É tolerável que um professor ridicularize os conhecimentos de um aluno?

Este é mais um texto da Série “Aprendendo com Paulo Freire”.

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É tolerável que um professor ridicularize os conhecimentos de um aluno? Poderia, talvez, fazer piada com alguma característica física ou mesmo sotaque de uma pessoa?

O mais importante educador brasileiro, Paulo Freire, é radical quanto a esse tipo de comportamento. De acordo com ele, ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando – seja criança, jovem ou adulto. Nada justifica que o educador se coloque num lugar superior, como sendo maior, mais importante que o educando.

Freire sustenta: “o respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros”.

A declaração de Paulo Freire é belíssima. Note, o respeito à autonomia e à dignidade é um imperativo ético; não há exceções, condicionamentos. É dever, obrigação de todo educador. O pensador nos coloca diante de grande importância: o educando deve ser visto como um igual, um ser que possui os mesmos direitos e deveres que o educador. Nada que o educador possua – sua fama, títulos, livros publicados etc. – justifica qualquer atitude rude ou agressividade verbal, tampouco dá ao professor o direito de atacar ou desqualificar os saberes e/ou crenças que o educando possui.

Lamentavelmente, há professores que, embasados em suas teorias, atacam alunos por seus posicionamentos. Existem relatos, por exemplo, de ironias e piadas com as crenças religiosas de alunos. Há informações conhecidas de alguns que se sentiram ridicularizados por professores em salas de aula de universidades em função da fé que possuem. E esse é só um exemplo. Para Paulo Freire, esse tipo de atitude é um desvio ético, uma transgressão ao compromisso de educar.

Segundo Paulo Freire, o professor falha em seu papel quando “desrespeita a curiosidade do educando, o seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem, mais precisamente, a sua sintaxe e a sua prosódia”. Ou seja, nenhuma característica do aluno, inclusive relacionadas à cultura ao gosto estético, justificam atitudes de ironia, risos, piadas…

Entretanto, Paulo Freire vai além. Ele diz que “o professor que ironiza o aluno, que o minimiza, que manda que ‘ele se ponha em seu lugar’ ao mais tênue sinal de sua rebeldia legítima, tanto quanto o professor que se exime do cumprimento de seu dever de propor limites à liberdade do aluno, que se furta ao dever de ensinar, de estar respeitosamente presente à experiência formadora do educando, transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência”.

Observe, caro leitor, que até mesmo os questionamentos mais atrevidos devem ser acolhidos pelo professor. A suposta rebeldia não lhe dá o direito de ridicularizar ou desrespeitar as crenças que o aluno possui.

Ao abordar sobre o respeito à autonomia do ser, Paulo Freire ainda trata da discriminação. Segundo ele, “qualquer discriminação é imoral e lutar contra ela é um dever por mais que se reconheça a força dos condicionamentos a enfrentar”. Discriminações de raça, do homem em relação à mulher e até mesmo econômicas são imorais e não combinam com a educação. Por isso, além de não ser um agente de discriminação, é papel do educador combater toda e qualquer forma de discriminação dentro e fora da sala de aula.