O que significa ser um indivíduo?

Nem sempre a gente se dá conta que algumas palavras que usamos são conceitos nascidos em diferentes campos da ciência. Indivíduo é uma dessas palavras. Ela remete à ideia de uma pessoa única, distinta, diferente, dona de si, responsável por seus atos. É alguém que possui uma identidade que se distingue das demais pessoas (ou, dos demais indivíduos).

Porém, no mundo em que vivemos, o indivíduo pode ser tudo, menos diferente e único. Na sociedade de consumo, seguimos as mesmas estratégias de vida, usamos símbolos comuns. Mesmo quando queremos nos distinguir dos demais, a busca por essa distinção se assemelha a um desejo que também está no outro.

Ocupados em construir uma individualidade, não notamos o quanto somos semelhantes.

Esse empenho por buscar descobrir – e construir – nossa identidade leva-nos muitas vezes a investir no autoconhecimento. E isso não é ruim. Porém, como diz Bauman, a viagem pela autodescoberta, por saber quem somos, quase sempre termina numa teia global em que receitas de individualidade são vendidas no atacado.

Afinal, quem não conhece livros de auto-ajuda, palestras de motivação que repetem o bordão: “seja você mesmo”? Apenas uma receita para todos! Mas que promete que cada pessoa será única. Grande falácia!

A busca por ser um indivíduo também tem nos feito perder é o senso de comunidade. Na busca por sermos únicos, tem ficado de fora de nossas preocupações as relações interpessoais, a proximidade, o contato face a face.

A própria ideia de socializar, de estar em comunidade, quase sempre se confunde com um barzinho com os amigos, uma balada… Ou seja, a socialização é focada no eu, no meu prazer, no meu gosto. E, na prática, a socialização é mediada pelo consumo.

Curiosamente, em nossa sociedade, a luta por sermos nós mesmos geralmente passa pelo consumo. Nos distinguimos das outras pessoas pelas coisas que podemos – ou queremos – ter. E, sejamos sinceros, nisso não há nenhuma autenticidade.

A sociedade de consumo construiu uma singularidade marcada pela diferença entre o novo e o ultrapassado. Sou diferente na medida em que tenho as últimas novidades do mercado. Sou diferente na medida em que sou capaz de descartar o que existe de “ultrapassado” – um celular com mais tempo de uso, por exemplo.

Essa busca pela individualidade – que é uma busca por identidade – quase sempre é assombrada pelo medo da solidão e pelo pavor da incapacidade. Construímos um mundo em que queremos sempre mais. Isso nos impede de ter relacionamentos duradouros e, por vezes, até os amigos são nossos adversários (competimos com eles). Isso resulta numa vida um tanto solitária. Esse ritmo intenso, e necessidade de acessar o que o mercado oferece de mais moderno, de estar constantemente se atualizando, também cria em nós a sensação de que não daremos conta, que em algum momento ficaremos para trás, seremos ultrapassados.

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Para que serve a escola?

Existe um descompasso entre qual deveria ser o papel da escola e qual ela cumpre.

Na sociedade capitalista, a escola não tem função libertadora. Embora muito seja falado sobre humanização, respeito, formação para a vida, na prática, o Estado e o mercado possuem outras expectativas. E isso se reflete na proposta pedagógica, já que as estruturas condicionam o sistema educacional.

O movimento recente no Brasil promovido pelo Escola Sem Partido apenas reafirma esse propósito: tornar a escola um espaço desprovido de reflexão, debate, questionamento. O que se espera da escola, na visão desse movimento e de boa parte da elite econômica, é que prepare as pessoas para o mercado de trabalho. Formar mão de obra, este é o objetivo.

Na Europa, autoridades ligadas à educação têm verbalizado ao longo dos anos que espera-se da educação que seja capaz de aumentar as taxas de crescimento econômico e ajude os países na competição com parceiros europeus.

