Ensinar exige curiosidade

Este é o 18o texto da série Aprendendo com Paulo Freire.

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Meu encantamento por Paulo Freire se deve à beleza de seu pensamento. Semanas atrás, ao tratar em sala de aula sobre como o conhecimento é produzido, um aluno levantou a mão e disse:

  • Professor, partindo dessa ideia, tenho a impressão que a escola brasileira nunca ensinou de fato. Afinal, os conteúdos oferecidos quase nunca têm conexão com a realidade dos alunos. Há uma distância enorme entre o que é ensinado e o que as crianças vivem no dia a dia delas.

O comentário desse futuro jornalista foi certeiro. A beleza e simplicidade do pensamento de Paulo Freire não estão presentes como prática pedagógica na escola brasileira. E sabe por quê? Porque não dá para sistematizá-lo em procedimentos padrões que possam ser repetidos por todos os professores. Educar, tendo Paulo Freire como referência, é viver a educação como uma filosofia de vida em que há espaço para a luta, para a esperança, para o respeito ao indivíduo e para o contínuo encantamento pela diversidade de saberes e ideias.

Veja, por exemplo, o tema de hoje de nossa conversa: ensinar exige curiosidade. Em princípio, esse pressuposto parece bem básico. Afinal, sem curiosidade não há aprendizado. E o professor que não está aprendendo todos os dias não é um bom educador. A vida é movimento. E aprender sempre é quase uma obrigação.

Entretanto, a curiosidade sobre a qual Paulo Freire fala vai além da simples vontade de descobrir mais. Observe o que ele diz:

“Nenhuma curiosidade se sustenta eticamente no exercício da negação da outra curiosidade”.

Aqui fica claro que, na perspectiva freireana, educar não significa impor um pensamento. Enquanto eu me movimento pela descoberta do novo não posso negar ao outro o direito de descobrir de outra maneira, também a respeito de outras coisas, de outros saberes. Ou seja, não posso impor a minha curiosidade sobre a outra pessoa.

Veja o que ele também afirma: “A curiosidade que silencia a outra se nega a si mesma também”.

Lindo, né? Lindo e, por sua simplicidade, torna-se complexo de viver e praticar.

Professor e alunos devem se assumir curiosos. E uma curiosidade que permita a abertura para todos os saberes, sem julgamentos prévios, preconceitos, rejeições…

Não há em Paulo Freire lugar para verdades prontas – sejam elas filosóficas, políticas, científicas etc. O educador que deseja ensinar tendo as ideias dele como referência deve estar constantemente aberto ao questionamento, a dúvida. Tendo como parâmetro a ética e o bom senso, deve permanecer curioso em aprender, sem negar o valor de nenhum tipo de saber.