Um país gigante, mas insignificante em conhecimento, inovação

Relatório do Índice Global de Inovação, divulgado esta semana, mostra que o Brasil é apenas o 64º país no ranking de inovação. Somos a oitava economia do planeta, o quinto maior em extensão territorial, somos um dos maiores produtores de alimentos do planeta, mas somos insignificantes quando o assunto é inovação.

No ranking de inovação, o melhor país da América é o Chile; aparece na 47º posição. O índice é publicado anualmente pela Universidade Cornell, Insead e Organização Mundial de Propriedade Intelectual.

Quando terminaram as quartas de final, muita gente lamentou o fato de não ter restado nenhum dos países da América entre os quatro melhores da Copa. Os três gigantes da América, com nove títulos mundiais – Argentina, Uruguai e Brasil – foram eliminados no mata-mata.

Na elite do futebol, ficaram apenas os europeus.

Algumas pessoas se dedicaram a tentar explicar o fato. Mas há algo que nem todo mundo tem observado: o mundo de hoje é da competência, da organização, da especialização, da profissionalização. Não há espaço para amadores.

E por que falo de Copa do Mundo, quando o assunto principal é a pequenez do Brasil no ranking de inovação? Porque o futebol é espelho da cultura de um país de gente que quer dinheiro, mas tem pouca disposição em experimentar coisas novas, buscar o conhecimento, investir em formação ampla – que vai para além da mera qualificação para uma única atividade.

No futebol ou em qualquer outra área, não há mais espaço apenas para o talento. O talento precisa ser lapidado. E isso só acontece em espaços que privilegiam a inovação. 

Ao longo de sua história, o Brasil do futebol, da política, da ciência e dos negócios tem se contentado com pouco. Basta os poderosos ganharem dinheiro e está tudo certo. Não existem políticas de longo prazo, não se fazem reformas estruturais e nem há preocupação de fato em fazer investimentos em infraestrutura, tecnologia e muito menos contemplar o desenvolvimento de todas as pessoas.

O ranking inovação, hoje, é liderado pela Suíça. Depois, temos os chamados Países Baixos, Suécia, Reino Unido, Cingapura, Estados Unidos, Finlândia, Dinamarca, Alemanha e Irlanda.

Lideram o ranking porque têm altas taxas de depósito de pedidos de propriedade intelectual, criação de aplicativos, gastos com educação, publicações científicas e técnicas. Ou seja, há um investimento real na promoção do conhecimento e este conhecimento se espalha por diferentes setores. A condição de vida das pessoas melhora, a economia cresce e tudo mais se moderniza.

Podcast da Band News. 

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Informação não é conhecimento

A gente vive um período singular na história. Nunca tivemos tanta informação disponível.

Há alguns anos, acreditávamos que a sociedade da informação seria sinônimo de sociedade do conhecimento. Hoje, sabemos que não é assim que funciona. Talvez nunca será dessa maneira. Somos como peixes no mar… Há tanta água em torno do peixe que ele sequer percebe todo o universo que o rodeia e, principalmente, o que realmente importa.

Pesquisadores observam que o excesso de informação pode dificultar o conhecimento. Afinal, informação não é conhecimento. Informação proporciona conhecimento à medida que sabemos o que fazer com as informações que estão disponíveis.

Para que a informação se transforme em conhecimento, é necessário realizar algumas operações. Duas delas são fundamentais: a) capacidade de atenção; b) insistência para desenvolver e manter a atenção.

O que tem valor e terá cada vez mais valor é a capacidade de selecionar a informação oportuna e investir nossa atenção para compreendê-la. Para isso, temos que ter critérios, sabermos filtrar o que é o que não é relevante; além disso, desenvolvermos a habilidade de nos mantermos atentos. Sim, porque nos distraímos muito facilmente.

Nossa mente é vagabunda… Gosta de novidades. Nossa atenção muda o foco rapidamente em busca de coisas aparentemente mais interessantes, que nos proporcionem algum tipo de recompensa – geralmente, coisas que nos entretém, nos divertem…

E o universo informacional é tão grande que a gente se move de um lugar para o outro, vendo fotos, memes, vídeos… Mas nada disso constrói efetivamente um conhecimento. É só passatempo.

Por isso, a capacidade de atenção é o grande capital da pós-modernidade. A atenção, a capacidade de se manter atento, focado em algo, é o que assegura chegar ao conhecimento.

Algumas pessoas – poucas, infelizmente – ao perceberem que estão se distraindo, voltam-se rapidamente para o que estavam fazendo. Outras se deixam levar, perdem horas e horas. E nada aprendem.

