Mudanças podem ser oportunidades para vivermos coisas novas

O que você me diz? Gosta de mudanças?

Muita gente diz que gosta, mas, na prática, é bastante resistente às mudanças.

Quando a pessoa responde a pergunta sobre gostar de mudanças, geralmente responde projetando coisas boas, maravilhosas. Responde pensando em mudanças que ela deseja viver, experimentar.

Talvez seja o sonho de uma casa com piscina, um emprego numa empresa que ela vem batalhando há muitos anos por uma oportunidade, a chance de uma cirurgia plástica…

Enfim, todo mundo gosta das mudanças que estão no próprio imaginário, como sonhos, desejos.

Mas essas mudanças não acontecem sempre. E, mesmo quando acontecem, geralmente não são como imaginávamos. Por isso, frequentemente, causam bastante frustração.

Na prática, o tipo de mudança que realmente ocorre com a gente, não nos agrada nenhum pouco. E isso acontece porque nosso cérebro sente-se mais confortável com o que é conhecido.

Esta é a razão de raramente fazermos percursos diferentes para o nosso trabalho (a gente vai sempre pelos mesmos caminhos), também é o motivo de termos um ou dois supermercados de preferência, farmácia, posto de gasolina, loja de roupas, calçados…

Até mesmo para as compras na internet, temos as nossas lojas, aquelas que são nossas preferidas.

No trabalho, a maioria não curte mudar de função toda hora, mudar de horário, mudar de local… Tem gente que se irrita só com a ideia de alguém mexer na sua mesa.

Ou seja, as mudanças quase sempre incomodam.

E incomodam porque, primeiro, nosso cérebro gosta do já conhecido e, segundo, porque parte das mudanças são acontecem por escolha nossa.

Frequentemente, as grandes mudanças ocorrem por fatos que se impõem, que atropelam tudo que estamos acostumados, ou que havíamos planejado, sonhado.

A perda de um emprego, por exemplo, provoca uma profunda mudança. E essa é uma mudança que, enquanto uma nova oportunidade não aparece, nos deixa no vazio, no campo das incertezas. Não tem como se sentir bem tendo a vida financeira totalmente indefinida.

Esta semana, vi a notícia de uma jovem mãe que já tem duas crianças. Agora, ela está grávida de novo. E está grávida de quíntuplos. Ou seja, estão chegando mais cinco crianças.

Filhos são vida? São. Quíntuplos é algo uau? De tirar o fôlego? Claro que sim. Mas essa mãe confessou à reportagem, está se sentindo bastante desorientada por enquanto. Afinal, como será a vida dela com sete crianças? Uma coisa é uma mãe que tinha seis filhos e chegou o sétimo. Outra bem diferente é ter duas crianças e chegarem mais cinco de uma única vez.

Loucura, não é verdade? Mega mudança.

Mas, gente, eu tenho tentado enfrentar as mudanças que enfrento com serenidade. E, para isso, sempre digo a mim mesmo: as mudanças podem ser oportunidades para fazermos e vivermos coisas novas.

Às vezes, alguns velhos hábitos, coisas com as quais nos acostumamos, podem até não nos incomodar. Porém, nos impedem de viver algo realmente diferente.

Por isso, minha dica pra você hoje é: quando acontecer um fato que vai desencadear mudanças em sua vida, não se desespere. Olhe para a situação com serenidade e fé. Peça a Deus sabedoria para que você aproveite a situação para construir algo realmente diferente e que poderá te proporcionar um novo momento em sua vida, verdadeiramente abençoado.

Mudanças nos desestabilizam, mas são oportunidades de construir uma nova história.

O amor e os relacionamentos em tempos líquidos

Um dos sociólogos que está na minha lista de leituras preferidas é o polonês Zygmunt Bauman. Já estudei várias de suas obras e elas fazem parte de conteúdos riquíssimos que trabalho com meus alunos na faculdade.

