As coisas não são feitas pra durar

Talvez em algum momento você já entrou nesta discussão. E por mais que isso não pareça correto, é um fato. Os objetos que usamos no dia-a-dia são feitos para deixar de funcionarem num tempo inferior ao que seria normal.

Especialistas afirmam que um celular, por exemplo, teria vida útil de 12 anos. Entretanto, com dois anos de uso, começa a se tornar obsoleto. Isso acontece porque ele foi feito para ser rapidamente substituído. Você sabe… Geralmente, em dois anos, o smartphone fica lento, desempenho comprometido, alguns aplicativos não rodam…

Vale o mesmo para máquinas de lavar, liquidificadores, chuveiros, aparelhos de televisão, computadores, geladeiras… E até bens de muito maior valor, como um carro, por exemplo, ou itens básicos do dia a dia, como uma lâmpada elétrica. Afinal, existe tecnologia para que a lâmpada nunca queime. Mas qual a vantagem de vender uma lâmpada que nunca precisará ser substituída?

Para que a gente esteja sempre consumindo, duas grandes estratégias são utilizadas: a primeira, é estimular o desejo. Somos o tempo todo incentivados a consumir. De certo modo, o mercado promete que os produtos são capazes de nos satisfazer. São alegradores.

E quando compramos, isso realmente acontece. Por meio da publicidade, é despertado o nosso desejo de comprar. Às vezes, ficamos até impacientes para adquirir um determinado produto. Ao comprá-lo, a sensação inicial é indescritível. O prazer é muito grande. Isso passa logo, claro.

A outra estratégia para promover o consumo é justamente tornar os produtos obsoletos em pouco tempo. A durabilidade é bem menor do que poderia ser… E os dispositivos também se tornam antiquados em muito pouco tempo – um televisor com mais de 10 anos, ainda que esteja funcionando bem, não é um item que te orgulha de deixá-lo na sala de casa, né?

Embora as indústrias nem sempre admitam que encurtam a vida útil dos produtos, nós consumidores precisamos ter consciência de que vivemos numa sociedade que se sustenta pelo nosso consumo. A lógica para isso nem sempre é moral e ética. E, no final, nós é que somos as mercadorias que fazem a máquina girar.

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A economia do medo

O medo da violência urbana, a insegurança nas cidades são dispositivos relevantes na sociedade capitalista.

Existe toda uma economia que funciona em função do medo.

Milhões de reais são gastos anualmente pela população (no mundo, falamos de bilhões de dólares). Milhares de empregos são gerados.

Gastamos com seguro de carro, blindagem de veículo, seguro de imóvel… Instalamos câmeras de segurança em vários ambientes, colocamos cerca elétrica nas casas, reforçamos grades, contratamos empresas de segurança e monitoramento…

Há toda uma série de produtos e serviços que só existem por causa do medo.

A economia do medo também criou uma arquitetura própria. Nas médias e grandes cidades, temos o registro crescente de imóveis verticais e, para quem tem mais dinheiro, condomínios fechados… Muros e grades, janelas reforçadas, também atendem o desejo de mais segurança.

A arquitetura das grandes empresas é pensada não apenas para garantir funcionalidade aos serviços; busca-se também a segurança dos trabalhadores e, principalmente, proteção do patrimônio.

Todo esse investimento milionário deixaria de existir se as pessoas tivessem segurança. Mas a economia do medo não alimenta apenas diferentes setores de produtos e serviços; é fundamental a manutenção de todo um aparato policial e judiciário.

Muito dinheiro é gasto com carros, armamento, policiais, advogados, promotores, juízes, além de uma enorme estrutura burocrática de cartórios e até o sistema prisional… Tudo em função da economia do medo, que existe em virtude da criminalidade – uma criminalidade, que como é possível notar, faz muito bem à economia.

Quem é o profissional do futuro?

Gosto de pensar neste assunto não necessariamente na perspectiva do pessoal que escreve sobre carreira, liderança… Esse pessoal que dá palestras pelo Brasil afora ou escreve no Linkedin.

