As exigências sobre a escola

Por muitos anos, a escola tem sido vista como um espaço para discussão de tudo que precisamos aperfeiçoar na sociedade.

As cidades precisam civilizar o trânsito? Vamos discutir isso na escola.
As crianças estão se alimentando mal? Vamos tratar disso na escola.
O planeta precisa ser melhor cuidado? Vamos tratar de meio ambiente e sustentabilidade na escola.
As pessoas não estão sabendo lidar com a internet? Vamos pautar esse tema na escola.
E por aí vai…

Ninguém diz efetivamente o que precisa ser feito, muito menos como ser feito. O negócio é empurrar pra escola.

De fato, a sala de aula é um ambiente privilegiado; o melhor espaço para promoção do saber. Na escola, o ensino é sistematizado, o processo de aprendizagem envolve disciplina, organização… Além disso, o saber é pautado pelo conhecimento científico.

Ou seja, justifica-se apostar na escola como o melhor lugar para promover o debate de assuntos que têm a ver com a vida das pessoas, com nossa relação com o mundo.

Entretanto, existe um problema: exige-se que o professor promova uma série de reflexões, mas a escola não ganhou estrutura adequada para isso. Muito menos houve mudanças na grade curricular. Na prática, não há tempo para tantas demandas e nem profissionais especializados.

Junto com tudo isso, a escola é pressionada pela sociedade, que, como regra, nada entende da dinâmica educacional; sobram conteúdos que não se justificam na escola – e isso nas mais diversas áreas (Física, Química, Matemática, Biologia etc.) – há um processo de desrespeito ao professor, por parte das pessoas e da classe política; os debates sobre os modelos de ensino são politizados e as reformas propostas quase sempre não possuem sintonia com a realidade da própria escola…

Como então esperar que a escola cumpra, de fato, seu papel social? Tenho comigo que, pelo contexto em que vivemos, inclusive no que diz respeito aos investimentos recebidos, a escola e professores têm sido verdadeiros heróis.

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A educação é um direito de todos?

A constituição federal diz que a educação é um direito de todos. Crianças, adolescentes e jovens, pobres ou ricos, têm direito à educação.

A ideia de ser um direito parece ter tido um efeito bastante nocivo na visão que temos da educação.

De certo modo, parte significativa da população se relaciona com a educação de maneira passiva. Se é um direito, eu mereço ser educado. Ou seja, essa visão implica a obrigação de um terceiro fazer algo por nós. Alguém nos educa.

O problema é que essa visão transfere para o outro o dever de fazer com que o processo de educação dos nossos alunos seja bem sucedido.

E a dinâmica, na prática, é outra. A educação é algo que se conquista. É algo que o aluno faz por si mesmo. O professor, a escola, o Estado não podem fazer pelo aluno aquilo que é papel dele.

É dever do Estado (ou do dono da escola) assegurar a vaga, o funcionamento da escola, a estrutura física adequada, a presença do professor na escola; mas cabe ao aluno o dever de se abrir para o que é ensinado e buscar efetivamente a sua formação.

Esta deveria ser a compreensão de todos nós a respeito da educação. A educação não é algo que alguém faz por mim; é algo que eu faço por mim.

Quando a gente entende isso, muda toda a dinâmica. Muda, porque, se alguma coisa não está funcionando, a gente vai atrás. Cobramos, questionamos e, principalmente, entendemos que somos os protagonistas de nossa história – os responsáveis pelo sucesso de nossa formação.

Que conteúdos informativos você consome?

Esta é uma pergunta que vez ou outra algumas pessoas fazem pra mim.

Eu tenho critérios muito claros. Primeiro, não consumo nada que seja encaminhado pelo messenger, whatsapp e que não tenha origem conhecida. Segundo, não leio informações divulgadas com frases do tipo “repasse”, “não se omita”, “vamos compartilhar”… Muito menos aquelas fotos cheias de texto, com frases de efeito. Terceiro, nada de canais que se dizem informativos, mas não seguem as regras do jornalismo. Quarto, não leio e nem assisto canais de pessoas que não tenham formação acadêmica sólida e não sejam moderadas na escrita ou na fala.

E meu principal critério é: duvidar sempre, questionar e comparar. O Google existe pra isso.

Meus critérios não são os critérios da maioria das pessoas.

