Como educar os filhos sobre o uso do celular?

O celular é hoje um dos dispositivos mais úteis ao nosso dia a dia. E talvez seja o aparelho mais pessoal. É o celular que levamos para todos os lugares. Todos mesmo!

Mas o dispositivo tem se tornado um problema – principalmente para as crianças.

E, por isso, muitos pais questionam: o que podemos fazer?

Devemos entender, primeiro, que nos primeiros anos de vida, os filhos se guiam pelas práticas dos pais.

Aquilo que fazem de maneira bastante interessada vai servir de referência para as crianças. Os filhos consideram interessante tudo aquilo que prende a atenção dos pais.

Se a mãe fica horas diante da tela da televisão, a criança vai achar que algo ali muito interessante acontece. Se o pai se envolve totalmente com a leitura de um livro, a criança vai querer saber o que tem naquelas páginas mágicas.

Ou seja, o que capta nossa atenção desperta o interesse dos filhos.

Portanto, se somos reféns do celular, nossos filhos também serão.

Mas existem outras práticas que formam os maus hábitos no uso do dispositivo.

Os pais não podem ter o aparelho como muleta, como estratégia para evitar que o filho chore, fique agitado ou coisa parecida. Eu sei que é bem mais cômodo dar o aparelho a uma criança de dois aninhos para que ela se comporte na igreja. Ou fique quieta enquanto você come no restaurante. Entretanto, quando os pais fazem isso, estão abdicando do verdadeiro papel que lhes cabe: educar.

As crianças precisam ser contidas e devem aprender a silenciar seus impulsos.

Por fim, não há nenhuma justificativa racional para dar um celular a uma criança de dois, cinco, oito ou até 10 anos. Elas não precisam do dispositivo.

Até o início da adolescência, quando começam a ter alguns compromissos que não requerem mais a presença dos pais, o celular é dispensável.

Por outro lado, nessa fase de desenvolvimento, as crianças carecem de tempo para brincar, devem se relacionar com outras crianças, frequentar parques, andar de bicicleta, fazer tarefas manuais, aprender música, artes…

Isso não transforma os pais em conservadores. Faz dos pais efetivos educadores, preocupados com o desenvolvimento cognitivo e social dos filhos.

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O que é formar um cidadão crítico?

É fundamental pensar a formação escolar numa perspectiva crítica, formar um aluno crítico. A escola, quando foca apenas no conteúdo (Biologia, Física, Matemática, Português etc), sem problematizar os saberes propostos, sem relacioná-los à vida prática, não forma cidadãos. A opção por ensinar os conteúdos das disciplinas não prepara crianças e adolescentes para se tornarem adultos que pensem, e pensem bem.

E eu digo pensar bem, porque pensar todo mundo pensa. Entretanto, um pensamento elaborado, capaz de fazer conexões, relacionar os diferentes saberes para resolução dos problemas cotidianos, para analisar a própria sociedade… Esse tipo de pensamento é resultado de uma formação ampla, que estimule a reflexão crítica.

Mas há algo que me preocupa: formar alunos críticos não é formá-los para serem críticos na perspectiva do professor, da professora.

O educador tem o dever de oferecer diferentes visões de mundo, problematizá-las, relacioná-las ao cotidiano, mas sem assumir bandeiras. Cabe ao professor ser o indutor do pensamento crítico, mas não de um pensamento, como se existisse uma forma única de olhar o mundo.

Fora da escola, todo educador tem o direito de posicionar-se, ser militante de uma causa. Na sala de aula, ele deve ser o motivador da busca pelo saber. E existe uma pluralidade de saberes. Há maneiras muito distintas de interpretar a realidade e propor soluções para ela.

Formar um cidadão crítico é isso: prover um espaço democrático, em que as pessoas tenham voz, sejam estimulados a falar… Assegurando os conhecimentos necessários para que, por si só, o aluno tenha condição de se posicionar. Tendo aprendido sobre diferentes formas de ler o mundo, posicionar-se do jeito dele, não do jeito do professor.

Quando o professor compreende isso, torna-se um educador de fato. E toda a sociedade ganha.

No que os pais estão falhando hoje?

Eu não acredito que os pais falhem na educação dos filhos porque querem. Tenho comigo que todos querem acertar. Entretanto, brinco que entre querer acertar e de fato acertar existe uma grande distância.

Os pais falham hoje em dois aspectos cruciais. Estes dois aspectos têm ramificações, tem suas especificidades na dinâmica de cada família.