Autor da ideia de que vivemos numa sociedade líquido-moderna, Bauman também afirma que os amores se tornaram líquidos.

O que isso significa? Primeiro, uma sociedade líquido-moderna é aquela que tudo é fluído, não existe nada estável, a segurança e as certezas se perderam. Noutras palavras, significa que o jeito que se vive hoje já não tem mais nada a ver com o que viviam nossos pais. Significa que ninguém mais tem garantia alguma que o certo de hoje ainda será certo amanhã. E, nomeie diz respeito ao amor e aos relacionamentos, a lógica se reproduz: nenhuma promessa de amor eterno é confiável. O eterno se tornou “eterno enquanto dure” ou eterno até que apareça alguém aparentemente mais interessante.

As pessoas entram hoje numa relação para saírem dela em algumas semanas ou meses. Um relacionamento duradouro, do tipo “até que a morte nos separe”, parece estar fora de moda. As se apaixonam para se desapaixonarem diante dos primeiros desconfortos.

Bauman não defende esse modo de vida liquido-moderno. O sociólogo, como leitor do mundo em que vivemos, observou o comportamento da sociedade e chegou a essas conclusões relatando-as em suas obras.

Para ele, os prejuízos desse modo de vida são evidentes. As pessoas estão insatisfeitas, infelizes e isso pode ser observado nos consultórios de psicólogos, psiquiatras, também nos gabinetes pastorais, de padres e pessoas que se tornaram especialistas em aconselhamento.

Bauman cita que os relacionamentos estão hoje entre os principais motores da indústria do aconselhamento.

Por outro lado, a literatura, principalmente midiática, ensina um tipo de “relacionamento de bolso”, que se pode dispor quando necessário e depois tornar a guardar. Os textos de comportamentos em sites, blogs e também os modelos de relacionamento em séries, novelas, filmes sugerem que relacionamento bom é aquele que atende os desejos, que é conveniente… Se deixa de ser conveniente, descarta-se.

Com isso, pouca gente entra numa relação comprometido em fazer dar certo. A pessoa começa se protegendo de futuras mágoas, decepções e, com isso, o outro é candidato a tornar-se um adversário a qualquer momento. A parceria não existe. Não existe pacto por fazer dar certo. Cada um olha a relação a partir de seus próprios interesses.

O discurso que impera nesses conteúdos midiáticos é que o compromisso, em particular o compromisso a longo prazo, é a maior armadilha a ser evitada.

Hoje, segundo Bauman, parece que o tipo de conselho mais desejado é: como estabelecer um relacionamento ou – só por precaução – como rompê-lo sem dor e com a consciência limpa?

Sem a possibilidade (ou o desejo) de relacionamentos de qualidade, tende-se a buscar a desforra na quantidade. As pessoas acumulam histórias de relacionamentos, substituindo pessoas sem criar vínculos.

A repetição de inúmeras experiências “amorosas” não permite o conhecimento do amor; na verdade, tem promovido o “desaprendizado do amor”.

Entretanto, amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas, em que o medo se funde à felicidade de dividir a vida com alguém, num ato de doação, de entrega, de renúncia do próprio eu para a construção do nós.

Como afirma o psicanalista Erich Fromm, a satisfação no amor não pode ser atingida… sem a humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeira.

A nossa fé autoriza sermos desagradáveis com outras pessoas?

Num episódio recente, perguntei: conviver com você é uma experiência agradável para as outras pessoas?

Afinal, a gente espera muito dos outros, mas até que ponto somos pessoas que tornam alegradores os momentos que os outros estão conosco?

A reflexão sobre isso é fundamental. A gente enxerga as chatices dos outros, mas não enxerga as nossas.

Diante da argumentação que apresentei, uma ouvinte me mandou recado:

Eu não sou agradável porque não faço o que os outros querem e sim a vontade de Deus.