O presidente eleito, por exemplo, divulgou uma lista de canais no Youtube que ele sugere aos seus eleitores e seguidores. E, da lista de Bolsonaro, não há nada que seja realmente aproveitável. Até dá para assistir uma coisa ou outra, mas só se a pessoa tiver uma visão muito ampla de mundo para saber filtrar o que é divulgado nesses canais.

A internet possibilitou o surgimento de todos esses espaços que, hoje, contribuem para a formação do universo informativo. A proliferação desses canais é algo altamente positivo. Rompeu com o monopólio informativo dos meios de comunicação tradicionais e, ao desestabilizá-los, tem obrigado a imprensa a se especializar ainda mais.

Entretanto, a população não foi educada para saber como consumir esse conteúdo. Não há formação de leitura crítica. Somado ao assustador analfabetismo funcional, que é uma realidade no país, a ignorância do nosso povo tem se aprofundado – uma ignorância agora sustentada não pela ausência de informação, mas por pseudoverdades que circulam na rede.

Tem doutrinação nas escolas?

A educação é tema de toda campanha eleitoral. Faz parte do tripé que aparece nas prioridades de todo candidato a prefeito, governador ou presidente da República. Afinal, que político não faz promessas para educação, saúde e segurança?

No que diz respeito à educação, curiosamente, todo mundo fala, todo mundo palpita.

O problema é que a maioria desconhece o que efetivamente acontece nas escolas e, principalmente, nas salas de aula.

Esse desconhecimento se estende às famílias – que tem filhos estudando. A maioria dos pais não sabe o que está sendo trabalhado pelos professores, desconhece a rotina e quase não participa da vida escolar dos filhos. Os pais estão alheios ao que ocorre – e por opção deles, não por causa da escola.

Um dos temas recentes, que faz parte das bobagens que as pessoas repetem, é a suposta doutrinação que ocorreria por parte dos professores.

Trata-se de uma bobagem tão grande que não sei como classificá-la. Talvez se assemelhe ao saci pererê, mula-sem-cabeça ou algo parecido. Tem gente que diz que existe e que viu, mas não passa de lenda.

Doutrinar seria um processo que transcende o mero convencimento. Uma criança, um adolescente, vítima de doutrinação, ficaria cego, veria o mundo apenas na perspectiva para a qual foi doutrinado.

Noutras palavras, os professores fariam lavagem cerebral em seus alunos.

Não, amigos, isso não acontece.

Eu reconheço e concordo que existem professores que, em sala, são militantes. E isso é um fato. Professores que militam em prol de causas que entendem ser justas e necessárias. Entretanto, o número de docentes que faz isso é muito pequeno. E, se os pais participassem da vida escolar dos filhos, poderiam cobrar a escola para inibir essas práticas, pois a legislação que trata da educação é clara: a sala de aula é um ambiente para um ensino plural, que abrange diferentes perspectivas.

Detalhe, quase sempre professores-militantes estão nas universidades – e também por isso exercem pouca influência sobre a maioria dos alunos. Na prática, viram motivo de piada e até de rejeição por parte de alguns estudantes.

Nas escolas da rede fundamental e nos colégios de ensino médio, os militantes – supostos doutrinadores – praticamente são inexistentes. Professores que atuam nessas etapas da educação raramente possuem formação para serem militante. Por isso, quando militam, atuam quase de forma caricata.

Tem outro detalhe, as escolas, hoje, até o ensino médio, possuem tantas demandas, exigem-se tantas coisas para serem trabalhadas, que sequer dá tempo de o professor ficar levantando bandeira em sala de aula.

Volto a repetir, é fato que vez ou outra aparece um professor se posicionando de forma contundente a respeito de algum assunto, atropelando o bom senso e até mesmo os valores dos alunos e suas famílias – inclusive desrespeitando a orientação das próprias escolas. Mas essas situações são esporádicas, não justificam a imposição de uma lei que instale a mordaça e que acabará por impor uma única forma de ver o mundo.

Uma última palavrinha: se você ainda acha que tem doutrinação, visite a escola de seu filho. Procure conversar com coordenação, direção, professores… Tome conhecimento da rotina escolar, dos conteúdos em sala. Acompanhe! Certamente você vai descobrir uma série de problemas, mas também verá a escola com outros olhos.

