Pequenos atos de corrupção

Na noite do último sábado, troquei uma das lâmpadas do prédio onde moro. Prédio antigo, sem elevador, quando uma lâmpada queima entre os andares, fica complicado subir às escadas. Eu tinha uma lâmpada de LED guardada em meu apartamento. Aproveitei-a para resolver o “problema”. A Rute é a síndica. Então cabe a nós esses cuidados.

Hoje pela manhã, enquanto descia, ao passar justamente pelo andar no qual a lâmpada nova havia sido instalada, notei que a coloração da luz estava bem estranha. Olhei para o teto e lá estava uma lâmpada antiga, barata, que, acho, deixou de ser vendida nas lojas especializadas. O que aconteceu com a lâmpada de LED? Provavelmente, alguém fez a troca. Trocou a lâmpada pior pela melhor.

Não vou mentir: fiquei irritado. Mas mais que isso… Lembrei de discussões que insisto fazer: a corrupção de Brasília, das grandes empresas, as alterações na carne, no leite etc etc. nada mais são que reflexo das nossas pequenas corrupções diárias. Infelizmente, boa parte de nós não vê mal em ser um pouco esperto e conseguir alguma vantagem fácil, sem esforço real, sem trabalhar de fato e pagar pelo benefício.

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Ser você mesmo…

autentico

Durante muito tempo, todo e qualquer ato produtivo era um desafio para mim. Não por me faltarem ideias, mas por desejar que fossem geniais. Bom, não vou dizer que ainda não exija muito de mim. Talvez ainda queira a perfeição. Entretanto, os anos me ensinaram que a perfeição não existe. Também aprendi que algo supostamente perfeito não é garantia de que vai agradar as pessoas.

Parte significativa das coisas que faço, faço de maneira pública. Ou seja, são consumidas pelas outras pessoas. Pode ser um texto do blog, um programa de rádio, de televisão ou um cerimonial. Isso quer dizer que agir norteado pela expectativa do que os outros vão pensar sobre o que faço é aceitar ser tolhido na essência do próprio ato criativo.

Cito um exemplo muito particular: os textos do blog, em especial aqueles nos quais falo sobre relacionamentos. Comecei a publicar na internet em 2005. Na época, escrevia quase exclusivamente sobre política – a política local, de Maringá. Porém, lia e estudava sobre relacionamentos há alguns anos. Na mesma época, fazia pós em Psicopedagogia. Aprendia mais sobre a infância, sobre o ser humano. Entretanto, não me achava capaz de falar sobre as pessoas. Na verdade, tinha medo dos julgamentos. O que as pessoas, em especial os conhecidos, os meus colegas de profissão (jornalistas e professores) diriam sobre mim? Me achariam ridículo?

Eu não lembro ao certo quando publiquei o primeiro texto sobre relacionamentos. Tenho a impressão que foi em 2008. Também não sei bem o que me motivou fazer isso. Simplesmente aconteceu. Recordo apenas que já não sentia prazer em escrever sobre o cotidiano político maringaense. Eu queria falar de gente. Estava em crise comigo mesmo por conta disso. Pensava parar o blog. Abri e parei uma meia dúzia de blogs. Aos poucos, porém, o que era um desejo de criar se materializou em posts que foram se misturando a outros que tratavam de economia, cultura, educação… Eu agora escrevia sobre relacionamentos.

E sabe o que aconteceu? Nada. O mundo não parou por conta das minhas publicações a respeito de relacionamentos amorosos. As pessoas não deixaram de falar comigo. Não deixei de ser respeitado como jornalista e nem como professor. É fato que muitos dos meus primeiros leitores foram embora, deixaram de frequentar o blog. Também é verdade que teve gente que achou minha iniciativa ridícula, questionou (em fofocas) que autoridade eu tinha para falar sobre o que eu falava… Mas nada disso mudou efetivamente minha vida. A única coisa que mudou é que passei a ter prazer em escrever. Eu sentia satisfação a cada publicação.

O mais incrível disso tudo é que, ao me alegrar com o que fazia, o blog se tornou algo realmente bom pra mim e, aos poucos, passou a ser relevante para outras pessoas. Hoje, algumas milhares de pessoas passam por aqui, de diferentes partes do Brasil e do mundo, e leem meus posts, compartilham, comentam… Algumas se tornam leitoras; outras vão embora após meia dúzia de textos. E qual a minha gratificação? Falo de coisas que acredito, que, se ainda não vivo, tento viver.

