Influencers em Chernobyl

Influencers posando para fotos em Chernobyl. Retrato da síndrome do mau gosto. Mau gosto no sentido de tentar tornar belo aquilo que é pobre, triste, doente.

Talvez para os mais jovens, Chernobyl não signifique nada. Para os brasileiros, a distância geográfica é imensa e o desastre nuclear ocorrido em 1986 não passa de uma mera lembrança de notícias e imagens nos jornais.

Entretanto, uma breve pesquisa nos ajuda a lembrar que o acidente ocorrido em abril de 1986 numa das usinas localizadas no norte da Ucrânia foi o desastre nuclear mais grave da história. O número de vítimas ainda é indefinido, pois as mortes e os efeitos da radiação não podem ser medidos apenas pelo que ficou visível na época e nos anos seguintes. Além da devastação ambiental, das mortes imediatas, muita gente desenvolveu doenças ao longo dos anos, principalmente câncer.

O acidente em Chernobyl é, portanto, uma daquelas feridas na história que parecem difíceis de cicatrizar. Chernobyl se tornou uma cidade fantasma. Durante muitos anos, a área permaneceu fechada para civis. Hoje, porém, é possível visitá-la. O local está aberto para turismo, desde que com guia especializado para que a visita seja segura.

Recentemente, a HBO produziu uma série que recriou os fatos ocorridos em abril de 1986 e a explosão da central nuclear. Isso aumentou ainda mais o interesse em visitar o local.

Mas o sucesso da série parece ter despertado sentimentos bastantes controversos. Nem todo mundo quer conhecer a região para compreender o quanto o ser humano pode ser destrutivo em suas ações. Na verdade, jovens influencers têm usado o cenário para fazerem fotos que estão sendo publicadas no Instagram. Virou moda! As imagens não estão acompanhadas de nenhuma reflexão ou apelo ambiental. Apenas reproduzem a cultura do espetáculo.

Sinceramente, é assustador. Em nome da polêmica e da visibilidade nas redes, essas novas celebridades atropelam o bom senso, o respeito às vítimas e a memória histórica. Parece que a ausência do conhecimento histórico e de sensibilidade humana tem norteado as ações desses influencers.

Mas sabe o que mais me incomoda? Os influencers que vão a Chernobyl posarem para fotos são apenas sintoma de uma sociedade que tem perdido o respeito à sua história, ao humano e à própria vida.

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Cadê o entusiasmo?

Trombei numa frase, extraída de um livro, que defendia a importância do entusiasmo. O autor falava sobre o entusiasmo como a chave de uma visão otimista da vida, o entusiasmo como o motor para a ação e para o sucesso.

Acho a ideia ótima! Mas ela tem um problema: as emoções nem sempre são controláveis. Me incomoda o fato de sustentar que o ser humano dá conta de dizer para si mesmo: vou ficar animado agora. Essa tese parece ignorar que nem sempre se trata de querer estar entusiasmo.

Esse discurso motivacional, típico de livros de autoajuda e, mais recentemente de alguns coaches, me incomoda profundamente.

Às vezes, a pessoa adoraria acordar todos os dias no maior pique, super empolgada, entusiasmada… Entretanto, não existe botão de liga e desliga. Há momentos que você não quer nada além do próprio quarto, de sua cama… Não quer ver a cara de ninguém. Não sente vontade de fazer nada.

Por ser consciente e responsável, você levanta, vai lá e faz o que tem que fazer. Mas não dá pra contar com o entusiasmo. Você faz por saber que é preciso fazer. Faz por saber que a vida requer atitude e é necessário cumprir os compromissos. Porém, ter atitude não significa ter entusiasmo, ânimo o tempo todo.

Somos humanos, não robôs.

Jovens são massa de manobra?

Os jovens e adolescentes são idiotas? Idiotas úteis? Massa de manobra?

Tenho dois filhos; o mais velho, com 22 anos e no quarto ano da universidade; a mais nova, 18 anos e no primeiro ano de faculdade. Trabalho com jovens no ensino superior há 14 anos e, por dois anos, convivi com dezenas de estudantes de ensino médio e cursinho. Acho que conheço, por experiência própria, um pouco deste público – além disso, sou pesquisador em Educação. Sinto ter certa autoridade para falar de jovens e adolescentes.

Então, voltando as perguntas iniciais, posso garantir que a moçada pode até ser idiota, às vezes. Afinal, todos nós, vez ou outra, somos. Entretanto, uma coisa que jovens e adolescentes não são é massa de manobra. Por ingenuidade, inexperiência, fragilidade emocional, formação educacional inadequada, nem sempre agem de maneira inteligente; mas não são facilmente manipulados, principalmente por adultos.