O primeiro aspecto é que, hoje, os pais educam com medo. Eles têm medo de agir, orientar, estabelecer regras, disciplinar e, como consequência, traumatizar – ou até mesmo perder o amor dos filhos.

E os pais têm medo do que o mundo pode fazer com seus filhos. Por isso, não querem expor as crianças. Acham que correm riscos. As crianças acabam protegidas das frustrações com os amiguinhos, das correções da escola… São protegidas do trabalho doméstico, são impedidas de sair às ruas, não recebem tarefas para cumprir no comércio – tipo ir à padaria comprar um pão, pagar uma conta na lotérica…

Os pais têm medo dos filhos serem magoados, têm medo da violência urbana… Medo dos filhos se frustrarem por não darem conta de algumas responsabilidades.

O segundo aspecto: os pais têm falhado por ignorarem a importância dos bons exemplos.

Muitos pais pensam que as palavras são suficientes. Repetem: “eu já disse para meu filho não fazer isso”. Porém, esses mesmos pais, muitas vezes, quebram regras, são deselegantes no tratamento com outras pessoas, são agressivas no trânsito, falam mal da diarista, ofendem… Não são respeitosos com seus pais, os avós das crianças.

Os exemplos são fundamentais no processo de educação. Não adianta pedir para meu filho se controlar se eu não me controlo.

Depositamos toda confiança nas ordens que damos. Pensamos que, se somos pais, nossos filhos devem nos obedecer.

Entretanto, não é assim que funciona.

Crianças e adolescentes são grandes observadores, notam desde muito cedo as contradições entre o que falamos e o que fazemos. E aprendem muito mais com nossas atitudes do que com nossas palavras.

O Brasil não preserva sua história

E a desvalorização da história não é uma atitude apenas dos governantes. É de quase todos nós.

A gente percebe isso nitidamente nas pequenas coisas… Que valor damos aos prédios antigos de nossas cidades?

Lembro que, em Maringá, por exemplo, a antiga rodoviária da cidade foi demolida sem nenhum problema de consciência. Houve resistência por parte de gente da universidade e grupos políticos, mas a maioria das pessoas achava o velho prédio apenas um obstáculo pra modernidade.

Nossas famílias não fazem nenhuma questão de incentivarem seus filhos no estudo da história. Na verdade, a maioria desconhece o seu passado.

É esse tipo de atitude que faz que os governos não se preocupem em investir em bibliotecas, museus… Espaços de valorização e preservação da nossa cultura, da nossa história.

Com o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, muita gente lamentou a falta de investimentos. O esquecimento do Museu.

E esse lamento é compreensível, justo, necessário. Porém, temos conhecimento dos investimentos feitos pela prefeitura no patrimônio histórico da cidade?

Não, não temos. E não temos porque a história não é prioridade para nós. Não votaríamos em alguém que prometesse priorizar museus, prédios velhos, bibliotecas, teatros…

Justamente por isso, em 2018, foram investidos 268 mil e 400 reais até agora no Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Já o descaso político com o Museu pode ser observado com a seguinte comparação… Esses 268 mil reais pagariam menos de 15 minutos dos gastos do Congresso Nacional em 2017. Cada hora da Câmara e do Senado custaram 1 milhão, 160 mil reais. Já a máquina judiciária brasileira consumiria o dinheiro aplicado no Museu em menos de dois minutos – no ano passado, o Judiciário brasileiro custou 90 bilhões e 800 milhões de reais.

Ou seja, a comoção com a preservação de nossa história certamente logo será esquecida e vamos seguir a vida ignorando o passado, sem nos dar conta que o passado construiu o presente e nos ajudaria a planejar o futuro.

O desastre do ensino no Brasil

O ministro da Educação, Rosseli Soares, declarou nessa quinta-feira que o Ensino Médio brasileiro está falido.

O ministro fez isso logo após a divulgação dos resultados do Saeb, o Sistema de Avaliação da Educação Básica.

O Saeb demonstrou que os estudantes brasileiros estão terminando o Ensino Médio sem ter domínio de português e matemática, que são essenciais para o aprendizado de todas as demais matérias e para lidar com as demandas práticas do dia a dia.

Sete de cada dez alunos não sabem o suficiente de português e matemática.

Os números são assustadores.

O Saeb estratifica o domínio desses conhecimentos. E aí, quando faz isso, o quadro fica ainda pior. Isso porque apenas 1,64% dos alunos têm domínio adequado, ou seja, são proficientes em português. Em matemática, esse índice é de 4,5%.

Após divulgar resultados tão desastrosos, o ministro sustentou que o Brasil precisa urgente implementar o novo modelo do Ensino Médio. Ele acredita que a proposta atual está levando a educação do país para o fundo do poço.

