Aprendendo com Paulo Freire: não falamos do que desconhecemos

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A beleza do pensamento de Paulo Freire se revela ao longo da leitura de cada uma de suas obras. Embora criticado por algumas pessoas, o educador brasileiro deixou como legado um modo ético de fazer educação. Mais que isso, diria, deixou-nos orientações preciosas sobre como viver bem. No vídeo de hoje sobre Paulo Freire, falo sobre qual seria a atitude ética de quem se propõe a criticar algo, alguém ou mesmo uma ideia.

Segundo o educador brasileiro, não se pode basear uma crítica numa leitura superficial, nas primeiras impressões que temos.

Claro que, quando Paulo Freire tratou disso em “Pedagogia da Autonomia”, mencionava especificamente o comportamento do professor.

Freire ressaltou que o professor não pode basear a “crítica a um autor na leitura feita por cima de uma ou outra de suas obras”. Tampouco teria o direito de sustentar seus argumentos tendo como referência outras pessoas, gente que talvez só tenha lido “a contracapa de um de seus livros”.

Essa orientação de Paulo Freire é maravilhosa. Chega a ser bíblica. A gente não fala do que não conhece. A gente não fala do que supostamente conhece apenas pelo olhar dos outros. A gente só fala quando conhece de verdade. E conhecer de fato implica em envolver-se, aprofundar-se, conviver, observar…

A gente pode até não gostar, não concordar com a ideia… Mas a gente não critica sem conhecer.

Falando especificamente da Educação, o pensador afirmou que o professor não pode mentir. “O preparo científico do professor ou da professora deve coincidir com sua retidão ética.”

Não é lindo isso? E não seria fantástico se na escola e fora dela baseássemos nossas falas apenas naquilo que de fato conhecemos, sem distorções, sem mentiras?

Aprendendo com Paulo Freire: não sou dono da verdade

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O professor Paulo Freire foi um educador brilhante. O mundo da educação segue aprendendo com seus ensinos. E não apenas o mundo da educação. Paulo Freire pensava a educação tendo como referência a própria pessoa e a sociedade em que ela vive. Por isso, quando lemos as obras desse grande professor, temos ensinos para a vida.

Ainda ontem, ao reler alguns de seus textos, encontrei um pensamento que compartilho por aqui. O educador sustentava a importância de marcarmos nossas posições, mas de respeitarmos as posições dos outros.

Disse ele:

Se de um lado não posso me adaptar ou me “converter” ao saber ingênuo dos grupos populares, de outro, não posso, se realmente progressista, impôr-lhes arrogantemente o meu saber como verdadeiro.

Lindo isso, né?

Paulo Freire sustenta aqui uma de suas práticas de vida. Afirma que não pode simplesmente se adaptar ou se converter a um tipo de saber que ele considera ingênuo, vazio, desconectado da realidade. Entretanto, o educador lembra que, se ele é realmente um sujeito progressista, não pode impor o saber dele como verdadeiro.

Essa é a essência do pensamento democrático progressista: marcar seu posicionamento, mas nunca impor o seu saber como sendo a verdade. É necessário respeitar o saber alheio, ainda que seja ingênuo ou se tenha provas que o outro esteja errado.

Noutras palavras, eu não devo me adaptar e nem me converter ao outro, mas não me porto como sendo o dono da verdade e nem obrigo a outra pessoa a aceitar o que eu penso.

Já pensou como seria maravilhoso se todos nós reproduzíssemos essa máxima de Paulo Freire? Nossas relações seriam pacíficas, baseadas no respeito e na tolerância.

Paulo Freire é inimigo do Brasil?

Pelo menos para parcela da elite política brasileira, Paulo Freire é sim um inimigo do Brasil. O autor deveria ser banido nas salas de aula. Não poderia ser utilizado em hipótese alguma como inspiração de práticas educacionais. Mas por que isso acontece?

Falo sobre isso neste vídeo!

Apresento algumas ideias do autor e, em seguida, listo as três principais razões que motivam a perseguição a Paulo Freire.

A urgência do ensino da leitura

Tenho defendido a urgência do ensino da leitura, de práticas que permitam a alfabetização plena, o desenvolvimento de habilidades de interpretação de um texto.