Jovens e adolescentes escutam youtubers, influencers. Escutam gente que se parece com eles. Por outro lado, pais, professores, padres, pastores são quase sempre vistos com desconfiança, tidos como inadequados e chatos. A maioria deles também não gosta de política e não acredita nas estruturas de poder. Por isso, quem afirma que jovens e adolescentes são idiotas úteis, massa de manobra de professores, demonstra total desconhecimento deste público.

Jovens e adolescentes se apaixonam por causas, por bandeiras ou, simplesmente, são alheios a tudo que pode parecer relevante para nós, adultos. Poucas coisas são mais importantes que a luta deles pela liberdade de suas subjetividades; querem ser reconhecidos como pessoas que sabem o que querem, que são donas do próprio nariz. Geralmente erram por não ouvirem gente mais experiente, mais vivida.

Nos colégios e universidades, professores não conseguem ser ouvidos; por vezes, sequer são respeitados.

Vivemos hoje uma crise de autoridade. Não há espaço para manipular ou doutrinar um adolescente ou jovem em sala de aula. Quando um professor tenta direcionar o olhar dos alunos para uma determinada perspectiva ideológica, a maioria percebe, resiste e passa a agir de maneira crítica – e até explicitamente desrespeitosa – com aquele educador.

Adultos que têm adolescentes e jovens em casa sabem que não é nada fácil fazer com que sigam certas orientações ou façam o que lhes foi determinado; sem ameaça ou pressão, eles só fazem o que querem, o que acreditam ser importante e necessário fazer. Também sabem o quanto são desconfiados em relação aos professores, aos discursos de autoridades institucionalizadas. Ou seu filho é diferente? Passivo? Cordeirinho que segue todas as ordens?

Não, meus caros, jovens e adolescentes não são idiotas úteis – até poderiam ser idiotas inúteis (como nós adultos, em algumas situações). Contudo, reafirmo, algo que eles não são, é massa de manobra.

Sobram opiniões sobre os outros; faltam a respeito de nós mesmos

Frequentemente, temos opiniões muito bem definidas sobre o que as outras pessoas deveriam mudar nelas.

A gente tem imagens bem formadas sobre como deveriam ser as atitudes, a maneira de falar, o jeito de responder… Qual seria a forma correta de agir com o chefe, de tratar os amigos, de se comportar com o namorado, marido, mulher etc.

Também temos opiniões definidas a respeito de como deveriam trabalhar, qual o comprometimento com os estudos, como se portarem nas redes sociais…

Curiosamente, pensamos saber tudo que as outras pessoas teriam que fazer para serem melhores, porém, pouco sabemos a respeito de nós mesmos.

Na verdade, quase sempre pensamos que nos conhecemos. E justamente por acharmos que conhecemos nossas virtudes e também as falhas que possuímos, a lista das coisas que deveríamos mudar em nós é bem restrita – às vezes, se resume em comer menos, fazer exercícios, viajar mais…

As mudanças que entendemos necessárias em nós nem de longe se assemelham às que projetamos para os outros.

Isso mostra como pervertermos e invertemos as prioridades. Deveríamos lembrar que ninguém muda ninguém. Só podemos mudar a nós mesmos. Mas, para isso, o primeiro passo é olhar menos para o outro e voltarmos os olhos para descobrir quem de fato somos, quais nossas potencialidades e o que precisamos modificar para nos tornarmos o tipo de pessoa que achamos que os outros deveriam ser.

Somos eternamente insatisfeitos

E é esta condição que nos move e move o mundo.

Por sermos insatisfeitos, nenhuma conquista é duradoura. Ela produz uma sensação boa, de gratificação, por algumas horas, dias, semanas. Porém, logo queremos mais. Um novo desafio, uma nova conquista.

Essa lacuna, que parece estar em nosso interior, é a condição da própria existência da humanidade.

Para o homem, ter criado a carroça não foi suficiente. Facilitou o transporte por algum tempo, mas era preciso mais. Essa vontade de algo ainda melhor, resultou, hoje, em máquinas poderosas, modernas, que não atendem apenas ao desejo de transporte confortável e seguro; traz outros tantos benefícios – até mesmo o de status e poder.

A insatisfação nos motiva a estudar mais, trabalhar mais, produzir mais.

Gente satisfeita é gente que estaciona, deixa de conquistar e perde o tesão pela vida. Não há razão para começar um novo dia se não encontramos nele um motivo para fazer algo maior e melhor.

Entretanto, a lacuna de insatisfação também não é nada positiva se nos tornamos gananciosos, egoístas, ansiosos e não conseguimos nos alegrar com as pequenas vitórias.

A ausência se torna angústia, tristeza. E o que já tem deixa de ter valor.