Penso neste assunto observando os movimentos da sociedade, as novidades tecnológicas que se impõe a cada dia… E, principalmente, no surgimento de uma cultura fluída que tira toda estabilidade e rompe com as garantias que parecíamos ter no passado.

É indiscutível que o futuro é incerto. Mas há indicações de que o mercado se tornará cada vez mais seletivo e muita gente terá que se reinventar para conseguir uma oportunidade de trabalho.

Quem vai sobreviver a todas as mudanças?

Os especialistas indicam algumas características fundamentais. Todo trabalhador precisa ser também um empreendedor, alguém capaz de inovar – ou seja, fazer de forma diferente o que já faz.

É fundamental ter competência técnica em tecnologia. Gente que não consegue dialogar com as tecnologias, fazer uso delas de forma eficiente, dificilmente vai conseguir sobreviver.

Outra característica é a disposição para estudar as tendências do mercado. Não dá para viver alheio ao que está acontecendo… Muito menos ignorar como as mudanças tecnológicas, sociais e culturais afetam o mercado de trabalho.

O profissional do futuro é alguém capaz de duvidar de suas próprias convicções. É necessário estar sempre pensando e repensando suas práticas diárias e questionar se há maneiras de ser mais eficiente fazendo o que já faz. Ou seja, não há espaço confiar em suas crenças, achar que você está certo. Conheço gente que diz: “eu faço isso há 20 anos; sei o que estou fazendo?”. Sabe, isso é um risco muito grande. O certo de hoje pode estar errado amanhã.

Também é fundamental ser criativo. E aqui está um dos maiores dramas, na minha opinião. Só é criativo quem vive experiências para além das rotinas. Por exemplo, quem lê bons livros, assiste filmes, faz viagens, passeia no parque… Ou seja, vive experiências estéticas bastante ricas.

Difícil reunir todas essas características? Sim. Muito difícil. Mais ainda porque muita gente sofre de preguiça mental. Raramente estuda, raramente se questiona, raramente aceita viver experiências incômodas… Além disso, principalmente os mais jovens, querem apenas viver aquilo que dá prazer. O que é difícil, o que requer persistência, o que requer horas e horas de esforço, a leitura profunda tudo isso é descartado, porque é chato.

Pois é… O problema é que todas as características do profissional do futuro demandam força, energia e, principalmente, disposição para romper com todo e qualquer tipo de conforto pessoal.

Falta de planejamento compromete o futuro do Brasil

Nenhum país muda sem ter um planejamento de futuro. Trocar deputados, senadores, governadores e presidente da República pode até ajudar na reformulação de determinadas práticas, inclusive com novas políticas públicas. Mas não ocorrerão avanços significativos.

Fazer planejamento tem a ver com a cultura de um povo. Não é da cultura do brasileiro planejar. A gente não faz isso na casa da gente. Não faz na empresabasta notar a quantidade de empresas que fecham por não ter pensado todas as estratégias de curto, médio e longo prazos. E a gente não faz planejamento na política.

A Coreia do Sul há pouco mais de 60 anos era um território arrasado pela guerra. Um país pobre.

Muita gente atribui o sucesso econômico e científico da Coreia ao investimento na educação. É verdade que a educação fez e ainda faz a diferença por lá. Porém, a educação não foi a chave do sucesso. O segredo da Coreia do Sul foi planejamento. A educação fez parte das estratégias utilizadas para colocar o país na rota do desenvolvimento econômico e científico.

No Brasil, não damos valor a isso. A ausência de uma cultura de planejamento faz com que as ações iniciadas num governo sejam interrompidas no outro. Cada político pensa no seu mandato e em medidas que possam lhe render capital político, votos. Um governo inicia um programa de incentivo ao ensino superior, financiando bolsas de estudo… Um novo governo reduz a verba para o programa e dá início a outra ideia.

Um prefeito começa uma obra, não consegue concluí-la e, quando outro é eleito, entende que existem coisas mais urgentes e a obra fica parada.