Tentei argumentar com ela. Mas ela usou a morte de Jesus como justificativa para dizer que as pessoas não gostavam dele e que cristãos não são agradáveis no relacionamento com os outros, porque possuem uma postura que não combina com o mundo.

Eu não insisti. Optei por não perder uma ouvinte dos meus conteúdos.

Entretanto, fiquei pensando: será que outras pessoas pensam assim? Será que a nossa fé nos autoriza sermos desagraveis com as outras pessoas?

Eu não acredito nisso!

É fato que Jesus foi perseguido e morto. Mas também é verdade que as pessoas queriam estar próximas dele. Muita gente sentia prazer em estar com ele. Havia sim um certo grau de interesse nessa relação: pessoas queriam milagres, curas, libertação. Mas muita gente estava com Ele para ouvi-lo.

Num tempo em que as crianças não eram nada na sociedade, não tinham valor algum, elas gostavam de estar com Jesus, queriam a companhia dEle.

Além disso, a companhia de Cristo era tão desejada que cobradores de impostos corruptos, prostitutas, gente cheia de problemas, gostava de ficar com Ele.

Ou seja, a santidade de Jesus não o separava das pessoas; a santidade de Jesus não tornava a companhia dele pesada, desagradável.

Jesus não ficava censurando as pessoas. Jesus não era rabugento, chato. Nem por isso, Jesus fazia o que faziam as pessoas pecadoras, cheias de problema.

E aqui está um princípio fundamental: nossa fé deve ser instrumento de atração das pessoas e não de afastamento das pessoas.

Não é porque não vivo o que outras pessoas vivem que minha presença deve se tornar desagradável.

É um erro absurdo achar que a nossa fé nos impede de sorrir, de brincar, de contar e ouvir histórias, de fazer piada com os outros. Nossa fé não pode ser instrumento de julgamento, de militância moralista.

Nossa fé precisa ser instrumento de amor, de acolhimento, de perdão, de palavras doces, suaves. Nossa fé deve servir para motivar, para animar, para espalhar esperança.

Quem não gosta de estar com alguém que ama de verdade, que não julga, que tem sempre um sorriso acolhedor no rosto, que fala de maneira gentil?

Se minha fé afasta as pessoas, existe um problema no meu cristianismo.

A maneira como vivemos deve atrair pessoas. Nunca afastá-las.

Se minha companhia, em função da fé, faz com que ninguém queira estar comigo, preciso rever os meus conceitos e minha maneira de viver a experiência cristã.

Os cristãos são o Cristo na terra.

É fato que nunca agradaremos todas as pessoas. Também é fato que algumas pessoas vão nos rejeitar e até perseguir em função da nossa fé.

Mas nós não devemos ser os agentes causadores do afastamento. O fato de querer viver uma vida correta não justifica ser sisudo, pessimista, alarmista, tampouco nos dá direito de apontar os erros dos outros, censurar suas falhas.

Quando Jesus se ofereceu para estar na casa de Zaqueu, você não vê ali o Mestre falando dos defeitos dele, dos anos de corrupção. Jesus não diz: ei, eu vim na sua casa, mas agora vê se toma vergonha nada cara e muda de vida.

Nada disso. É pelo gentil e espontâneo do mestre, de se oferecer para estar na casa de Zaqueu, sem julgá-lo, sem avaliar o passado dele, é por essa atitude cheia de amor e graça que aquele publicano abraça a fé e se dispõe a repara todos os seus erros passados cometidos contra seus irmãos israelitas.

Portanto, volto a perguntar: conviver com você é uma experiência agradável para as outras pessoas? Saiba que a fé deve ser instrumento de atração, de beleza, de encantamento, de leveza.

A pandemia e a desigualdade na educação

A pandemia aprofundou um problema que há décadas tem sido negligenciado no Brasil: a desigualdade na educação. As crianças de origem pobre são vítimas duas vezes: da pobreza em si e das impossibilidades de acesso ao melhor da educação. Na pandemia, porém, a falta de recursos aprofundou o problema: muitas crianças, adolescentes e jovens não possuíam o mínimo necessário para acessar as aulas on-line.