Eu não discordo totalmente do ministro. Mas, diferente do que o ministro diz, a falta de domínio de português e matemática não é culpa necessariamente do Ensino Médio. E nem será resolvido com o “novo ensino médio”.

O problema começa na base. Lá na educação infantil e nas primeiras séries do chamado Fundamental I. 

Em português, por exemplo, as práticas de ensino, que não valorizam o ensino das estruturas da linguagem, causam um desastre no aprendizado.

Já em matemática, a questão é ainda mais complexa. Quem ensina matemática às crianças nas primeiras séries? Uma pedagoga. Essa profissional pode ser muito preparada, porém, posso afirmar com convicção: poucas pedagogas têm domínio pleno da matemática – muito menos são apaixonadas pela matemática.

E como ensinar bem matemática se falta conhecimento pleno nessa matéria?

Claro, estou aqui mencionando dois pontos apenas. Eles não são os únicos responsáveis. Chega a ser simplista citar somente essas questões. Cito apenas como exemplos de que os problemas de domínio do português e da matemática no final do ensino médio não são culpa necessariamente do ensino médio.

O desastre começa muito mais cedo.

Isso quer dizer que o ensino médio não deve mudar? Claro que deve. É necessário! Contudo, não me parece que a reforma proposta, votada e sancionada pelo governo vai resolver o problema.

A base ainda não está sendo cuidada. A formação de professores também é muito falha.

E, para finalizar, o ensino médio, mesmo que seja renovado, ainda sofrerá os efeitos do sistema de acesso ao ensino superior.

Hoje, é inegável que os vestibulares são nefastos ao processo de ensino no nível médio. O ensino médio é conteudista – e muito disso em função do jeito que os vestibulares e o próprio ENEM são construídos.

Se as autoridades e os pesquisadores não conseguirem observar os problemas e propor mudanças em todos os níveis da educação, pouca coisa vai mudar nos próximos anos.

Não se tira dinheiro do ensino superior para atender a educação básica

Tem sido recorrente nas falas de alguns candidatos à presidência o argumento de que é preciso investir mais na educação infantil, no ensino fundamental e médio. Vários deles, inclusive o líder das pesquisas, alegam que existe uma inversão de prioridades: gasta-se mais no ensino superior e muito pouco na base.

Esse argumento tem um fundo de verdade. Porém, é só um pedaço da verdade.

Em primeiro lugar, o ensino superior custa mais caro. E em qualquer parte do mundo. O ensino superior não é apenas ensino; é ensino, pesquisa e extensão. E essas duas coisas – pesquisa e extensão – são fundamentais, mas têm custo elevado.

Há necessidade de gente organizando e cuidando de cursos e projetos de extensão… Há necessidade de gente fazendo pesquisa. E, para isso, são necessários investimentos em salários, bolsas de estudo etc.

É o tipo de trabalho silencioso, mas que assegura o avanço das ciências.

A gente não pode esquecer que as universidades não têm apenas o papel de formação para o trabalho; universidades fazem ciência, que é o que coloca uma nação na elite no mundo desenvolvido.

Não dá para fazer ensino superior de qualidade sem o tripé – ensino, pesquisa e extensão. E, lamentavelmente, quem movimenta efetivamente a pesquisa e a extensão são as universidades públicas. As particulares, com certa frequência, negligenciam esses aspectos. E quando investem em pesquisa, muitas vezes fazem isso com recursos dos programas do governo federal.

Portanto, se o governo tirar dinheiro das universidades para usar esses recursos no ensino básico, a formação superior, que já tem problemas, vai se tornar ainda mais restrita e elitista.

Infelizmente, esse tipo de argumento tem ganhado a simpatia de parcela da sociedade – que desconhece o funcionamento da estrutura educacional e de suas carências.

Essas pessoas não têm a menor ideia do quanto o Brasil pode retroceder se as universidades perderem orçamento.

E, para concluir, é necessário sim investir mais na educação básica. A educação infantil, o ensino fundamental e médio precisam de mais dinheiro. Mas a lógica não pode ser tirar de um para dar para os outros. O que a gente precisa é de mais dinheiro na base, sem que o topo perca investimentos.

Difícil fazer isso? Claro, mas tudo é uma questão de entender que a educação deve ser prioridade em qualquer sociedade que deseja se desenvolver.

Como desenvolver a criatividade?

A criatividade é um enorme diferencial na vida das pessoas. Quem é criativo parece ser capaz de ir mais longe, de fazer diferente, de fazer melhor.