Por que conto isso pra você? Porque não raras vezes somos reféns das expectativas alheias. A gente coloca na cabeça que o outro vai nos avaliar. E ao nos avaliar, não vai gostar do que fizemos, vai nos achar ridículos. No fundo, nos tornamos reféns do nosso ego, que é carente de reconhecimento. Quando isso acontece, travamos. Deixamos de fazer o que sonhamos. Passamos a viver uma vida pequena, mediados pelo olhar do outro. Perdemos a autenticidade. Deixamos de viver a nossa verdade. 

E sabe o que é mais curioso nisso tudo? As outras pessoas estão pouco ligando para nós. Todo mundo está ocupado demais, focado em seus próprios problemas, em seus próprios dilemas. Vez ou outra até podemos ser alvos do olhar alheio. Até sermos motivos de risos. Mas e daí? Qual o problema? Talvez, de fato, alguém ria de nós. Mas outros podem nos aplaudir. Quem não se arrisca, perde oportunidades, simplesmente se apaga.

A conquista do mestrado

mestrado

Decidi escrever este texto muito mais como um registro pessoal do que como uma crônica de agradecimento ou comemoração. Talvez ninguém se interesse por ler. Ainda assim vai ficar aqui, no blog, como manifestação de alguns sentimentos após concluir uma etapa tão importante da minha formação.

Antes de ingressar no mestrado, tinha ouvido vários comentários sobre o quanto o processo é difícil, desgastante. Confesso que pensava haver certo exagero. Hoje, não sei bem o que dizer. Durante o percurso da pesquisa, achei que não daria conta. Caí no fosso da depressão em alguns momentos. Desistir nunca foi opção, mas não faltaram pensamentos negativos e desejo de entregar os pontos… Entretanto, hoje, após ter concluído, me questiono: será que foi mesmo tão difícil? Ou será que apenas superdimensionei as coisas ao longo desses últimos três anos?

Deixa eu explicar… Eu fiz um ano de mestrado como aluno especial. Cursei duas disciplinas em 2013. Na verdade, quatro. Isso porque fiz duas em Letras e mais duas em Educação, na época. Depois, participei da seleção para me tornar aluno regular, passei nos dois programas de pós e acabei optando por Letras. Por isso, conto que meu mestrado teve, ao todo, três anos.

Ao longo desse período, tudo foi muito complicado. Tive dificuldades na vida pessoal, na esfera profissional… Não foi nada fácil. Culpa do mestrado? Não necessariamente. Mas é impossível dizer que uma coisa não afeta outra. É assim em tudo na vida, né? Ninguém consegue isolar os problemas. Se você está com problema com os filhos, tudo mais fica complicado. Basta uma coisa fora do lugar para te aborrecer completamente.

O mestrado era um sonho pra mim. Teve uma época que eu sonhava, mas achava que era algo impossível, inatingível. Achava que nunca seria capaz de ser aprovado na seleção. São poucas vagas, o processo é desgastante… De fato, é preciso muito envolvimento, persistência e preparo para ser aprovado. Tinha medo de não conseguir… Mas deu certo. Passei. E em primeiro lugar em Letras e Educação.

Quando passei, descobri que se tornar aluno era a parte mais fácil. Há tantas demandas que, em alguns momentos, a impressão é que a gente é incapaz de dar conta de tudo. E, como eu disse, a vida da gente não é uma coisa só. Você tem o estudo, mas tem o trabalho também, tem a família… Quando menos percebe, está tudo misturado e parece que o mundo virou as costas pra você.

E uma coisa eu descobri nesses últimos três anos: a vida não para para você fazer mestrado. Não adianta reclamar que falta tempo, que está muito difícil… Cada dia é um dia, só tem 24 horas e a vida passa… Ninguém espera você dar conta de suas tarefas. As coisas estão acontecendo e você está estudando. Ou não.

Para quem está de fora, é difícil compreender isso. Pouca gente entende por que tantas horas de leitura, tanto tempo em frente ao computador… O que custa uma saidinha para comer uma pizza? Beber alguma coisa com os amigos?