Uma reportagem da BBC Brasil, que teve como referência uma pesquisa do instituto DataFolha, encomendada pela Fundação Lemann, Itaú Social e Banco Interamericano de Desenvolvimento, apresentou dados que nos ajudam a compreender um pouco a dimensão dessa desigualdade.

Segundo a pesquisa, mesmo depois de um ano e oito meses do início da pandemia e das aulas on-line, mais da metade dos alunos da rede pública ainda não tem computador com acesso à internet.

A pesquisa revelou que cerca de 85% dos alunos, que assistiam às aulas no sistema remoto, faziam isso pelo celular. Entretanto, em algumas famílias, o aparelho precisava ser dividido por até 3 pessoas. A falta de internet também foi e continua sendo uma realidade para muitos alunos.

Professores que atuam na rede pública e também em escolas particulares relataram à reportagem da BBC que, não raras vezes, nas aulas de escolas particulares contavam com cerca de 90% dos alunos presentes, já nas escolas públicas não era incomum passar a aula inteira sem a presença de um único aluno.

A desigualdade social e econômica também se revela na falta de acesso a determinados bens e serviços. Durante a pandemia, tornou-se fundamental ter computador, internet e um espaço adequado para estudar. Entretanto, essa não foi e não é a realidade de milhões de alunos pobres.

Mesmo no ensino superior, em instituições particulares, muitos alunos desistiram de seus cursos por não conseguirem acessar as aulas on-line. Recordo de uma aluna, que estava no terceiro ano de Jornalismo quando começou a pandemia. Ela pagava a faculdade com o dinheiro do estágio. Mas a família era muito pobre. Não tinha internet em casa. Então, a jovem não assistia as aulas como os colegas. Para ter acesso ao material gravado, durante o dia, ela procurava baixar o conteúdo quando estava num ambiente que tinha Wi-Fi. Entretanto, as semanas foram passando, a quantidade de aulas on-line foi aumentando e chegou um momento que a aluna teve que desistir. Não tinha como continuar. Ela não tinha como acompanhar.

O caso dessa jovem não foi único durante esse período. E os professores sabem que, desde a educação básica, passando pelo ensino fundamental e médio, até o ensino superior, para não prejudicar ainda mais muitos alunos, foi necessário cobrar menos, abonar inúmeras faltas, cancelar uma série de atividades. Tudo para não desestimular e, inclusive, não reprovar milhares de crianças, adolescentes e jovens.

Mas, como mostrou a reportagem da BBC Brasil, criou-se um abismo entre a rede particular e a rede pública. Esse abismo não esteve relacionado apenas a ausência de acesso à uma estrutura mais adequada nas escolas públicas ou por falta de habilidade, treinamento para os professores do ensino público. O abismo foi aprofundado justamente pelas condições totalmente desiguais enfrentadas pelos alunos pobres.

E sabe qual o problema disso? Se, em um cenário tido como normal, os alunos pobres já estão em condições menos competitivas para a realização de exames como o Enem e vestibulares, a pandemia certamente ampliou a diferença no preparo dos alunos das redes particular e pública.

Especialistas acreditam que os efeitos serão notados já no Enem deste ano, com menos jovens pobres aprovados nas universidades. A situação deve ser semelhante nos vestibulares.

Porém, o efeito desse prejuízo ocorrido durante a pandemia não deve se limitar a este momento. Quem perdeu aulas e conteúdos nesses dois anos não consegue recuperar isso em seis meses ou um ano. Talvez seja um prejuízo que levará para a vida.

Além disso, com a pandemia, todo o sistema educacional passou a usar ainda mais as tecnologias nas diferentes práticas de ensino. O que torna urgente a sociedade e os governos pensarem em estratégias que possam amenizar as atuais condições tão desiguais enfrentadas pelos alunos pobres.