O blogueiro/youtuber é quem sabe tudo?

Nestes dias, retomei o estudo da obra de Darcy Ribeiro. O antropólogo, escritor e político brasileiro foi um dos maiores pesquisadores da identidade de nossa gente. Educador, homem comprometido com o ensino e responsável por reformas universitárias em vários países da América, Darcy Ribeiro deixou-nos vários livros que deveriam ser leitura obrigatória.

Ontem, enquanto relia alguns dos argumentos de Darcy Ribeiro, pensava em como estudos com tamanha profundidade são, hoje, descartados facilmente e desconstruídos com base em meia dúzia de frases de qualquer blogueiro ou youtuber que está alinhado a algum movimento político.

Por exemplo, se, para embasar alguns argumentos, eu retomasse as discussões feitas pelo antropólogo, certamente apareceria alguém para desqualificar Darcy Ribeiro.

Lamentavelmente, esse movimento tem sido recorrente. Especialistas e pesquisas respeitáveis, credibilidades têm sido colocadas em xeque por gente ignorante, que despreza o saber e desqualifica o conhecimento produzido em estudos sérios, profundos.

Um dos maiores educadores brasileiros, Paulo Freire, tem sido visto como nefasto para a educação do país. E a ignorância é tanta que essa gente sequer sabe que, infelizmente, a escola brasileira tem quase nada de Paulo Freire – se tivesse, talvez seria muito melhor.

Eu confesso que ando assustado com esse movimento: para rebater um argumento, pesquisadores são desqualificados. E o movimento se estende também ao universo informativo proposto pela imprensa profissional.

Se é publicada uma reportagem contundente, uma denúncia, por exemplo, e essa informação incomoda algum grupo político, rapidamente aparecem blogueiros, youtubers desqualificando o veículo de comunicação e até o jornalista.

Há uma indisposição para ouvir o contraditório – ainda que apresentado por uma pessoa séria, que passou anos se dedicando à pesquisa ou que tem um currículo invejável.

Durante a campanha eleitoral deste ano, vi isso várias vezes. Você pega duas ou três análises econômicas, feitas por doutores em economia, em gestão pública, manda pra uma pessoa e ela rebate tudo aquilo que está ali tomando como referência um argumento tosco usado por alguma figura que está na internet, às vezes, simpatizando de político ou ideologia política.

Isso é simplesmente assustador. E é assustador porque perpetua a ignorância, o desconhecimento… Porque há uma valorização do senso comum, do argumento raso, do mito em lugar da ciência.

E isso só confirma o que Darcy Ribeiro já dizia há quase 50 anos… No Brasil, parece haver certo conforto na ignorância.

Pais devem ensinar os filhos a serem resistentes, resilientes

É fato que temos dificuldade em assumir as nossas responsabilidades. E isso acontece nas diferentes esferas da vida. Também ocorre com nossos filhos.

Frequentemente, vejo pais esperando que a escola faça pelos filhos aquilo que eles, os pais, não fazem.

Uma das coisas tristes é notar que muitos pais criam filhos frágeis a ponto de não serem capazes de lidar com uma ou outra brincadeira de um colega.

Sim, existe bullying. Porém, essa palavra que entrou no nosso vocabulário mais recentemente, parece ter sido incorporada para toda e qualquer situação.

Uma brincadeirinha sem graça de um grupinho contra uma ou outra criança já é chamada de bullying. A criança se encolhe e os pais ficam bravos querendo que a escola resolva o problema.

Desculpa, gente… Porém, muitas das falas maldosas entre crianças e adolescentes não são bullying. São apenas isso: falas maldosas, características da idade. A escola e as famílias devem atuar no processo de educação para que os tratamentos sejam respeitosos. Porém, também é dever dos pais ajudar seus filhos a serem resistentes a esse tipo de situação.

Existe hoje muito coitadismo, vitimismo.

A mãe olha pra filha e diz:

– Tadinha da minha filha; ninguém gosta dela. As coleguinhas são tão maldosas… Tratam ela tão mal.

O que essa mãe está fazendo? Está, inconscientemente, dizendo para a filha que ela é uma coitada, uma fraca, uma pessoa que não é amada, respeitada…

O pai e a mãe não preparam o filho para enfrentar o mundo e aí o problema são os outros.