Para quem está “dentro”, também é difícil aceitar abrir mão de “viver” para estudar tanto, escrever tanto e ainda assim perceber que todo esforço é insuficiente. E essa talvez seja uma das maiores angústias de um pós-graduando: você faz, faz e faz, mas parece ser nada. Na academia, o seu máximo parece ser muito pouco. Isso, muitas vezes, é desolador.

A trajetória da pesquisa por vezes também é solitária. Raras são as pessoas dispostas, e com tempo, para colaborar. Ou ao menos ouvir os lamentos. Quem está envolvido com o universo acadêmico (e que poderia te entender ou apoiar), quase sempre também não tem tempo. Quem é de fora, acha tudo uma doideira. Quase um desperdício de tempo e esforços.

A relação com o orientador é singular. Trata-se da pessoa mais envolvida no processo. E talvez por isso, como todo relacionamento, há o risco de as coisas não funcionarem como se espera. Não raras vezes, tudo que o orientando espera é apoio – às vezes, até “colo”; por outro lado, o orientador tem prioridades bem diferentes: precisa motivar a produção, o envolvimento com a pesquisa. E, para isso, nem sempre  age de maneira simpática, digamos assim.

Quer dizer… Essa dinâmica toda gera um desgaste emocional que nem sempre é possível administrar. Por isso, quando a gente conclui, defende a dissertação, é impossível não se sentir aliviado. Alguns quilos vão embora logo após a leitura da ata de aprovação. A sensação é mesmo única, uma vitória daquelas que a gente não esquece. Aos poucos, a vida vai voltando ao normal, o título conquistado é incorporado ao que você é e, como tudo na vida, novos desafios vão se impondo como necessidade – o doutorado, por exemplo (mas isso já é uma outra história).

Por que vale a pena persistir em nossos sonhos?

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Só quem persiste transforma sonhos em realidade. Não existe receita mágica. O universo conspira a favor daqueles que se esforçam, que trabalham. É verdade que alguns parecem ter tudo “de mão beijada”, são os que “têm sorte”. Entretanto, essa não é a regra. Nossos projetos se tornam reais quando estamos dispostos a lutar por eles.

Quando escrevi “A tristeza de fim de ano” e “Não dá para desistir antes de chegar ao final”, compartilhei ali argumentos que de alguma forma representam momentos da vida de muitas pessoas. Não é nada fácil olhar para o mundo e ver gente brilhando, conquistando e você se sentir um fracassado. E o mundo premia os vencedores. Portanto, todos os holofotes são para eles. Logo, se a gente não consegue, é impossível evitar a tristeza, a decepção…

A amiga está ali com o corpo deslumbrante, perfeito. Fez academia, tratamento estético, perdeu peso… Está deslumbrante. O colega de trabalho ganhou a promoção, trocou de carro, está negociando um apartamento novo… É o modelo de profissional bem sucedido.

Quando a gente olha para as conquistas do outro, nossos fracassos tornam-se ainda mais dolorosos. Entretanto, a medida do nosso sucesso não é a medida do sucesso alheio. Devemos ter nossas próprias metas. E estas dentro da nossa realidade. Devemos caminhar de acordo com nossos limites e tentar superá-los pouco a pouco. É assim que a gente vence.

Ter pressa nos leva a tropeçar. E às vezes recuperar-se do tombo é mais difícil que subir um degrau de cada vez (está aí o exemplo de Eike Batista, o brasileiro que queria ser o homem mais rico do planeta).

Não existe esforço sem resultado. E se o resultado esperado ainda não apareceu é porque é preciso persistir um pouco mais; significa que o caminho é mais longo do que imaginávamos, significa que é necessário um pouco mais de empenho.

Em 2004, eu tentei pela primeira vez o mestrado. No ano anterior, tinha saído da graduação como melhor aluno da faculdade. Eu tinha a melhor média entre todos os cursos. Sonhava com a vida acadêmica e, por isso, achei que estava preparado para ingressar na pós. Estudei, fiz meu projeto… Mas reprovei. Faltou um ponto. Aquilo mexeu comigo. Embora tenha começado a dar aulas pouco depois, relutava tentar de novo. Nos últimos três anos, porém, alguns amigos mais próximos começaram a insistir “você merece o mestrado”. Eu lembrava do fracasso e tinha a impressão que aquilo não era pra mim. Apenas no segundo semestre de 2012, fui realmente tocado a tentar.