Políticas precisam ser pensadas não para estancar um problema agora, mas para criar uma condição de vida melhor para as pessoas daqui a 20, 30… 50 anos.

Com uma mentalidade de planejamento, as pessoas compreenderiam que não existem soluções mágicas. É preciso muito trabalho, esforço, disciplina e tempo para dar conta de demandas históricas.

A Coreia do Sul não se tornou uma potência tecnológica, uma força na indústria automobilística mundial de um dia para o outro. Os resultados começaram a aparecer depois de quase 40 anos.

Mas veja só… O Brasil nunca foi arrasado por uma guerra, nunca sofreu com grandes catástrofes naturais, mas não sai do lugar. Nossos problemas de hoje não são diferentes dos problemas que tínhamos no passado. A gente sonha com o Brasil do futuro, mas o futuro nunca chega… E não chega porque a gente não planeja o futuro.

Isso só reforça o que estou dizendo: não existe um messias político para colocar o país nos trilhos. Se não houver uma mudança de mentalidade, a criação de uma nova cultura, a gente pode ter uma certeza: tudo vai continuar dando errado.

Brasil perde R$ 480 bi com sonegação de impostos

Um estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas mostrou que o Brasil perde, anualmente, cerca de 480 bilhões de reais por causa da sonegação fiscal. Vou repetir o número: 480 bilhões!

Para se ter uma ideia, o dinheiro que o Brasil perde com sonegação em um único ano seria suficiente para cobrir o déficit das contas públicas brasileiras por três anos e ainda sobraria troco.

O Brasil deve fechar as contas de 2018 no vermelho. E o tamanho desse rombo será de 148 bilhões de reais.

Isso quer dizer, reforço, que se o país apertasse a fiscalização e punisse os sonegadores, nós teríamos dinheiro de sobra no caixa. Um saldo de 330 bilhões de reais.

Com isso, o país teria dinheiro para investir em infraestrutura, educação, saúde, segurança…

O estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas, que identificou o tamanho da sonegação brasileira, não foi feito por algum curioso qualquer. Foi, na verdade, realizado pelo coordenador de Fiscalização da Receita Federal, Flávio Campos.

Ele concluiu que o país integra o grupo dos países mais benevolentes com sonegadores. Estamos ao lado da Colômbia, Malásia, Panamá… Curiosamente, quase todos os países que facilitam a vida dos sonegadores possuem grandes carências no atendimento à população.

Tem mais… Quase sempre, os maiores sonegadores são companhias, conhecidas e bem estabelecidas – sem contar personalidades importantes, famosas, megaempresários. Ou seja, o Estado é sim conivente com os sonegadores. Por aqui, sonegador não é preso; nos Estados Unidos, 80% dos sonegadores vão pra cadeia. E o tempo médio das penas é de 38 meses.

Entretanto, por aqui, até hoje sequer foi votado um projeto que está no Senado brasileiro que acaba com a impunidade criminal de sonegadores de impostos. Se a medida fosse votada, seguiríamos o exemplo dos Estados Unidos e, quem sabe, semelhante ao que aconteceu por lá, até seria possível reduzir a carga tributária das empresas.

A reforma da Previdência é necessária, mas serão mantidos os privilégios?

Todas as vezes que se fala em reforma da Previdência Social, a gente esbarra num enorme problema: quem está disposto a abrir mão de seus direitos?

Hoje, servidores públicos, militares, políticos recebem aposentadorias especiais – acima do teto do trabalhador da iniciativa privada (R$ 5.645,80).

Por outro lado, mesmo na iniciativa privada, são aquelas pessoas que vão receber o teto, ou algo próximo do teto, que aposentam antes dos 60 anos.

E o que dizer de juízes, desembargadores, políticos?

No Judiciário, para se ter ideia, a média da aposentadoria é R$ 18.065,40.

Quem se aposenta pelo setor privado recebe menos de R$ 1,4 mil de aposentadoria.

Ou seja, não são os mais pobres que geram problema para a Previdência Social.