Nenhum outro aprendizado ocorre de maneira efetiva sem que a pessoa tenha capacidade de plena de ler e interpretar um texto.

Vejamos… Se um tenho nas mãos um livro de História do Brasil e não sou um leitor proficiente, certamente não vou entender tudo que o autor ou a autora relataram. Não se trata de falta de inteligência; trata-se de falta de habilidade para compreender o texto.

Vale a mesma regra para textos da Geografia, Matemática, Biologia… E também da Literatura.

É fato que um texto científico reúne conceitos que, por vezes, são desconhecidos. Mesmo uma pessoa plenamente alfabetizada encontrará dificuldades para interpretá-lo de maneira adequada. Será necessária uma leitura atenta, talvez ler duas ou três vezes, buscar textos de apoio, de comentadores daquele autor, para que haja a compreensão.

Esse movimento de busca de compreensão de um texto científico é normal. Quando a gente não tem conhecimento prévio dos conceitos abordados na obra, é impossível ler uma única vez e já saber o que foi discutido.

Entretanto, as leituras cotidianas – uma reportagem, por exemplo – deveriam ser simples para a maioria de nós. E, lamentavelmente, muita gente até acha que leu e entendeu. Porém, quando você pergunta para a pessoa sobre o fato central ou a respeito das principais ideias, é possível perceber equívocos na leitura, erros de interpretação que motivam uma visão deturpada do que estava escrito.

Portanto, a urgência do ensino da leitura objetiva preparar pessoas que possam compreender plenamente os relatos mais variados e tenham a possibilidade de, efetivamente, interpretarem os acontecimentos do cotidiano e até mesmo acessarem o conhecimento teórico e científico sem leituras enviesadas. Afinal, o conhecimento só é possível se os parâmetros básicos para a leitura das informações estiverem corretos.

Três grandes urgências a serem enfrentadas pelos professores

Antes de tratar do tema proposto, um esclarecimento: defendo a necessidade de rompermos com a visão romântica sobre a docência. Ser professor é sim uma atividade diferenciada, porém requer profissionalismo e atitudes coerentes com o mundo em que vivemos.

A gente vive um momento bastante delicado para a educação. E isso afeta diretamente a vida de quem está à frente de uma sala de aula.

Na educação, eu diria que temos duas grandes demandas. A primeira diz respeito à (falta de) qualidade da educação brasileira. A segunda, tem a ver com a necessidade de reinventar a educação em virtude das tecnologias digitais.

Essas duas grandes demandas compõem um cenário assustador. Sim, é assustador. Porque, no Brasil, ainda não existe um consenso sobre como avançar na qualidade do ensino, nossos indicadores de qualidade são os piores e, até o momento, as respostas para o setor são as piores possíveis.

No que diz respeito ao universo digital, se sequer sabemos como avançar na qualidade no ensino de português, leitura, matemática, ciências etc., como conciliar as tecnologias digitais no ensino e ainda lidar com um aluno que já não aprende do jeito tradicional? Seu cérebro se tornou incapaz de concentrar-se?

É neste cenário que estão milhares de professores – da educação infantil ao ensino superior.

Entretanto, embora essas sejam questões que interessam diretamente ao professor, não cabe unicamente ao docente dar conta dessas demandas.

Por isso, ao professor, entendo que existem três grandes urgências. E estas são de única responsabilidade do educador, individualmente.

A primeira delas, valorizar-se. O professor não pode esperar que o mundo o valorize. Nem entender valorização apenas como salário. Falo de reconhecer-se como alguém importante demais e agir com essa mentalidade. Há necessidade de romper com o discurso vitimista e se colocar como um profissional que pode fazer a diferença no mundo.

A segunda urgência é de investir na própria formação. Nenhuma faculdade, especialização, mestrado ou doutorado são suficientes para te fazer relevante em sala de aula. Os professores necessitam aprender coisas novas todos os dias. Isso não tem a ver com a formação continuada oferecida pelas próprias instituições ou pelo governo. Tem a ver com o professor estar conectado ao mundo e conhecer as novidades, estudá-las e ser muito bom não apenas na área que leciona. Faço aqui um acréscimo: conheço dezenas de professores que sequer dominam a escrita; escrevem errado e de forma confusa. Como ter autoridade diante das pessoas se você é fraco?