Essa mentalidade não é diferente noutros países capitalistas. No Brasil, inclusive. Aqui, o único problema é que nem para isso Estado e mercado conseguem ser competentes. Falham inclusive na formação do homem-máquina.

Essa forma de pensar é dominante. Para a maioria dos estudantes – e dos pais -, educação é porta de entrada para o mercado. Acredita-se que seja uma passagem para o crescimento/desenvolvimento profissional. Mede-se inclusive a qualidade da escola pelos índices de aprovação em vestibulares, etc – nunca pelos valores éticos.

Qual o problema dessa forma de pensar? A educação torna-se um lugar de reafirmação dos valores do capital. Não promove a liberdade das pessoas. As pessoas se tornam reféns do consumo, do desejo de consumir, de trabalhar para ganhar, ganhar para consumir. E deixam efetivamente de viver. Tornam-se máquinas. Trabalham horas e horas diariamente, sacrificam família, filhos… tudo por roupas melhores, carros melhores, celulares melhores…

Está errado desejar (e lutar por) uma vida mais confortável? Não! Mas essa não pode ser a medida de todas as coisas. Temos perdido a humanidade, a capacidade de nos relacionarmos. A ética tem sido relativizada. A saúde é preterida em nome da produtividade. Parece-me que educação deveria ser bem mais que isso.

Aprendendo com Guimarães Rosa

Tenho me encantado com Riobaldo, de Grande Sertão Veredas. Na verdade, quase não paro na história. Viajo pelas reflexões, pela filosofia de Guimarães Rosa refletida nas falas do personagem.

Na verdade, minha leitura é quase sempre esta… Raramente fico na história. Gosto mesmo é de observar o que é possível aprender a partir dali. Observo as frases cheias de ensinamento… São elas que grifo.

Como não viajar com esses ensinamentos?

“Eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo… Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. […] Para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!”

Sei que ninguém pensa sozinho… Mas a autonomia do pensamento é possível, quando desenvolvemos a capacidade de olhar mais longe, de desconfiar dos pensamentos dominantes, daquilo que a maioria diz que é o certo… A gente pensa por si mesmo quando ouve, mas não toma aquilo que ouviu como verdade. A gente problematiza, questiona, investiga… Isso é rastrear as ideias!

Ou ainda…

“Todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura”.

O autor mais uma vez provoca… Não se trata da existência ou não de uma divindade. Trata-se de ter algo em que se apegar, ter um norte, uma referência… Ter fé para dar conta da própria existência.

Entre tantos outros ensinamentos, Guimarães Rosa lembra que “viver é perigoso”. Ainda quando queremos o bem, se o queremos com força demais, podemos causar o mal. Isso, porque cada pessoa entende o bem do seu jeito, lê o mundo ao seu modo… E, ao tentar consertar o mundo ao seu modo, pode machucar o outro, ferir, entristecer…

Deveríamos aprender com o velho Guimarães Rosa…

A solidão e sofrimento dos pesquisadores

Enquanto observava alguns dados sobre a distribuição de doutores nas diferentes regiões do país, fiquei pensando sobre o quanto é desgastante dedicar-se à ciência. Quem está de fora, quase sempre não consegue ter ideia do que significa o percurso até a conquista do título de mestre e/ou doutor. Talvez por isso haja certa desvalorização do trabalho realizado.

Além das horas dedicadas à produção de um estudo com profundidade, são meses e meses dedicados às leituras, à escrita de pesquisas menores (comunicações, artigos, resenhas etc). Ainda têm as disciplinas, os grupos de estudos, os eventos, viagens… E tudo isso sob muita pressão. Os programas de mestrado e doutorado são avaliados pelo volume de produção. Não basta, portanto, entregar uma dissertação, uma tese ao final de dois, três ou quatro anos.