Mais maduro, percebi os meus limites e fiz um planejamento. Não adiantava achar que meus conhecimentos eram suficientes para garantir a aprovação na primeira tentativa. Aceitei os sacrifícios e resolvi apostar em duas frentes, Educação e Letras. Participei do processo de seleção em Educação a fim de conhecer as políticas do departamento e para cursar como aluno especial; também busquei informações em Letras para fazer disciplinas na área… E trabalhei com afinco ao longo de 14 meses nesse projeto pessoal. Aos poucos, os resultados começaram a aparecer. Conquistei professores simpatizantes aos meus projetos, passei nas provas escritas… E, por fim, no início deste mês de dezembro, saíram os editais. Eu estava lá entre os aprovados e no topo das listas, em primeiro lugar.

O sentimento de ser aprovado nos dois mestrados foi especial. O esforço foi recompensado. Os anos de dúvida se eu era capaz, se eu dava conta trouxeram ensinamentos. Os questionamentos feitos por alguns de que eu era apenas um “atrevido” em sala de aula machucaram sim, mexeram com minha autoestima. Ter ouvido que eu apostava em tantas áreas e que por isso nunca seria bom em nenhuma delas também incomodou. As conquistas, no entanto, me ajudaram a perceber que não precisamos ser especialistas numa única coisa. Dá pra fazer bem feito medicina e direito, por exemplo. Mas isso tem um custo, é claro. É fundamental ter um foco, a meta deve ser clara. Não dá para se dispersar. Entretanto, vale a pena. Quando a gente acredita e se dispõe a pagar o preço, na hora certa a vitória vem.

O prazer de educar

Ano quase acabando e as atividades da faculdade do ano estão praticamente concluídas. A paixão pela sala de aula me faz sentir saudades de vir para o computador e preparar ou revisar a programação da semana. Afinal, domingo, pelo menos na vida deste professor aqui, é dia de trabalho. Faço isso há muitos anos. E com muita satisfação. Acho que não sei mais ficar à toa nesse dia da semana.

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Durante uma das bancas de monografia

Quando olho pro ano que passou, sempre me cobro bastante. Penso em tudo que ofereci aos meus alunos e é impossível ignorar os erros. E sempre encontro vários deles. Mas com os erros a gente tenta aprender. Não adianta ficar lamentando. Já foi. É reparar os problemas e focar no que vem por aí.

Entretanto, teve muita coisa legal acontecendo. Como trabalho com futuros jornalistas, em algumas disciplinas, a missão é prepará-los para o mercado profissional. E este ano fizemos muito. Produzimos várias revistas, vídeos criativos para a web, jornais para a internet, fizemos a cobertura dos protestos de junho em Maringá, mantivemos blogs de conteúdos alternativos, recuperamos a produção musical e cinematográfica das últimas décadas, viajamos pelas obras de pintores consagrados, descobrimos ações sociais que transformam a vida de pessoas fazem uso de manifestações artísticas… Foi show! Fico orgulhoso de cada ação que meus alunos desenvolveram.

E, para encerrar o ano, tive o privilégio de levar os acadêmicos Cínthia Carla, Elizabeth Pinheiro e Fábio Carlucci para às bancas dos Trabalhos de Conclusão de Curso com monografias elogiadas pelos avaliadores e reconhecidas com a nota máxima. Impossível não ficar orgulhoso deles, pois apenas os orientei. A produção foi deles, a nota foi mérito deles. Apenas procurei encaminhá-los da forma que acredito ser a correta: metodologia correta, distribuição adequada dos fundamentos teóricos e diálogo com a análise e/ou peça produzida. Deu certo mais uma vez.

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Elizabeth Pinheiro e Fábio Carlucci
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Cínthia Carla

Após todas experiências vividas ao longo de 2013, é impossível não ficar cheio de expectativas para o próximo ano. Quem serão os novos alunos? Que resultados vamos obter? E os erros cometidos, vamos conseguir evitá-los? Embora existam várias perguntas ainda sem respostas, o desejo sempre será o mesmo: fazer o melhor. Nem sempre é possível, mas não faltará disposição para tentar.

Dedico este texto a todos meus alunos, aqueles que já passaram por minhas aulas e a todos que amam a vida acadêmica. Obrigado por me ajudarem a crescer e me ensinarem tanto.