A terceira grande urgência é compreender o mundo das tecnologias digitais, saber utilizá-las para a própria formação, entender como afetam e estão modificando nosso cérebro, com efeito na aprendizagem e, por fim, dominar essas tecnologias para usá-las no relacionamento com os alunos.

Esses três pontos precisam ser urgentemente enfrentados pelos professores que desejam ser relevantes, profissionais diferenciados no mercado do ensino. Evidente que há inúmeras outras demandas, mas esses desafios que listei dizem respeito apenas ao professor. Aqueles que quiserem ser protagonistas de suas histórias como docentes, necessitam urgentemente repensar atitudes e comportamentos profissionais. Começar por esses três pontos já fará uma enorme diferença.

Podemos escolher que tipo de gente queremos ser

Não temos controle de tudo, mas podemos escolher que tipo de gente queremos ser.

Não gosto do discurso de que somos os responsáveis por nossas conquistas e fracassos. Acho que essa ideia falha quando confrontada com a realidade. O mundo que a gente vive e as condições de vida de cada pessoa condicionam as conquistas individuais.

Um exemplo… Imagine um garoto que acabou de chegar à universidade. Ele acorda às cinco e meia da manhã, entra num ônibus às 6 e 15 e chega ao trabalho às 8h. No almoço, come qualquer coisa, pois tem apenas uma hora de intervalo. Ele sai às 5 e meia da tarde e já vai direto para a faculdade. Chega às 7h e já entra em sala de aula para estudar até às onze da noite. Depois, pega outro ônibus e só vai estar em casa perto da meia noite. Esse garoto dorme durante a semana apenas cinco horas por noite, nunca tem uma refeição balanceada. Estuda apenas alguns minutos no ônibus, quando consegue um lugar para sentar.

Por outro lado, imagine um rapaz da mesma idade, mas que pode dormir bem todas as noites, entre oito e nove horas por noite, ajuda a família na empresa apenas meio período, faz suas refeições em casa e tem todo o suporte da família para priorizar os estudos.

Qual dos dois garotos terá mais chance de obter sucesso na faculdade?

Por mais que o primeiro se dedique, dormir poucas horas todas as noites, comer mal e estar sempre cansado afetam profundamente o desempenho dele. E isso esse garoto não controla. Talvez ele não dê conta de persistir; talvez seja engolido pelas circunstâncias e abra mão da faculdade. Ou seja, as condições de vida dele condicionam o desempenho e poderão limitar suas conquistas futuras.

Entretanto, deixa eu voltar a frase inicial… Não temos controle de tudo, mas podemos escolher que tipo de gente queremos ser.

O garoto de nossa história não tem controle de tudo, mas ele pode escolher ser dedicado, responsável, ético, justo… Ele pode escolher estar sempre aberto ao aprendizado, a fazer bem tudo que lhe chegar às mãos… Pode escolher viver reclamando da vida que tem ou seguir lutando para conquistar uma vida melhor.

Todos nós podemos escolher que tipo de gente queremos ser. Podemos escolher ser pessoas respeitosas, tolerantes, amáveis, caridosas… Essas são escolhas que podemos fazer.

É preciso ensinar a ler

Ao longo dos anos, a qualidade da leitura tem sido uma de minhas preocupações. Não falo aqui da qualidade dos livros ou da literatura, embora eu seja apaixonado por livros e dedique diariamente um tempo a essa atividade tão importante. Falo, porém, da habilidade de interpretar adequadamente um texto.

Ainda ontem, relia os dados da última pesquisa sobre os níveis de analfabetismo no Brasil. De cada 10 brasileiros, três são analfabetos funcionais. São pessoas que não possuem as habilidades necessárias para interpretar corretamente uma única frase. Pior, parte dos analfabetos funcionais está nas universidades – ou seja, o sistema de ensino no país é tão precário que permitiu que essas pessoas chegassem ao ensino superior sem o domínio da leitura.

Mas o dado que mais me incomoda é saber que apenas 1 em cada 10 brasileiros é leitor proficiente – alguém que reúne o conhecimento necessário para ler, interpretar e fazer as conexões necessárias a partir do texto lido.