Série Especial: Relacionamento Pais e Filhos

Nessa última semana, apresentei uma série muito especial sobre o relacionamento “pais e filhos”. A educação de nossas crianças tem sido negligenciada. Preocupados demais em “ganhar a vida”, os pais têm perdido os filhos.

Por isso, gravei cinco temas essenciais para auxiliar as famílias a repensarem algumas práticas cotidianas. Evidentemente, em cinco episódios não é possível tratar de tudo que diz respeito aos filhos. Mas creio que alguns pontos fundamentais estão presentes nesses conteúdos.

Aqui, disponibilizo as versões em áudio (podcast) e também em vídeo. Escolha e aproveite os conteúdos!

No primeiro episódio, falei sobre os dois grandes erros cometidos pelos pais na educação das crianças. Claro, esses erros se desdobram em diversas atitudes, mas podem ser resumidos no “medo de educar” e na “falta de bons exemplos”.

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No segundo episódio, tratei da importância de monitorar/ver o que os filhos fazem na internet. Conto a história de um casal que teve todo o dinheiro da conta gasto pelos filhos num game, mas dedico boa parte do tempo para lembrar os problemas éticos, morais que podem acontecer a partir do uso da internet.

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No terceiro episódio, falo da fragilidade de nossos filhos. A molecadinha está cada vez mais frágil, se assusta com “cara feia”. Estão fracos num mundo cada vez mais difícil, exigente e que faz sangrar.

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Quarto episódio, um apelo aos pais: envolvam-se com a rotina escolar da criança. Quer o desenvolvimento de seu filho? Participe do cotidiano escolar e dos processos que envolvem a aquisição do conhecimento. Mas também alerto: envolver-se é diferente de intrometer-se.

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Por fim, defendo a importância do diálogo. Na era da informação, o que mais falta é comunicação entre pais e filhos. Muitos filhos são ilustres desconhecidos para seus pais. E a responsabilidade é dos adultos de criar um canal de diálogo saudável com as crianças.

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Serenidade tornou-se verbo

O tipo de acidente que sofri traz um custo bastante específico: a mobilidade é completamente comprometida.

A combinação fratura na tíbia + fratura no ombro não me permite andar e nem me deixa usar a força dos braços. Na prática, tenho uma perna e um braço para realizar as principais atividades do dia.

É evidente que não funciona bem. Fica desequilibrado. Não dá para se atrever a usar muletas, por exemplo.

E morando num prédio que possui degraus, tudo que me resta é ficar quietinho dentro de casa com minha cadeira de rodas.

Nesta semana, tive que sair um dia para fazer a primeira revisão da fratura perna. A saída foi um acontecimento. Por sorte, encontramos um maluco gente boa demais, o Oscar, que topou me tirar de casa, com apoio da Rute. Desceram-me na cadeira de rodas até a rua. Depois da visita ao médico, subiram com ela (e comigo, claro) novamente pelos degraus.

Foi bem difícil. E se não fosse o humor do Oscar, eu teria ficado mais tenso.

Na semana que vem, teremos que repetir a dose. Já tenho calafrios.

Sei que ainda há muito por vivenciar. O médico que fez a última cirurgia da minha perna já sugeriu que eu esteja preparado para pelo menos 120 dias de recuperação. E mais todo o trabalho que seguirá após os quatro meses de consolidação do osso da tíbia.

Vendo tudo que preciso fazer e tudo que não tenho conseguido fazer, principalmente das atividades cotidianas da casa (providenciar o almoço, por exemplo), sinto certa ansiedade.

É fato que tenho mantido o equilíbrio. Na verdade, acho que a palavra é serenidade. Desde o acidente, a serenidade tem se tornado um verbo, algo a praticar.

Quase sempre dá certo, mas, vez ou outra, a sensação de impotência quer dominar.