Lamento dizer, mas se você não preparar seu filho, sua filha, para enfrentar cara feia, comentários maldosos, para não lidar com a concorrência, você estará educando sua criança para se tornar um adulto banana, um molenga que vai se encolher diante dos primeiros problemas de relacionamento.

E a culpa é toda dos pais.

Devemos ensinar nossos filhos a lidar com os conflitos, brincadeiras maldosas, chacotas dos colegas… Eles precisam ser resistentes e resilientes, pessoas capazes de superar obstáculos, resistir às pressões, estresses… e sem entrar em choque, sem se apequenarem.

A destruição agora é criativa…

Repetidas vezes afirmei que tenho medo de pessoas que dizem: “eu sou sempre assim”. Tenho medo porque gente que não muda é gente que não acompanha os movimentos da própria vida. E a vida é movimento.

Também me incomodo com pessoas saudosistas, gente que achava o passado melhor e luta para trazer o passado de volta.

Acontece que o passado pode até trazer lembranças e boas lições de vida. Porém, se não gostamos do presente, a culpa é justamente da história que foi escrita anteriormente. O que se vive hoje é fruto do que foi plantado.

Portanto, precisamos ter a flexibilidade necessária para viver o presente, construindo e reconstruindo nossos hábitos, saberes e práticas.

E este é um ponto fundamental e que talvez seja um tanto agressivo para quase todos nós: devemos ter disposição de aprender sempre, abrindo mão de tudo que aprendemos – e esse fluxo em intervalos cada vez mais curtos.

Sim, o que eu sei agora poderá não ter valor algum no final da tarde. Devo estar aberto para abrir mão do que sei e começar tudo de novo logo na sequência.

O sociólogo Zygmund Baumand, ao analisar o tempo presente, afirmou que a vida hoje é de constantes reinícios – um período no qual não há certezas e que toda ênfase está justamente em esquecer o sabe, apagar, desistir e substituir.

A destruição funciona de maneira criativa. Destruímos para começarmos de novo. Destruímos um modo de vida, um modo de trabalharmos, um modo de aprendermos, um modo de nos relacionarmos…

Claro, toda destruição é também a destruição um pouco do que somos, da nossa existência. E nem sempre damos conta de acompanharmos o ritmo frenético das mudanças.

Mas, gostemos ou não, esta é a condição essencial para sobrevivermos no momento presente.

A importância da leitura dos clássicos

Abrir-se para o aprendizado constante é a essência de uma pessoa culta. Aprender sempre e se dispor ao diálogo com saberes construídos ao longo da história da humanidade nos permite ver o mundo para além das obviedades.

Neste sentido, a literatura clássica tem papel fundamental. Quando a gente pega um texto escrito por Platão, Aristóteles, Sêneca… Ou ainda Shakespeare, Victor Hugo, Dostoiesvski, Eça de Queiroz, Machado de Assis… Quando lemos esses autores, mantemos um diálogo intergeracional, aprendemos com essas pessoas, ampliamos nossa visão de mundo.

Por outro lado, quem se fecha para esse aprendizado, torna-se uma pessoa inculta. Ou seja, o que é o inculto? O inculto é aquela pessoa que passa pela vida sem escutar outra voz que não a sua. O culto é aquela pessoa consciente de que está envolto em várias vozes que vêm do passado e que, ao ouvirmos essas vozes, compreendemos outras maneiras de dar significado, sentido aos vários movimentos da vida e da sociedade.

Entendo que não é simples voltar-se para a literatura clássica, para textos escritos em épocas tão distintas da nossa. Porém, o pensamento desses grandes autores ajudam-nos a ampliar a memória. É como se, ao aprendermos com eles, passassem a existir em nós, a conviver conosco. Deixamos de pensar sozinhos; pensamos com eles, dialogando com outras tantas experiências, que são riquíssimas.

Além disso, textos considerados difíceis são um grande desafio intelectual. Desafio este que nos tira da zona de conforto e, semelhante aos exercícios físicos mais complexos, que refinam os nossos movimentos e nos fazem descobrir musculaturas que sequer sabíamos que existiam, os textos tidos como difíceis exercitam nosso cérebro, ampliam nossas habilidades cognitivas, nos fazem descobrir novos mundos.