Por isso, quando se fala em reforma da Previdência, para resolver de fato o déficit causado pelas aposentadorias, é necessário cortar benefícios justamente das pessoas que ganham um pouco mais e se aposentam mais cedo.

Por exemplo, na estimativa da proposta orçamentária para 2019, as aposentadorias dos militares e os servidores públicos vão gerar um déficit de R$ 90 bilhões de reais.

Quando se fala em mexer nessas aposentadorias, o barulho é grande. Os argumentos em defesa dessas categorias são os mais variados. E aí, no final das contas, quase sempre os cortes de benefícios são feitos nas categorias que têm menos representatividade – os trabalhadores mais pobres (o que aprofunda ainda mais a desigualdade).

Enfim, é inegável a necessidade de mexer nas regras da Previdência para reequilibrar as contas públicas. Porém, a dúvida é: as mudanças serão justas?

Quando os preços seguem a lógica do mercado…

O Brasil e o mundo sofrem os efeitos dos interesses de mercado. Eu brinco que até gostaria de ser apresentado a esse tal de mercado para tentar questionar algumas coisas… Afinal, não me parece correto que dinheiro, lucratividade sejam mais importantes que as pessoas.

Desde que a Petrobras passou a movimentar-se de acordo com o mercado, a política de preços dos combustíveis virou uma loucura. Um levantamento realizado pela equipe do UOL Economia mostrou que em 14 meses, a Petrobras mudou o preço da gasolina 245 vezes.

Quatorze meses são cerca de 420 dias. Isso significa que em intervalos inferiores a dois dias os preços da gasolina foram alterados. Só no último mês de agosto, foram 11 aumentos e quatro reduções nos preços.

A Petrobras agora promete que vai conter as oscilações do mercado por pelo menos 15 dias.

Resolve? Não. Mas ajuda um pouco.

Entretanto, segue aberta a pergunta… A quem devem servir as empresas públicas: ao povo ou ao mercado?

Se atende ao povo, desvaloriza-se, perde dinheiro; se serve ao mercado, sacrifica a população.

Este é o mercado.

Revolução digital vai fechar mais de 15 milhões de vagas de trabalho em 12 anos

Com certa frequência, falo sobre como as tecnologias podem fechar postos de trabalho. Embora o avanço da ciência seja um fato, e uma necessidade, é inegável que pouco a pouco as máquinas vão ocupando o lugar de trabalhadores.

Por sinal, o filósofo do comunismo, Karl Marx, ainda no século 19, vislumbrava que os operários deveriam se unir para resistir ao avanço das máquinas, pois isso lhes custaria o trabalho.

Cá com meus botões, entendo que não há razão para lutarmos contra as tecnologias. A realidade sempre se impõe. E o avanço das ciências significa também a automação industrial, a inteligência artificial.

Contudo, a sociedade precisa se preparar para isso. E num ano eleitoral é fundamental cobrar que este tema esteja presente no debate político.

Veja bem… Uma pesquisa realizada pela consultoria McKinsey sobre o futuro do mercado de trabalho mostrou que 14% dos empregos brasileiros podem desaparecer até 2030 – cerca de 15,7 milhões de vagas.

Gente, 2030 está logo ali. São apenas 12 anos. Se hoje já temos mais de 13 milhões de desempregados, se mais de 37 milhões de pessoas já estão em atividades com trabalho por conta própria e sem carteira assinada, este quadro deve se tornar ainda mais dramático se nada for feito.

A consultoria McKinsey também mostrou que o Brasil não está preparado para a extinção de várias profissões. Tampouco está preparado para as vagas que podem ser geradas pela economia cada vez mais digital.

O que deve ser feito? Não sei. Mas é necessário estudar alternativas, buscar soluções. Os centros de pesquisas, as universidades e as boas experiências internacionais estão aí para nos ajudar a encontrar formas de não vivermos o aprofundamento da desigualdade econômica e social – milhões e milhões de pessoas sem trabalho e algumas milhares ganhando muito dinheiro com suas empresas operadas por máquinas, softwares, aplicativos.