Os livros, meus eternos companheiros, é meu trabalho com a faculdade, auxiliam a recuperar o ânimo e viver um novo dia, sem muitas preocupações.

Afinal, como disse o Cristo, basta a cada dia o seu mal.

Meu acidente: quando um segundo muda uma vida

Hoje, faz duas semanas que sofri um acidente de moto e, desde então, tenho tentado administrar coisas completamente desconhecidas pra mim.

O acidente foi uma daquelas coisas estúpidas que a gente não consegue entender.

Eu havia ido buscar duas marmitas para o almoço e, às 11h30, retornava para casa numa biz que tenho há mais de 20 anos. Não estava com pressa, tinha controle do horário, estava numa via tranquila…

Na avenida Rio Branco, vi quando o motorista chegava para atravessar a pista. Notei que ele olhou para a primeira pista; não havia ninguém. Atravessou e parou rapidamente no canteiro.

Esse foi o momento crucial! O motorista deveria me aguardar. Indicava que faria isso. Ele estava parado. Teoricamente, tudo normal. Mas, do nada, ele acelerou e veio contra mim. Freei forte, mas era tarde.

A pancada foi violenta na minha perna esquerda. Foi esmagada entre o carro e a carenagem da moto.

Gritei e caí. A mão tentou evitar um choque maior no asfalto. Ganhei alguns ralados profundos na palma da mão esquerda.

No chão, lembro de insistir: peça socorro, peça ajuda!

Arranquei o capacete. Estava consciente, precisava respirar melhor.

Estendi a mão para a perna e vi que o pé estava “solto”. Havia um rasgo na minha pele e osso para fora. A fratura estava exposta. Procurei colocar a perna fraturada sobre a outra perna como forma de sustentar meu pé e fiquei de lado.

Tentar revisitar este momento ainda me tira o fôlego… Dói. Dói a alma.

Não sei quanto tempo demorou entre minha queda e a chegada de uma amiga que passava pelo local. A Liliane foi o anjo de Deus para mim naquele momento.

Ela tentava me acalmar e ser prática. Colocou o filho dela em contato com a Rute e ainda passaram o telefone pra mim. A Rute achava que era tentativa de golpe, pegadinha…

Disse a Rute que estava bem. Não corria riscos.

Enquanto a Rute e o Samu não chegavam, pessoas se revezavam tentando me ajudar. Apareceu até um pequeno travesseiro para deixar minha cabeça mais confortável no asfalto quente.

Apesar da gravidade do acidente, ainda hoje, não tenho dimensão da dor. Sei apenas que procurava manter a calma… Meu coração doía pelo acidente. Era difícil acreditar (ainda é) que eu estava ali, no chão, e não podia fazer nada para mudar o que acabara de acontecer. Mas também sabia que tudo iria passar. E isso me dava força.

Um dos momentos mais difíceis foi ver a Rute. Sei o quanto ela se preocupa com os riscos numa motocicleta. Ela estava em choque.

Procurei acalmá-la e pedi que retornasse para casa para buscar os celulares e documentos. Também tinha o almoço no baú da biz. Era preciso levar. E insisti: não cancele seus clientes. Eu vou para o hospital e te mando notícias de lá.

Os profissionais do Samu foram eficientes nos atendimentos emergenciais. Estabilizaram a fratura, me deram morfina, fizeram os primeiros procedimentos na ambulância na ambulância. De lá, comecei a avisar algumas pessoas sobre o acidente e pedi ajuda com a programação da rádio durante a tarde e minhas aulas.

Feitos os primeiros procedimentos, me encaminharam para o Hospital Metropolitano de Sarandi.

Todo esse processo parecia demorar uma eternidade.

Eu só queria chegar ao hospital logo.

O atendimento inicial no Pronto Socorro foi rápido. Havia uma boa equipe. Ninguém especializado nas fraturas, mas o pessoal me auxiliou no que foi preciso e já encaminhou para o raio-x.