Se o olhar estiver sempre voltado para o que ainda não temos, abrimos mão de viver o presente, de curtir o que é nosso, de vibrar com as pessoas que amamos… Deixamos de sentir o fluir da vida.

A insatisfação é motivadora, mas também é necessário comemorar cada momento.

Por outro lado, é fundamental compreender que a minha conquista não pode ser resultado da derrota do outro, da miséria alheia.

Devo ganhar para que outros ganhem.

Se a conquista é só minha, se não faz outras pessoas sorrirem, não beneficia a coletividade, ela se apequena, é mesquinha, não contribui para o desenvolvimento de um mundo melhor.

O sorriso é mais feliz quando sorrimos juntos.

Não podemos perder nossos valores

Nas relações de trabalho ou nas relações pessoais, não podemos perder nossos valores.

O que são os valores? Considero como as nossas grandes verdades, aquelas que balizam, referenciam nossas ações.

Os valores nos identificam. Fazem parte de nossa identidade.

Quando nossos valores são confrontados, é preciso ser fiel ao que consideramos essencial – ainda que paguemos um preço por isso.

Entendo que todos devemos estar abertos para nos questionarmos, para refletirmos a respeito de nossas práticas e até colocarmos em xeque algumas de nossas crenças.

Mas existe uma distância entre a abertura para o questionamento e a relativização constante dos valores.

A abertura para o questionamento é necessária para nosso desenvolvimento. Permite que avancemos! Ajuda a nos atualizarmos, nos capacita para viver bem o tempo presente.

a fidelidade aos valores é o que assegura nossa coerência. Se notamos que algo que considerávamos relevante não é tão relevante assim, abandonamos e assumimos outro referencial de conduta. Porém, isso não significa mudar de postura diante das primeiras pressões.

Gente que não é fiel aos seus valores é gente que se corrompe facilmente, que não tem direção, não sabe onde quer chegar… Ou seja, é gente que não tem credibilidade, porque hoje age de uma maneira e amanhã de outra.

Os valores referenciam nossas atitudes em qualquer circunstância – seja dentro de casa, na empresa, na escola, na igreja… Se estamos com as contas em dia ou com problemas financeiros.

Os valores são o conjunto de crenças que revela quem, de fato, somos. Permitem que sejamos notados como gente que sabe o quer, que tem posicionamento e não é influenciado por modismos nem por cara feia!

Somos movidos pela admiração alheia

Quer ganhar meu coração? Diga que me acha o máximo.

Nas empresas, mais que o salário, a melhor estratégia para estimular o colaborador é o reconhecimento. Nos relacionamentos, a melhor estratégia é admirar – e verbalizar isso – o parceiro, a parceira, o amigo, a pessoa com quem você convive.

Somos seres afetivos. Sociais e sociáveis. Embora algumas pessoas vivam muito bem solitárias, a maioria deseja ser notada. Sim, somos carentes!

Nossos movimentos se dão em razão do outro. E quando o que fazemos é reconhecido, o coração se alegra.

É evidente que, aos poucos, aprendemos qual a diferença entre o reconhecimento em palavras e o reconhecimento prático. Afinal, tem muita gente que elogia, aplaude, mas é hipócrita – as ações contradizem o que falam.

Algumas pessoas inclusive exageram na dose. Falam sobre qualidades e títulos que não temos. Se nos conhecemos um pouquinho, rapidamente sabemos que há excesso. E se há excesso, cheira mal.

Recordo que trabalhei numa empresa na qual meu chefe geralmente me apresentava com títulos e experiências que não possuía. Dava ênfase em tudo aquilo. Parecia que eu era o máximo. Entre quatro paredes, porém, minhas contribuições geralmente eram minimizadas e tudo aquilo que falava de mim entrava em contradição na escuta profissional.

Ou seja, havia ali, naquela dinâmica, um discurso que soava falso. Isso colocava em xeque o aparente reconhecimento do meu valor.

Por isso, o reconhecimento nas relações – sejam elas profissionais ou pessoais – deve se dar na medida certa. É necessário ser consequência de conhecimento real do profissional e de seu valor. As virtudes devem ser identificadas, aplaudidas e não podem ser esquecidas no momento em que as fragilidades forem identificadas. Do contrário, as ações tornarão os elogios vazios e a conduta se mostrará incoerente.

É preciso saber escolher…

Para viver, é necessário abrir mão de algumas coisas. Não conseguimos fazer tudo que gostaríamos, ter tudo que desejamos e nem nos relacionar com todas as pessoas que admiramos.

Não iremos ler todos os livros que sonhamos, assistir todos os filmes e séries que estão e estarão na nossa lista.

É preciso escolher. É preciso SABER escolher.

Escolher quem estará conosco e o que faremos a cada dia, abrindo mão da ansiedade de tentar alcançar tudo e todos, pois isso nunca será possível.