O nível do leitor não está relacionado à inteligência. Não tem a ver com a pessoa; tem a ver com o ambiente em que ela vive e o caráter da instrução recebida. A alfabetização plena, portanto, não é um ideal inalcançável.

Entretanto, no modelo atual de ensino, a leitura não é uma habilidade desenvolvida adequadamente.

Eu me surpreendo quando peço a leitura de um texto aos meus alunos na faculdade. Frequentemente, reclamam que o texto é difícil e que não conseguiram entendê-lo corretamente. Isso mostra a gravidade do problema. Note bem, sou professor na área de Comunicação, onde o domínio da leitura é requisito básico para o exercício profissional do Jornalismo e da Publicidade e Propaganda. Gente que tem dificuldades de interpretação de um texto terá problemas em comunicar uma mensagem de maneira eficiente e eficaz.

É urgente repensar as estratégias que estão sendo utilizadas na escola para preparar nossas crianças, adolescentes e jovens para a leitura.

Como eu disse, a alfabetização plena depende do caráter da instrução recebida e do ambiente em que a pessoa vive.

Isso quer dizer que é necessário estimular positivamente o aprendizado da leitura. E hoje mais que antes, porque o ambiente não é favorável ao desenvolvimento da interpretação do texto escrito.

Somos uma sociedade da imagem, do som… Uma sociedade de pessoas distraídas, de olhares superficiais. Além disso, ainda que existam muitos textos escritos nas redes sociais, são curtos, pobres de sentido e o leitor raramente é confrontado sobre a natureza do que está verbalizado. Noutras palavras, quase nunca o leitor tem seu entendimento confrontado a fim de que reconheça as fragilidades da interpretação.

Concluo dizendo: se desejamos melhorar a qualidade do ensino, temos que investir fortemente na aquisição dessa habilidade fundamental, a leitura. Sim, precisamos ensinar a ler a fim de capacitar as pessoas a interpretarem um texto. E ouso afirmar que essa tarefa deve começar da interpretação de cada frase, antes mesmo de entendê-la no contexto, na globalidade do texto.

​Qual a causa da estupidez coletiva?

Muito antes da internet, pensávamos que o problema era a falta de informação. Hoje, temos informação disponível. Mais do que damos conta de consumir. Entretanto, a quantidade e a disponibilidade de informação não resolveu o problema. A estupidez ainda reina absoluta e, com ela, a ignorância.

Talvez alguns apontem que o problema da estupidez coletiva agora seja o excesso de informação. Ou a (falta de) qualidade da informação.

Eu diria que nem uma coisa e nem outra.

As razões não são muito claras, mas é possível dizer que a estupidez está relacionada à formação do indivíduo. É possível ser ignorante, no sentido de não ter o conhecimento formal, mas não ser estúpido.

O inverso também é verdadeiro: é possível ser alguém que possui informação e ainda assim ser estúpido.

Na verdade, a informação não salva ninguém da estupidez.

Se a gente não souber se relacionar com as informações, filtrá-las e aproveitar apenas o que realmente é relevante, nada muda. Gente estúpida, com acesso à informação, tem potencial de se tornar ainda mais perigosa, porque passa a se sustentar em pseudos conhecimentos para justificar seus argumentos. As fakes news estão aí para provar o que estou falando.

As redes sociais ainda potencializam a estupidez em função do sistema de algoritmos. O sujeito vive numa espécie de bolha em quase toda a informação que acessa apenas confirma o que ele supostamente já sabe. E, pior, por notar outras pessoas reproduzindo saberes semelhantes, o estúpido sente-mais poderoso, autorizado a falar.

O filtro é desenvolvido no processo de formação do indivíduo. Por isso, é fundamental a educação que a criança recebe em casa, o trabalho desenvolvido na escola, a mediação de bons professores, as brincadeiras, as amizades… Os relacionamentos que temos desde a infância.

Esse conjunto de variáveis produz valores que servirão de critérios que irão determinar nossas reações diante do mundo – da abertura para o aprendizado, do respeito com o saber alheio, da curiosidade em conhecer mais.