Com os raio-x em mãos, soube que passaria por uma cirurgia ainda naquele dia e faria outras duas na sequência.

Com o celular nas mãos, procurei organizar minha ausência falando com pessoas fundamentais na minha vida. O susto de todas era grande. Mas o acolhimento, ainda maior.

Não havia muitas informações sobre o que aconteceria comigo. Segui sendo medicado por um tempo que não sei quanto durou. Sei apenas que houve um momento que foi me agonizando… Fui me sentindo sufocado, suando frio… Achei que iria morrer. Pedi ajuda. Os minutos de espera foram aterrorizantes. Descobriram que minha pressão estava em 9 por 3.

Quando estava sendo levado para o raio-x ou centro cirúrgico (não lembro mais) , meu amigo e companheiro de rádio, o Moura Netto, estava no corredor. Foi bom ver ali um rosto conhecido. Me sentia sozinho. Os poucos minutos com ele foram especiais. Faz bem se sentir querido, acolhido.

Graças a Deus, aos poucos, as coisas foram normalizando e, por volta das quatro ou cinco horas da tarde, entrei no centro cirúrgico.

Eu estava em paz. Sabia que aquele era o primeiro passo para (re)início da minha vida normal.

A equipe do centro cirúrgico brincou: você está mais calmo do que a gente.

Olhando em perspectiva para o cenário, acho que essa calma é resultado dos anos de investimento no cuidado das minhas emoções. E a transformação da teoria/conhecimento em prática é a ação de Deus em mim.

Aquela era a minha primeira cirurgia. Só havia estado num ambiente como aquele num momento alegre: o nascimento da Duda, minha filha linda, que hoje tem 20 anos.

Tudo, porém, foi muito abençoado. Nem apaguei. Permaneci acordado e interagindo com a equipe médica.

Ao final, saí do centro cirúrgico com um fixador de ossos na perna. Horrível olhar para a perna e ver aqueles ferros.

Pouco depois das 19h, retornei para o Pronto Socorro. Não havia quartos disponíveis. Fiquei melhor assim. No PS, tinha uma equipe super eficiente e atenta. Me deixaram muito tranquilo e ainda permitiram que a Rute e a Duda fossem me visitar. Só não podia comer…

Bom, vou registrar outros capítulos desta história por aqui. Mas, por ora, estou cansado…

Toque o coração de alguém com um gesto gentil

Eu quero te fazer um desafio: toque o coração de alguém com um gesto gentil.

Estamos vivendo tempos difíceis. Para a nossa geração, talvez nunca houve um período tão sombrio.

As perdas se acumulam. Perdemos a rotina, perdemos renda, trabalho… Perdemos muitos de nossos planos. Se houve um tempo em que não é possível ter nenhum vislumbre sobre como será o amanhã, o tempo é este.

Também perdemos pessoas. Pessoas que amamos, pessoas que deixaram um grande vazio.

Perdemos sorrisos, perdemos a saúde emocional.

Entretanto, há três coisas que não podemos perder: a gentileza, a compaixão e a esperança.

Por isso, num gesto de gentileza, independente de como está seu coração hoje, você tem a chance de demonstrar compaixão e regar a sementinha da esperança no coração de alguém.

Escolha uma pessoa próxima e faça um carinho nesta pessoa. Como você pode fazer isso? Eu te dou uma sugestão: faça um bolo gostoso e dê para esta pessoa. Pode ser outra coisa, Ronaldo? Pode. Mas faça algo que dê um pouco de sabor e permita que a pessoa experimente um momento diferente, agradável – sozinha ou com a família dela – neste fim de semana.

Neste tempo de pandemia, estamos machucados, feridos e gestos gentis têm um efeito imenso sobre nossos corações. São como bálsamo para alma. tenho certeza que você colocará um sorriso no rosto de alguém e poderá renovar os ânimos de uma alma aflita.

Não esqueça, amor bom é amor prático.