Mas, diferente do que muita gente pensa, a criatividade não é atributo apenas de alguns privilegiados. Ou da área artística, por exemplo.

Todos nós nascemos com potencial para o desenvolvimento da criatividade.

O que faz toda diferença é a maneira como administramos a vida. E em especial, como educamos nossos filhos.

Por exemplo, fazer tudo sempre do mesmo jeito é um hábito nocivo para o desenvolvimento da criatividade.

E isso vale inclusive para coisas bobas, como, por exemplo, o trajeto que fazemos de casa à escola das crianças.

Se a gente altera a rotina de vez em quando, provoca na criança a surpresa, o questionamento: “por que viemos por aqui?”.

Isso parece bobo, mas, no cérebro da criança, esse pequeno incômodo, provoca a dúvida e a cabecinha dela se abre para uma nova percepção da realidade.

Na escola, funciona do mesmo jeito. Se a dinâmica de aula é sempre a mesma: o professor fala e a criança precisa o tempo todo absorver apenas o que é falado para, depois, na prova, devolver esse conteúdo do jeitinho que foi apresentado em sala, como vai desenvolver a criatividade?

Se, na escola, nossas perguntas só pedem uma resposta e só existe uma resposta correta, os alunos internalizam isso. Tudo mais deixa de ter valor, pois só há uma única maneira de fazer as coisas.

Por outro lado, se o ambiente é dialógico, rico em experiências, se são permitidas outras estratégias para se chegar a um resultado, a criança internaliza essa polifonia.

E o que acontece? O cérebro se abre. Assimila-se uma visão coletiva. As várias formas de entender o mundo tornam a minha visão mais rica. Ampliam-se os critérios e capacidades de dar respostas novas para problemas novos ou antigos.

Portanto, preste atenção nisso, não existem pessoas criativas e pessoas não criativas. Existem pessoas com níveis diferentes de desenvolvimento de criatividade.

Nosso desafio é proporcionar em casa e na escola um ambiente favorável para o desenvolvimento dos recursos internos que vão assegurar a capacidade de dar respostas criativas a própria vida e aos problemas enfrentados no cotidiano.

Críticas à educação…

Tenho me assustado com algumas bobagens ditas pelas pessoas a respeito da educação. Inclusive reproduzidas por políticos – até candidatos à presidência da República.

Uma das grandes besteiras é sustentar que a educação brasileira é doutrinária, forma esquerdistas… Ou, como li hoje, que a educação idiotiza as pessoas (e isso num sentido político, ideológico).

Chega a ser criminoso falar isso! Demonstra claramente que as pessoas desconhecem completamente sobre o que estão falando.

Dos meus 43 anos, em 30 deles eu convivo diariamente com a sala de aula. Como aluno e professor. Por sinal, sou aluno ainda hoje – e justamente de um programa de doutorado que pesquisa a Educação.

Então acho que tenho alguma autoridade pra sustentar que quem critica a Educação, argumentando que idiotiza pessoas, é doutrinária, tem ideologia de gênero… Quem faz isso não sabe nada sobre o que acontece nas escolas, nas salas de aulas. Pior, desconhece por completo como é a formação dos professores no Brasil, quais são – e o que são – as propostas pedagógicas.

A educação brasileira tem sim graves problemas. E forma muito mal nossas crianças, adolescentes e jovens. Mas nada tem a ver com um possível viés político, ideológico. Os motivos são outros – vão desde a falta de investimentos em formação de professores, infraestrutura, passando pela ausência de apoio da sociedade, até um programa educacional equivocado, conteudista.

Por sinal, um dos maiores problemas da educação é não dialogar com a realidade dos alunos, das cidades e do país – aprende-se Gramática, mas não a ler e a escrever de verdade; aprende-se Geografia, mas não é capaz de entender os reais problemas ambientais; aprende-se Matemática, mas nada se sabe sobre gastos públicos, somos incapazes de compreender um projeto de orçamento municipal; aprende-se Física, mas a gente não entende o funcionamento elétrico do chuveiro de casa…

Sim, gente… Temos problemas, porque a escola é conteudista, porque, embora o aluno seja confrontado com a realidade cruel do nosso país, os assuntos dos livros estão distantes dessa realidade. E o professor nem tem tempo para promover um debate, uma reflexão mais ampla.

A maioria dos alunos sai da escola sem entender nada sobre o funcionamento da economia, do Estado brasileiro, sobre as contradições sociais… Desconhece a cultura, a diversidade… Isso faz com que muita gente não tenha habilidades de compreensão de um texto e muito menos seja capaz de ler o mundo em que vive.