Para lidar com todo o universo informacional, é preciso priorizar. Saber o que quer aprender e investir energias em busca de formar um conhecimento. Deixar-se levar pelo que está disponível nos torna vazios. Vemos tudo, lemos tudo, mas não aprendemos nada.
Podcast da Band News FM.

Investimentos caem nas universidades federais; custo-aluno é de R$ 6 mil/ano

No Brasil, alguns setores são prioridade apenas no discurso. A educação é um dos principais exemplos. A educação brasileira carece de atenção em todos os níveis – da educação infantil ao ensino superior e pós-graduação.

Um levantamento bastante completo realizado pelo G1 nas universidades federais reforçou a convicção de que as políticas educacionais são uma grande falácia.

Nos últimos cinco anos, o investimento nas 63 instituições federais caiu 28,5%. Enquanto em 2013, foram aplicados cerca de 8 bilhões e 700 milhões de reais, neste ano, o orçamento previsto é de pouco mais de 6 bilhões.

Embora o dinheiro esteja encolhendo, mais vagas estão sendo abertas. O número de alunos cresceu 10% entre 2012 e 2016. No total, as universidades federais recebem 1 milhão e 72 mil estudantes.

Os cortes nos investimentos afetam as universidades de várias maneiras. As bolsas estudantis estão congeladas. Também ocorreram cortes nas contas de água e luz, serviços de limpeza, vigilância, corte de grama e manutenção dos prédios. As obras, construções e reformas foram reduzidas. E até os recursos para os restaurantes universitários foram afetados. Pelos menos os salários dos professores estão sendo preservados.

Particularmente, entendo que as universidades nem sempre fazem boa gestão dos recursos. Não há necessidade de motorista para transportar reitor, chefes de departamento etc. Também é possível otimizar as despesas de viagens e até de manutenção.

Porém, diferente do argumento privatista de alguns segmentos, o estudante brasileiro em uma universidade pública não custa caro ao Estado. Se fizermos as contas, dos 6 bilhões aplicados em 1 milhão de estudantes, temos exatos 6 mil reais por aluno – pouco mais que o custo de um dia de serviço de um deputado federal (eles custam 2 milhões de reais por ano aos cofres públicos; isso dá cerca de 5,5 mil reais/dia). Cada aluno universitário custa 500 reais por mês à União. Não é muito dinheiro.

Portanto, chega a ser criminoso tirar dinheiro da educação.

Podcast da Band News. 

O excludente sistema de educação

Sustento a necessidade de debates profundos sobre o Brasil, porque a política do imediatismo e do discurso fácil tem nos tornado um povo sem perspectivas de desenvolvimento efetivo.

Por exemplo, números da educação revelam que de cada 100 crianças que entram na escola:
– 65 terminam o ensino médio;
– 18 concluem o e.m. sabendo Português adequadamente;
– 5 aprendem matemática como deveriam;
– 7 entram na faculdade.

Os números são pífios. Mostram que o sistema educacional brasileiro é uma máquina de excluir pessoas e tem falhas profundas que resultam em deficiências no aprendizado.

O fracasso do modelo pode ser notado já nos primeiros anos. A Avaliação Nacional de Alfabetização mostrou que 55% dos alunos do terceiro ano do ensino fundamental não têm aprendizado adequado de leitura.

É este cenário que faz do Brasil, o quinto maior país do planeta, oitava economia do mundo, ser apenas o 80o mais competitivo, conforme o Fórum Econômico Mundial.

A escola deve transmitir valores

Nos últimos anos, ganhou força, principalmente no Ensino Médio, a ideia de que a escola deve focar no conteúdo. Estudar, estudar, estudar. E estudar pra quê? Pra passar no vestibular, ter excelente nota no Enem… Enfim, garantir uma vaga na universidade.
A proposta não é de toda ruim. Afinal, quem não quer ver o filho numa excelente faculdade?

Porém, a geração atual é carente de outras experiências. Experiências que muitos de nós, que já passamos dos 40 anos, tivemos a oportunidade de vivenciar. Seja pelas brincadeiras com os amigos, o cuidado dos irmãos mais novos, a presença dos pais – inclusive de forma disciplinar… Ou mesmo o trabalho já na adolescência.

Além disso, a própria escola proporcionava uma experiência agregadora. A gente estudava, mas também brincava, participava de campeonatos interclasses, não existiam graves problemas disciplinares… Eu recordo que, no meu colégio, cheguei a cultivar uma horta com um grupo de amigos. Ou seja, a gente não vivia sob a pressão de garantir uma vaga na universidade. Sem contar que todas essas outras vivências e relações nos permitiam uma maturidade que não encontramos entre os meninos e meninas de hoje.