E esse percurso é muito solitário. No período de faculdade, você convive por alguns anos com a mesma turma. Existem conflitos, brigas, mas também empatia, cumplicidade… Pessoas se tornam amigas, frequentam sua casa, dividem tarefas… Na pós, os encontros são pontuais. Ainda que possamos desenvolver amizades, há pouco espaço para colaboração. Quase sempre a caminhada é sozinha – você, seus livros, seu computador. Os colegas também estão imersos em suas pesquisas. Cada um tem seu orientador, tem sua própria pesquisa, seus próprios prazos. Vivem angústias semelhantes. Porém, com tempo escasso e até pelo ambiente competitivo, ninguém tem condição de dizer “calma aí, vou fazer essa parte para você!”.

A família e os amigos, que não conhecem esse universo, geralmente pouco ajudam. E nem reúnem condições para isso. Frequentemente, não conseguem entender sua irritação, cansaço, estresse e muito menos por que você passa tantas horas lendo, consultando textos ou em frente ao computador. Falta tempo e disposição para um cineminha, barzinho… Lidar com o sono atrasado é parte da rotina.

É nesse ambiente que, silenciosamente, sofrem.  Uma pesquisa divulgada recentemente mostrou que 89% dos estudantes apresentavam sintomas de ansiedade, 64% de angústia, 63% de desânimo e 61% estavam com dificuldades de concentração. Há relatos de mudanças no apetite (muita gente engorda, outras emagrecem), vários casos de depressão… Adoecer durante os anos da pós é bastante comum – embora o assunto seja tabu nos programas de mestrado e doutorado.

Particularmente, não lido com isso de maneira muito diferente dos colegas. Por ter que conciliar trabalho, família e doutorado, por vezes, sinto o desgaste. Gosto, porém, dos eventos científicos justamente por trazerem certo fôlego nesse percurso tão complexo. Neles, a gente encontra outras pessoas que estão em condições muito semelhantes e ainda assim seguem produzindo. Ver todo mundo tentando fazer ciência, de maneira séria, renova os ânimos, faz com que voltemos para casa com vontade de estudar um pouco mais, discutir outros assuntos, propor outras reflexões… E faz até acreditar que isso tudo tem alguma coisa de divertido.

Apenas 8% dos brasileiros sabem ler

Levantamento realizado pelo Instituto Paulo Montenegro trouxe alguns dados assustadores sobre as condições de leitura do brasileiro.

De acordo com a pesquisa, realizada em parceria com a ONG Ação Educativa, apenas 8% das pessoas entre 15 e 64 anos são proficientes em leitura. Ou seja, sabem ler e interpretar textos, tabelas, dados estatísticos etc. Em contrapartida, o percentual dos analfabetos funcionais é de 27% da população. Quem são os analfabetos funcionais? Aqueles incapazes de compreender, de interpretar textos simples.

Fiquei extremamente incomodado quando vi os dados da pesquisa. Afinal, na prática, apenas oito de cada 100 pessoas são plenamente capazes de ler, fazer inferências, contextualizações… As demais, em graus variados, possuem algum tipo de limitação na leitura – mesmo tendo sido alfabetizadas.

E o que isso acaba resultando na prática? Incapacidade de leitura do mundo. Sim, porque o grande problema não é ter dificuldade para compreender um texto escrito. O desastre é maior porque as pessoas significam o mundo de forma distorcida. Pior: acham que estão certas.

Gente com dificuldade de leitura é gente que ignora e que tem potencial de se tornar ignorante, no sentido pejorativo da palavra.

Responsabilidade da escola? Também! Mas não apenas da escola. Na verdade, a escola quase sempre é tão vítima quanto as pessoas que não dominam a leitura. Políticas públicas inadequadas criam um ambiente ruim para o desenvolvimento de boas práticas educacionais. E fazem mais: colaboram para manutenção de uma cultura presunçosa e preguiçosa, que leva as pessoas a não terem prazer no conhecimento. O efeito prático é a ausência de esforço na busca pelo saber.

Ps. Certamente, a pesquisa ajuda a explicar inclusive o que acontece no Facebook e demais redes sociais: esse universo de desencontro de ideias, ódio, agressões…

Ps2. A pesquisa foi divulgada em fevereiro de 2016.