que o outro reproduza as coisas do meu jeito.

Paulo Freire diz que o professor deve manter uma vigilância constante sobre si próprio para evitar os simplismos, as facilidades, as incoerências grosseiras… Por isso, é um processo cansativo, admite Freire. Ainda assim, sustenta, viver a humildade de reconhecer o próprio equívoco é condição indispensável para ser educador.

E Paulo Freire vai além. Ele diz que, se eu não gosto de alguém, se tem uma pessoa que me desagrade demais, não posso desprezá-la. O educador sustenta que não posso permitir que a raiva que sinto de uma pessoa me leve a “raivosidade que gera um pensar errado e falso”.

Para Paulo Freire, isso não cabe nas práticas de um educador. O educador não pode, com um discurso cheio de si mesmo, decretar a incompetência absoluta de alguém, minimizar, destratar.

Você já viu isso acontecer em sala de aula? Quem sabe até num vídeo circulando nas redes? Talvez um professor ou professora destratando ou ofendendo alguma pessoa, quem sabe até um político, em nome daquilo que acha ser o certo? Pois é… Isso acontece porque Paulo Freire não faz parte das práticas pedagógicas da maioria de nossos professores. Tampouco está presente nas políticas educacionais do país.

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