Hoje, nossa moçadinha tem uma vida completamente diferente. E, embora possuam um preparo escolar bastante significativo (além de todas habilidades tecnológicas), são carentes de experiências afetivas, éticas, morais. Falta aos adolescentes valores como empatia, cooperação, liderança, cautela, tolerância… Na prática, se a escola não tiver uma proposta pedagógica que contemple estratégias para que eles desenvolvam habilidades sócio-emocionais, não haverá outro lugar para isso ocorra.

Devo dar liberdade aos meus filhos?

Alguns pais de adolescentes questionam:

– Devo ou não devo dar liberdade aos meus filhos?

Essa pergunta me faz pensar sobre o que entendemos por liberdade. Se a compreensão de liberdade for “meu filho quer fazer as próprias escolhas”, sinto muito, mas não dá para permitir que um adolescente decida sobre a vida dele.

Embora exceções existam, nossos garotos e garotas não têm maturidade para isso. Não possuem vivências. E as experiências que esse tipo de liberdade pode proporcionar não acrescentam muita coisa.

Quase sempre, as decisões dos adolescentes são pautadas pelo grupo. A moçadinha geralmente segue o que todo mundo está fazendo.

Entretanto, na voz do grupo nunca há sabedoria.

Por isso, os pais precisam, sempre que necessário, confrontar os filhos e estabelecer limites.

Talvez o adolescente diga:

– Mas todo mundo vai. O pai de fulano deixa.

Nessa hora é preciso ter forças e coragem pra dizer:

– Mas você não é todo mundo. E eu não deixo.

Muitos pais não são capazes de fazer esse enfrentamento por que temem perder o amor dos filhos. Não querem desagrá-los.

Posso assegurar, é melhor ter um filho com raiva da gente por um ‘não’ que sustentamos que chorarmos depois, culpados por nos faltar coragem para educá-lo.

Qual é o perfil do leitor de hoje?

O maior filósofo vivo da atualidade, o alemão Jürgen Habermas, disse, em recente entrevista ao jornal El Pais, que o leitor de hoje está muito distante do que desejado. Afinal, quando a gente escreve por aqui, por exemplo, tudo que deseja é que exista alguém que compreenda de maneira plena a reflexão proposta.

Habermas afirmou que “não pode haver intelectuais se não há leitores”.

Acontece que esse tipo de texto, ou de vídeo com conteúdo um pouco mais elaborado (ou intelectual intelectual, digamos) atinge pouca gente. As pessoas, acostumadas com o universo das redes, gostam mesmo é das frases feitas, dos clichês, dos gritos, das agressões, xingamentos… Nada muito elaborado. Apenas um texto de efeito, não de conteúdo complexo.

Eu confesso que as observações do filósofo Habermas me entristeceram um pouco. Eu não gostaria de acreditar que as pessoas preferem consumir conteúdos do estilo que elegeram Donald Trump, nos Estados Unidos. Afinal, não acho que em pleno século 21 a gente mereça uma sociedade de pensamento tão simplista.

Quem disse que estudar tem que ser legal?

estudar

A gente vive um momento muito peculiar. Tudo tem que ser legal. Divertido. Até fazer uma visita na casa de um parente, tem que ser um programa legal. Ninguém lembra que algumas coisas são feitas porque precisam ser feitas.

Estudar é uma delas.

Gente, não tem jeito do estudo ser legal. É um processo de agressão à mente. Sim, porque a gente está tentando colocar no cérebro informações novas. E esse processo é doloroso, cansativo. Não tem jeito de passar horas numa sala de aula ou lendo e relendo textos, livros, resolvendo exercícios… e fazer disso uma atividade divertida.

Quando somos pequenininhos, ainda nos primeiros anos, parte do aprendizado ocorre por meio das brincadeiras. Aí sim é leve, agradável…

Mas, depois, quando começam os conteúdos formais, mais densos – leitura, cálculos, história, geografia, ciências… Quando começam esses conteúdos, não tem como ser divertido. Nem se a gente usar joguinhos. Até porque não dá para ter joguinhos até o final do ensino médio ou durante a faculdade. O processo de aprendizagem é cansativo sim. E aborrece.

Pais e professores precisam mostrar isso para as crianças e adolescentes. A gente estuda, porque o aprendizado é necessário e porque nos torna pessoas dotadas de conhecimentos fundamentais para a vida em sociedade e para o progresso do mundo. O estudo é uma tarefa importante, como um trabalho que deve ser executado.

Se a gente não mostrar isso para nossos alunos, se eles não entenderem que o ato de estudar requer foco e esforço, muita dedicação, o sistema educacional vai continuar sem rumo e nós, brasileiros, seguiremos com os piores índices de educação no mundo.